Foto: Felipe Larozza

A libertação de Rincon Sapiência

Inspirado na lenda do escravo Chico-Rei, o primeiro disco do rapper paulistano, ‘Galanga Livre’, fala sobre a liberdade existencial e social do(a) negro(a). Conversamos com o rapper sobre a sua trajetória.

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mai 24 2017, 9:18pm

Foto: Felipe Larozza

Chico-Rei é um personagem um tanto conhecido na tradição oral de Minas Gerais. A lenda do rei do Congo que veio para o Brasil como escravo já foi tema de filme, de samba-enredo, de música do Milton Nascimento e ainda apareceu em alguns poemas do livro O Romanceiro da Inconfidência (1953), da Cecília Meireles. Agora é a vez do rapper paulistano Rincon Sapiência de resgatar a história do herói negro para dar mote ao seu disco de estreia, o Galanga Livre, que sai nesta quinta-feira (25).

Galanga seria o nome que Chico-Rei teria tido quando ainda era monarca na África, antes de ser capturado e vendido como escravo para trabalhar na extração de ouro em Vila Rica (atual Ouro Preto). A maior parte das histórias do folclore mineiro contam que Chico-Rei juntou ouro das minas para poder trocá-lo por sua alforria, de seu filho e de seus irmãos africanos, que posteriormente o proclamariam rei de Ouro Preto. Na faixa de introdução do disco e na música seguinte, "Crime Bárbaro", no entanto, o rei-escravo mata seu senhor e é obrigado a fugir para, só assim, alcançar sua liberdade. "'Crime Bárbaro' é baseada num conto fictício de minha autoria. Tanto nele quanto na música, no lugar de Galanga simplesmente comprar sua libertação, como conta a lenda original, o escravo assassina aquele que o escraviza", explicou Rincon em entrevista ao Noisey. "Isso faz com com que o personagem passe a ter um mix de sentimentos: o de alívio e de heroísmo por estar finalmente livre, misturado com o de medo por ter que viver fugindo."

Para Rincon, esse "mix de sentimentos" enfrentados por Galanga nas intros do disco carrega semelhança com a forma que ele, homem negro, passou a se enxergar no Brasil nos últimos anos. "Obviamente, não conseguiremos alcançar uma liberdade plena, já que há todo um monitoramento que é feito desde o seu celular, de redes sociais — ao qual todos estão sujeitos —, até a polícia na rua", disse o rapper. "Só que hoje eu e outros pretos conseguimos nos sentir um pouco mais livres a ponto de conseguirmos nos ver como heróis, o que era mais difícil no passado."

Foi no escritório da Boia Fria Produções, selo pelo qual está saindo o Galanga Livre, na Zona Oeste de São Paulo, que o rapper recebeu a equipe do Noisey. Nascido Danilo Albert Ambrosio, Rincon foi criado na COHAB 1 Artur Alvim, na Zona Leste da capital paulista. Filho caçula de três irmãos, o rapper, na infância, começou a ganhar gosto por black music norte-americana por causa de um tio seu que trabalhava com tecnologia e tinha um videocassete comprado no Paraguai.

"No começo dos anos 90, o acesso a esse tipo de equipamento não era tão democrático assim. Mas, como esse meu tio tinha, ele gravava uns programas da MTV, como o Yo! e o Insomnia, pra gente. Foi assim que eu conheci Michael Jackson, Marvin Gaye e outros nomes de R&B da época". Samba de rádio e pagode anos 90 também tocavam muito na casa do Rincon. Inclusive, um disco que ele ouvia muito desde criança e que mais tarde serviria como umas das referências de samba-rock para as suas músicas, foi o Solta o Pavão (1975), do Jorge Ben. "Além de me inspirar musicalmente, foi por causa deste disco que eu conheci os signos do zodíaco, pelos quais eu me interesso muito desde então", disse o rapper, que é virginiano, fazendo referência às ilustrações trazidas na capa da obra do sambista carioca.

O rap nacional começou a se enfiar na vida do Rincon quando ele tinha uns nove anos e seu irmão mais velho, com 12, chegava mostrando umas fitas de grupos como Nação Hip-Hop, Sistema Negro, Consciência Humana e Pavilhão 9. Só que demorou ainda uma cota pra ele decidir fazer música. "Por mais que eu gostasse, que eu quisesse ter os cortes de cabelo iguais e me vestir do mesmo jeito que os rappers, achava muita pretensão da minha parte eu querer fazer rap. Por isso, a primeira parada em que eu investi mesmo foi o futebol, pra tentar ser jogador profissional."

Por um tempo, Rincon jogou mesmo num time da várzea do bairro onde ele morava, em Itaquera. Só que ele foi ficando mais velho, e a vontade de dar rolê na rua até mais tarde foi crescendo e a de treinar sábado de manhã, por exemplo, foi diminuindo. Mas o MC ressalta que o esporte desempenhou um papel fundamental na sua formação. "O futebol foi o que me deu ambiente de rua e a rua é que dá base pro rap, né?", comentou o rapper. "Na cultura norte-americana, a galera conhecia a rua porque vendia droga, ou era b-boy e praticavam outras atividades da cultura hip-hop que não fossem só o MC. No meu caso, a atividade que me levou pra esse ambiente [da rua] e a conhecer a realidade, pixo, crime, racismo, polícia, samba e malandragem foi o futebol, já que eu jogava com caras mais velhos, que tinham nome no pixo, vendiam droga, essas coisas."

Foi do futebol também que veio o nome artístico de Danilo, inspirado no jogador do Corinthians Freddy Rincón. "Uns caras que ficavam no bar do bairro sempre que me viam, falavam: 'Olha lá, igual ao Rincon! Feio pra caralho". Em 1998, época que ele começou a ter banda, fazer rap e participar de batalha de rima, o Corinthians foi campeão brasileiro, o que fez com que o apelido acabasse colando de vez no rapper [que é palmeirense e fez questão de lembrar que o Rincón já tinha tido passagem pelo Palmeiras]. "Tentei ser o MC Shato — de 'chato', mesmo —, porque uma namorada minha falava que eu era muito crítico. Virginiano, sabe como é", se explicou o rapper. "Mas acho que ninguém ia falar que o MC Shato era 'legal', né? E Todo mundo na quebrada só me conhecia como Rincon. Então, eu tinha que ser 'Rincon Alguma Coisa' mesmo."

O "Sapiência" ele aglutinou depois. Teve uma época de "bixo-grilo", sempre gostou de ufologia, astrologia e outros misticismos e, quando leu que "sapiência" significava "qualidade daquele que tem um grande acervo de conhecimentos", Rincon achou que casava perfeitamente com a sua personalidade e com a mensagem que ele queria passar por meio das suas rimas. "E ainda fica parecendo um nome composto."

Se o seu irmão mais velho, que trabalhava de office-boy desde cedo, foi o responsável por apresentar o hip-hop e o mundo jovem como um todo ao Rincon, seu irmão do meio foi quem o incentivou a escrever suas primeiras linhas. "O Evandro, meu irmão do meio, era muito inteligente. Melhor aluno da escola. Eu também era um bom aluno, mas quando fui pro ensino médio dei uma relaxada", contou o rapper. "E esse meu irmão tinha isso de escrever e tal. E ele foi lá e escreveu um rap. Só que ele era muito tímido e aí parou. Eu fui lá, peguei essas linhas dele e dei continuidade. Então, eu posso dizer que a primeira música que escrevi foi com co-autoria do meu irmão."

Em 2000, aos 15 anos, montou com uns amigos do bairro que também eram chegados em rap, a banda Munições da 38, que acabou não dando muito certo por conta dos famigerados conflitos de, mas serviu para o Rincón ter seu primeiro contato com harmonia. "Também comecei a aprimorar a minha capacidade de compor rápido", disse o rapper. A banda acabou, ele entrou no telemarketing pra poder comprar equipamentos e começar a gravar as suas músicas do seu quarto. Comprou um microfone, uma mesa e uma placa de som. Aprendeu a produzir as bases pra poder rimar em cima sozinho, só que sempre pegando toques de pessoas da comunidade que estavam no meio do rap. "Os estúdios eram nas casas das pessoas. Eu comecei a frequentar esses lugares e fui aprendendo a samplear e a fazer beat", contou Rincon. O DJ Willian, que tocava no Projeto Radial, no Tatuapé, também morava na COHAB que Sapiência. "E eu, meus irmãos e meus primos começamos a frequentar os bailes do Radial, o que fez meu interesse pela produção musical ir crescendo com o tempo."

Desde então, o rapper tem um apreço por produzir as suas próprias músicas. "Hoje em dia eu tenho um conhecimento, ainda em construção, de produção de música mesmo, que vai muito além do beatmaker só, que era o que eu tinha na época do 'Elegância'". A faixa, lançada em 2010, foi o hit que o colocou num circuito mais mainstream do rap nacional. Gravada no Estúdio N — lugar onde ele aprendeu as escalas maiores e que serviu como uma "baita escola" de teoria musical —, do Nefasto, a faixa estourou e profissionalizou a carreira do rapper. "Eu fazia rap desde os 15 anos, mas só em 2010, com 25, depois do 'Elegância', que passei a viver mesmo disso."

Com um hit e um clipe bem produzido (tendo em vista os padrões do rap nacional underground da época), Sapiência assinou com o selo Midas Music, do Rick Bonadio, até o final de 2011. Só que a parceria acabou não dando muito certo. "Quando eu fui pra esse selo, o que eu mais sentia falta era de viver o rap. Porque eu sempre vivia o rap antes, só que lá [no selo], eu produzia, gravava as minhas coisas e as faixas não saíam. Então, mesmo eu tendo música e repertório, eu não podia lançar nada, aí fui perdendo o tesão. Por isso, fiquei um tempo no hiato. Acabei indo do topo, do Top 5 do rap, para o nada."

Um jeito que ele arrumou para tentar recuperar sua vontade de fazer rap, logo depois que saiu do selo, foi lançar a série Akecimento, na qual ele lançava uma faixa toda quinta-feira pelo seu Soundcloud. "Às vezes saíam uma músicas com mixagem ruim, mas o importante era que eu tava movimentando, produzindo e expondo meu trabalho", disse o rapper. "Porém chegou uma hora que fiquei estagnado porque, a ideia era lançar 17 faixas e, no final, soltar o clipe de 'Transporte Público'. Acabou o que o clipe atrasou, o que voltou a dar uma esfriada no corre."

O que o fez se reanimar de vez para o mundo da música foi uma viagem que ele fez para o Senegal e para a Mauritânia. Quando fazia parte do selo Midas Music, Rincon chegou a fazer música com o NxZero e carregava muito no seu imaginário que ele tinha emplacar hits para que o seu trabalho fosse considerado relevante. "Só que essa viagem me fez perceber que não, que a minha música é especial sem precisar ter que ser pop", explicou. Essa percepção chegou ao rapper porque, durante os seus shows no continente africano, ele, que não cantava na língua local (o francês), conseguiu mesmo assim criar uma conexão com o público que nem os rappers do underground francês que também se apresentaram lá não conseguiram. "Acho que tem muito a ver com a fato de que eles faziam um som que ia pra um lado mais Mobb Deep, nova-iorquino, mais frio. Eu cheguei lá tocando meu rap com berimbau e outras referências musicais afro. A galera acabou se identificando mais do que com o rap francês meio chupinhado da East Coast norte-americana."

A primeira coisa que Rincón pensou, então, ao voltar pro Brasil, foi em arrumar uma maneira de como otimizar essa característica do seu som, de misturar outras vertentes de música black e afro que não só o soul, o jazz ou o rock norte-americano. "Comecei a querer a explorar uma percussão mais pesada, diferente, passando pela capoeira, coco, tropicália, afrobeat e até pelo rock mais africano mesmo". Mas, antes de dar início a um trabalho que trouxesse essas outras referências, Rincón soltou o seu primeiro EP, o SP Guetto BR, que era de umas faixas que ele já tinha antes da sua viagem à África. "Foi um alívio lançar alguma coisa independente e tal. Hoje eu vejo que podia ter trabalhado melhor esse disco: ter feito mais clipe, ter rendido mais esse trabalho", disse o rapper. "Depois do EP, pensei: 'Bom, agora vou fazer um trabalho que traga tudo isso que eu aprendi em termos de musicalidade afro. Um disco com uma pesquisa musical e que não precisa, necessariamente, de um hit para se sustentar". E foi daí que surgiu o conceito musical de G alanga Livre.

Seus trabalhos anteriores tinham uma característica forte de se tornarem "músicas de balada", sempre uma pegada eletrônica. "Isso aconteceu com 'Elegância' e 'Sair pra Gastar'. E é legal ter músicas que sejam hits. Mas eu queria que esse meu novo trabalho acompanhasse as pessoas que vão ouvi-lo em outros momentos além do ambiente de festa e curtição. E que o som fosse mais instrumentalizado também", explicou o rapper. Ironicamente, o verso livre "Ponta de Lança", que inicialmente não ia entrar no novo disco, virou um hit, batendo o recorde de número de views — mais de 5 milhões — do rapper no YouTube até hoje, e acabou sendo agregada à tracklist de Galanga Livre "por livre e espontânea pressão". "No entanto, é um afrorap que tem tudo a ver com o conceito do álbum como um todo. E também traz, de alguma forma, o tema da liberdade, quando eu falo que 'o meu verso é livre'. Então, faz sentido ter entrado no Galanga."

E não só "Ponta de Lança" e "Crime Bárbaro", com o personagem Galanga, carregam essa discussão sobre a liberdade. O trabalho inteiro — com 10 faixas oficiais mais duas bônus — fala sobre o "ser livre" em vários aspectos, tanto sociais, quanto individuais e existenciais. "Amores às Escuras", por exemplo, trata de uma libertação amorosa ligada a uma questão de gênero enfrentada pelas negras. "Na música, quis retratar que, apesar de os padrões eurocêntricos nos trazerem algumas amarras, a mulher preta é bonita e livre para ser amada", explicou Rincon.

Já "Moça Namoradeira" traz uma personagem feminina que é muito atrelada aos velhos valores da família e sonha em achar seu príncipe encantado. "Ela se machuca muito com os parceiros que ela vai se envolvendo. A música sugere que ela se liberte disso", diz o rapper. Outra faixa que trata de questões amorosas é "A Noite É Nossa". Nela, um cara fica se lamentando por estar muito envolvido pela garota. "Mas ele pode ter essa liberdade de falar 'é isso mesmo, não queria, só que o cupido me acertou, fazer o quê?'. E ele é livre pra sentir esse sentimento também", concluiu.

Indo para o âmbito mais social, Rincon traz "Ostentação à Pobreza", música que até já ganhou clipe na semana passada e que surpreendeu por ir por uma linha de raciocínio contrário ao do conceito de "ostentar". "Geralmente, a galera faz ostentação às riquezas que elas têm, né? E esse movimento de ostentação cresceu muito nos últimos anos no Brasil, reflexo de um equilíbrio social que aconteceu nos últimos anos e de políticas sociais que foram implementadas", explicou o rapper. "Antes existia um abismo muito grande de o que era o rico e de o que era o pobre. A classe pobre ainda existe, mas é uma classe que tem muito mais informação, acesso, a não ficar só restrito à periferia. Eu vejo muitas melhoras que aconteceram". Ele mesmo se enxerga como fruto disso, porque, hoje, tem TV a cabo, pode ir pra balada e tem um filho que estuda no ensino privado, por exemplo. "Essas músicas de 'vamos pra balada', 'vamos beber' são da hora. Eu gosto de ter uma roupa da hora, um pisante da hora". E, pra ele, isso só aconteceu só por causa desse avanço político-social.

No entanto, em "Ostentação À Pobreza", o rapper quer nos lembrar que ainda existe um tipo de pobreza, de miséria, que ainda não morreu. "Esses avanços sociais deram a impressão de que esse tipo de situação de pobreza quase não existia mais, o que não é verdade". Ele contou que, para poder compor a faixa, estudou e viu vários documentários sobre pessoas que moram em casa de palafita, ou que vivem com menos de três reais por dia, ou que ainda moram em quilombos contemporâneos. "Quando a gente fala em 'quilombo', geralmente, a gente sempre pensa nas questões históricas, em Zumbi dos Palmares, só que ainda existem pessoas que vivem nessa situação hoje no Brasil e em constante conflito com latifundiários. Mas ninguém nunca fala disso."

A liberdade é uma questão presente não só no disco, mas que o circunda de várias outras maneiras. Uma delas é a sua opção pelo vegetarianismo desde os 17 anos, que foi muito motivada por questões religiosas e da cultura Hare Krishna. Com o passar do tempo, no entanto, o rapper foi se afastando do Hare e de todas as outras religiões, por achá-las muito dogmáticas e cerceativas. "Eu comecei a não comer carne por questões espirituais, pra tratar meu corpo como um 'templo', mas, como você pode ver, não é como se eu cuidasse muito do meu 'templo'", disse, rindo e apontando para o segundo cigarro que fumava durante a entrevista. "Até porque eu não quero ser o tipo de pessoa que fala que é melhor que alguém porque não como carne ou porque segue certa doutrina religiosa. Ao mesmo tempo, sempre me vem a seguinte reflexão: 'o quanto é liberdade você comer um nugget sem saber do que ele é feito?".

"Manicongo", outro vulgo pelo qual o rapper da ZL paulistana é conhecido, pode até fazer referência aos governantes do antigo Reino do Congo. Só que, diferente de um rei que busca poder e submeter os outros às suas ordens, Rincon não está interessado em mandar em ninguém. "Eu só quero ser me sentir livre e ser meu próprio herói, não dizer o que alguém deve ou não fazer. Só pretendo inspirar outros negros e negras a sentirem cada vez mais livres e orgulhosos de si mesmos, na medida do possível."

Chico-Rei é um personagem um tanto conhecido na tradição oral de Minas Gerais. A lenda do rei do Congo que veio para o Brasil como escravo já foi tema de filme, de samba-enredo, de música do Milton Nascimento e ainda apareceu em alguns poemas do livro O Romanceiro da Inconfidência (1953), da Cecília Meireles. Agora é a vez do rapper paulistano Rincon Sapiência de resgatar a história do herói negro para dar mote ao seu disco de estreia, o Galanga Livre, que sai nesta quinta-feira (25).

Galanga seria o nome que Chico-Rei teria tido quando ainda era monarca na África, antes de ser capturado e vendido como escravo para trabalhar na extração de ouro em Vila Rica (atual Ouro Preto). A maior parte das histórias do folclore mineiro contam que Chico-Rei juntou ouro das minas para poder trocá-lo por sua alforria, de seu filho e de seus irmãos africanos, que posteriormente o proclamariam rei de Ouro Preto. Na faixa de introdução do disco e na música seguinte, "Crime Bárbaro", no entanto, o rei-escravo mata seu senhor e é obrigado a fugir para, só assim, alcançar sua liberdade. "'Crime Bárbaro' é baseada num conto fictício de minha autoria. Tanto nele quanto na música, no lugar de Galanga simplesmente comprar sua libertação, como conta a lenda original, o escravo assassina aquele que o escraviza", explicou Rincon em entrevista ao Noisey. "Isso faz com com que o personagem passe a ter um mix de sentimentos: o de alívio e de heroísmo por estar finalmente livre, misturado com o de medo por ter que viver fugindo."

Para Rincon, esse "mix de sentimentos" enfrentados por Galanga nas intros do disco carrega semelhança com a forma que ele, homem negro, passou a se enxergar no Brasil nos últimos anos. "Obviamente, não conseguiremos alcançar uma liberdade plena, já que há todo um monitoramento que é feito desde o seu celular, de redes sociais — ao qual todos estão sujeitos —, até a polícia na rua", disse o rapper. "Só que hoje eu e outros pretos conseguimos nos sentir um pouco mais livres a ponto de conseguirmos nos ver como heróis, o que era mais difícil no passado."

Foi no escritório da Boia Fria Produções, selo pelo qual está saindo o Galanga Livre, na Zona Oeste de São Paulo, que o rapper recebeu a equipe do Noisey. Nascido Danilo Albert Ambrosio, Rincon foi criado na COHAB 1 Artur Alvim, na Zona Leste da capital paulista. Filho caçula de três irmãos, o rapper, na infância, começou a ganhar gosto por black music norte-americana por causa de um tio seu que trabalhava com tecnologia e tinha um videocassete comprado no Paraguai.

"No começo dos anos 90, o acesso a esse tipo de equipamento não era tão democrático assim. Mas, como esse meu tio tinha, ele gravava uns programas da MTV, como o Yo! e o Insomnia, pra gente. Foi assim que eu conheci Michael Jackson, Marvin Gaye e outros nomes de R&B da época". Samba de rádio e pagode anos 90 também tocavam muito na casa do Rincon. Inclusive, um disco que ele ouvia muito desde criança e que mais tarde serviria como umas das referências de samba-rock para as suas músicas, foi o Solta o Pavão (1975), do Jorge Ben. "Além de me inspirar musicalmente, foi por causa deste disco que eu conheci os signos do zodíaco, pelos quais eu me interesso muito desde então", disse o rapper, que é virginiano, fazendo referência às ilustrações trazidas na capa da obra do sambista carioca.

O rap nacional começou a se enfiar na vida do Rincon quando ele tinha uns nove anos e seu irmão mais velho, com 12, chegava mostrando umas fitas de grupos como Nação Hip-Hop, Sistema Negro, Consciência Humana e Pavilhão 9. Só que demorou ainda uma cota pra ele decidir fazer música. "Por mais que eu gostasse, que eu quisesse ter os cortes de cabelo iguais e me vestir do mesmo jeito que os rappers, achava muita pretensão da minha parte eu querer fazer rap. Por isso, a primeira parada em que eu investi mesmo foi o futebol, pra tentar ser jogador profissional."

Por um tempo, Rincon jogou mesmo num time da várzea do bairro onde ele morava, em Itaquera. Só que ele foi ficando mais velho, e a vontade de dar rolê na rua até mais tarde foi crescendo e a de treinar sábado de manhã, por exemplo, foi diminuindo. Mas o MC ressalta que o esporte desempenhou um papel fundamental na sua formação. "O futebol foi o que me deu ambiente de rua e a rua é que dá base pro rap, né?", comentou o rapper. "Na cultura norte-americana, a galera conhecia a rua porque vendia droga, ou era b-boy e praticavam outras atividades da cultura hip-hop que não fossem só o MC. No meu caso, a atividade que me levou pra esse ambiente [da rua] e a conhecer a realidade, pixo, crime, racismo, polícia, samba e malandragem foi o futebol, já que eu jogava com caras mais velhos, que tinham nome no pixo, vendiam droga, essas coisas."

Foi do futebol também que veio o nome artístico de Danilo, inspirado no jogador do Corinthians Freddy Rincón. "Uns caras que ficavam no bar do bairro sempre que me viam, falavam: 'Olha lá, igual ao Rincon! Feio pra caralho". Em 1998, época que ele começou a ter banda, fazer rap e participar de batalha de rima, o Corinthians foi campeão brasileiro, o que fez com que o apelido acabasse colando de vez no rapper [que é palmeirense e fez questão de lembrar que o Rincón já tinha tido passagem pelo Palmeiras]. "Tentei ser o MC Shato — de 'chato', mesmo —, porque uma namorada minha falava que eu era muito crítico. Virginiano, sabe como é", se explicou o rapper. "Mas acho que ninguém ia falar que o MC Shato era 'legal', né? E Todo mundo na quebrada só me conhecia como Rincon. Então, eu tinha que ser 'Rincon Alguma Coisa' mesmo."

O "Sapiência" ele aglutinou depois. Teve uma época de "bixo-grilo", sempre gostou de ufologia, astrologia e outros misticismos e, quando leu que "sapiência" significava "qualidade daquele que tem um grande acervo de conhecimentos", Rincon achou que casava perfeitamente com a sua personalidade e com a mensagem que ele queria passar por meio das suas rimas. "E ainda fica parecendo um nome composto."

Se o seu irmão mais velho, que trabalhava de office-boy desde cedo, foi o responsável por apresentar o hip-hop e o mundo jovem como um todo ao Rincon, seu irmão do meio foi quem o incentivou a escrever suas primeiras linhas. "O Evandro, meu irmão do meio, era muito inteligente. Melhor aluno da escola. Eu também era um bom aluno, mas quando fui pro ensino médio dei uma relaxada", contou o rapper. "E esse meu irmão tinha isso de escrever e tal. E ele foi lá e escreveu um rap. Só que ele era muito tímido e aí parou. Eu fui lá, peguei essas linhas dele e dei continuidade. Então, eu posso dizer que a primeira música que escrevi foi com co-autoria do meu irmão."

Em 2000, aos 15 anos, montou com uns amigos do bairro que também eram chegados em rap, a banda Munições da 38, que acabou não dando muito certo por conta dos famigerados conflitos de, mas serviu para o Rincón ter seu primeiro contato com harmonia. "Também comecei a aprimorar a minha capacidade de compor rápido", disse o rapper. A banda acabou, ele entrou no telemarketing pra poder comprar equipamentos e começar a gravar as suas músicas do seu quarto. Comprou um microfone, uma mesa e uma placa de som. Aprendeu a produzir as bases pra poder rimar em cima sozinho, só que sempre pegando toques de pessoas da comunidade que estavam no meio do rap. "Os estúdios eram nas casas das pessoas. Eu comecei a frequentar esses lugares e fui aprendendo a samplear e a fazer beat", contou Rincon. O DJ Willian, que tocava no Projeto Radial, no Tatuapé, também morava na COHAB que Sapiência. "E eu, meus irmãos e meus primos começamos a frequentar os bailes do Radial, o que fez meu interesse pela produção musical ir crescendo com o tempo."

Desde então, o rapper tem um apreço por produzir as suas próprias músicas. "Hoje em dia eu tenho um conhecimento, ainda em construção, de produção de música mesmo, que vai muito além do beatmaker só, que era o que eu tinha na época do 'Elegância'". A faixa, lançada em 2010, foi o hit que o colocou num circuito mais mainstream do rap nacional. Gravada no Estúdio N — lugar onde ele aprendeu as escalas maiores e que serviu como uma "baita escola" de teoria musical —, do Nefasto, a faixa estourou e profissionalizou a carreira do rapper. "Eu fazia rap desde os 15 anos, mas só em 2010, com 25, depois do 'Elegância', que passei a viver mesmo disso."

Com um hit e um clipe bem produzido (tendo em vista os padrões do rap nacional underground da época), Sapiência assinou com o selo Midas Music, do Rick Bonadio, até o final de 2011. Só que a parceria acabou não dando muito certo. "Quando eu fui pra esse selo, o que eu mais sentia falta era de viver o rap. Porque eu sempre vivia o rap antes, só que lá [no selo], eu produzia, gravava as minhas coisas e as faixas não saíam. Então, mesmo eu tendo música e repertório, eu não podia lançar nada, aí fui perdendo o tesão. Por isso, fiquei um tempo no hiato. Acabei indo do topo, do Top 5 do rap, para o nada."

Um jeito que ele arrumou para tentar recuperar sua vontade de fazer rap, logo depois que saiu do selo, foi lançar a série Akecimento, na qual ele lançava uma faixa toda quinta-feira pelo seu Soundcloud. "Às vezes saíam uma músicas com mixagem ruim, mas o importante era que eu tava movimentando, produzindo e expondo meu trabalho", disse o rapper. "Porém chegou uma hora que fiquei estagnado porque, a ideia era lançar 17 faixas e, no final, soltar o clipe de 'Transporte Público'. Acabou o que o clipe atrasou, o que voltou a dar uma esfriada no corre."

O que o fez se reanimar de vez para o mundo da música foi uma viagem que ele fez para o Senegal e para a Mauritânia. Quando fazia parte do selo Midas Music, Rincon chegou a fazer música com o NxZero e carregava muito no seu imaginário que ele tinha emplacar hits para que o seu trabalho fosse considerado relevante. "Só que essa viagem me fez perceber que não, que a minha música é especial sem precisar ter que ser pop", explicou. Essa percepção chegou ao rapper porque, durante os seus shows no continente africano, ele, que não cantava na língua local (o francês), conseguiu mesmo assim criar uma conexão com o público que nem os rappers do underground francês que também se apresentaram lá não conseguiram. "Acho que tem muito a ver com a fato de que eles faziam um som que ia pra um lado mais Mobb Deep, nova-iorquino, mais frio. Eu cheguei lá tocando meu rap com berimbau e outras referências musicais afro. A galera acabou se identificando mais do que com o rap francês meio chupinhado da East Coast norte-americana."

A primeira coisa que Rincón pensou, então, ao voltar pro Brasil, foi em arrumar uma maneira de como otimizar essa característica do seu som, de misturar outras vertentes de música black e afro que não só o soul, o jazz ou o rock norte-americano. "Comecei a querer a explorar uma percussão mais pesada, diferente, passando pela capoeira, coco, tropicália, afrobeat e até pelo rock mais africano mesmo". Mas, antes de dar início a um trabalho que trouxesse essas outras referências, Rincón soltou o seu primeiro EP, o SP Guetto BR, que era de umas faixas que ele já tinha antes da sua viagem à África. "Foi um alívio lançar alguma coisa independente e tal. Hoje eu vejo que podia ter trabalhado melhor esse disco: ter feito mais clipe, ter rendido mais esse trabalho", disse o rapper. "Depois do EP, pensei: 'Bom, agora vou fazer um trabalho que traga tudo isso que eu aprendi em termos de musicalidade afro. Um disco com uma pesquisa musical e que não precisa, necessariamente, de um hit para se sustentar". E foi daí que surgiu o conceito musical de G alanga Livre.

Seus trabalhos anteriores tinham uma característica forte de se tornarem "músicas de balada", sempre uma pegada eletrônica. "Isso aconteceu com 'Elegância' e 'Sair pra Gastar'. E é legal ter músicas que sejam hits. Mas eu queria que esse meu novo trabalho acompanhasse as pessoas que vão ouvi-lo em outros momentos além do ambiente de festa e curtição. E que o som fosse mais instrumentalizado também", explicou o rapper. Ironicamente, o verso livre "Ponta de Lança", que inicialmente não ia entrar no novo disco, virou um hit, batendo o recorde de número de views — mais de 5 milhões — do rapper no YouTube até hoje, e acabou sendo agregada à tracklist de Galanga Livre "por livre e espontânea pressão". "No entanto, é um afrorap que tem tudo a ver com o conceito do álbum como um todo. E também traz, de alguma forma, o tema da liberdade, quando eu falo que 'o meu verso é livre'. Então, faz sentido ter entrado no Galanga."

E não só "Ponta de Lança" e "Crime Bárbaro", com o personagem Galanga, carregam essa discussão sobre a liberdade. O trabalho inteiro — com 10 faixas oficiais mais duas bônus — fala sobre o "ser livre" em vários aspectos, tanto sociais, quanto individuais e existenciais. "Amores às Escuras", por exemplo, trata de uma libertação amorosa ligada a uma questão de gênero enfrentada pelas negras. "Na música, quis retratar que, apesar de os padrões eurocêntricos nos trazerem algumas amarras, a mulher preta é bonita e livre para ser amada", explicou Rincon.

Já "Moça Namoradeira" traz uma personagem feminina que é muito atrelada aos velhos valores da família e sonha em achar seu príncipe encantado. "Ela se machuca muito com os parceiros que ela vai se envolvendo. A música sugere que ela se liberte disso", diz o rapper. Outra faixa que trata de questões amorosas é "A Noite É Nossa". Nela, um cara fica se lamentando por estar muito envolvido pela garota. "Mas ele pode ter essa liberdade de falar 'é isso mesmo, não queria, só que o cupido me acertou, fazer o quê?'. E ele é livre pra sentir esse sentimento também", concluiu.

Indo para o âmbito mais social, Rincon traz "Ostentação à Pobreza", música que até já ganhou clipe na semana passada e que surpreendeu por ir por uma linha de raciocínio contrário ao do conceito de "ostentar". "Geralmente, a galera faz ostentação às riquezas que elas têm, né? E esse movimento de ostentação cresceu muito nos últimos anos no Brasil, reflexo de um equilíbrio social que aconteceu nos últimos anos e de políticas sociais que foram implementadas", explicou o rapper. "Antes existia um abismo muito grande de o que era o rico e de o que era o pobre. A classe pobre ainda existe, mas é uma classe que tem muito mais informação, acesso, a não ficar só restrito à periferia. Eu vejo muitas melhoras que aconteceram". Ele mesmo se enxerga como fruto disso, porque, hoje, tem TV a cabo, pode ir pra balada e tem um filho que estuda no ensino privado, por exemplo. "Essas músicas de 'vamos pra balada', 'vamos beber' são da hora. Eu gosto de ter uma roupa da hora, um pisante da hora". E, pra ele, isso só aconteceu só por causa desse avanço político-social.

No entanto, em "Ostentação À Pobreza", o rapper quer nos lembrar que ainda existe um tipo de pobreza, de miséria, que ainda não morreu. "Esses avanços sociais deram a impressão de que esse tipo de situação de pobreza quase não existia mais, o que não é verdade". Ele contou que, para poder compor a faixa, estudou e viu vários documentários sobre pessoas que moram em casa de palafita, ou que vivem com menos de três reais por dia, ou que ainda moram em quilombos contemporâneos. "Quando a gente fala em 'quilombo', geralmente, a gente sempre pensa nas questões históricas, em Zumbi dos Palmares, só que ainda existem pessoas que vivem nessa situação hoje no Brasil e em constante conflito com latifundiários. Mas ninguém nunca fala disso."

A liberdade é uma questão presente não só no disco, mas que o circunda de várias outras maneiras. Uma delas é a sua opção pelo vegetarianismo desde os 17 anos, que foi muito motivada por questões religiosas e da cultura Hare Krishna. Com o passar do tempo, no entanto, o rapper foi se afastando do Hare e de todas as outras religiões, por achá-las muito dogmáticas e cerceativas. "Eu comecei a não comer carne por questões espirituais, pra tratar meu corpo como um 'templo', mas, como você pode ver, não é como se eu cuidasse muito do meu 'templo'", disse, rindo e apontando para o segundo cigarro que fumava durante a entrevista. "Até porque eu não quero ser o tipo de pessoa que fala que é melhor que alguém porque não como carne ou porque segue certa doutrina religiosa. Ao mesmo tempo, sempre me vem a seguinte reflexão: 'o quanto é liberdade você comer um nugget sem saber do que ele é feito?".

"Manicongo", outro vulgo pelo qual o rapper da ZL paulistana é conhecido, pode até fazer referência aos governantes do antigo Reino do Congo. Só que, diferente de um rei que busca poder e submeter os outros às suas ordens, Rincon não está interessado em mandar em ninguém. "Eu só quero ser me sentir livre e ser meu próprio herói, não dizer o que alguém deve ou não fazer. Só pretendo inspirar outros negros e negras a sentirem cada vez mais livres e orgulhosos de si mesmos, na medida do possível."

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