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GUERRA

Todas as mentiras que contam sobre os protestos na Palestina

A conta não bate quando se tentam justificar as mortes de manifestantes palestinos.

por Muhammad Shehada, e Jamie Stern-Weiner; Traduzido por Thiago “Índio” Silva
25 Junho 2018, 6:20pm

Khan Yunis, Faixa de Gaza. 1º de junho de 2018. Bombas de gás lacrimogêno são atiradas em manifestantes e médicos palestinos durante confrontos com as forças de segurança israelenses ao logo da fronteira entre Israel e Gaza Foto: dpa picture alliance/Alamy Stock Photo.

Ao longo das últimas dez semanas, dezenas de milhares de palestinos em Gaza tem participado daquilo que ficou conhecido como “Grande Marcha do Retorno”, protestos não-violentos gigantescos que vão contra o cerco ilegal de Israel. Israel, por sua vez, tem reagido com violência.

Até 7 de junho, as forças israelenses já haviam matado mais de 110 palestinos ao longo das manifestações, incluindo 14 crianças. Além destes, outros 3.700 foram feridos com munição real. De forma a aterrorizar o povo de Gaza à submissão e minimizar as críticas internacionais pelo uso de força letal, atiradores de elite israelenses posicionados no perímetro da cerca de Gaza atiram nas pernas dos manifestantes. “O objetivo”, noticia o jornal israelense Ha’aretz era “deixar o máximo possível de jovens com deficiências permanentes”. Para tanto, os atiradores usaram projetéis expansíveis capazes de "pulverizar" ossos e que deixam ferimentos do tamanho de um punho. De acordo com o Secretário-Geral da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Próximo Oriente (UNRWA), responsável pela educação e fornecimento de cuidados à saúde dos refugiados em Gaza, “muitos” dos alvejados sofrerão com “sequelas a longo prazo”. Missão cumprida.

De forma a legitimizar o uso da violência excessiva, Israel tem tentado colocar em cheque a credibilidade do caráter popular dos protestos em Gaza, fazendo-os parecer uma ameaça à sua segurança. Uma série de rumores sobre as manifestações acabou por ganhar força, rumores que tem pouca relação com a realidade, assim como a insistência de Israel nos anos 80 de que a amplamente pacífica Intifada era uma "campanha terrorista" promovida por "turbas", ou, no caso atual, suas negativas de que o exército de Israel usou fósfor branco em Gaza durante a Operação Chumbo Fundido.

Ninguém está afirmando que as forças palestinas em momento algum tenham usado de formas violentas para resistir ao cerco prolongado e ilegal de Israel — que tornou Gaza um lugar "impossível de se viver", de acordo com oficiais das Nações Unidas. Fato é que a grande maioria dos protestos atuais não são violentos e mesmo assim foram recebidos com força homicida.

Listamos aqui alguns dos mitos e boatos mais proeminentes sobre as recentes manifestações e explicamos porque não passam de boatos.

AS MANIFESTAÇÕES EM GAZA SÃO VIOLENTAS

O Governo de Israel afirma que as manifestações em Gaza contaram com “incidentes violentos em massa” considerados “excepcionais em seu escopo e na extensão da ameaça que ofereciam”. Dentre tais incidentes teríamos o arremesso de granadas e demais explosivos, bem como tiros direcionados a soldados israelenses. Mas tais afirmações se apresentam da seguinte forma: sem quaisquer evidências, implausíveis ou grandemente exageradas de forma a representar erroneamente o que aconteceu de verdade.

Primeiro, observadores de confiança relatam que, ao passo em que uma minoria de manifestantes de fato atirou pedras e molotovs a soldados israelenses (fora de alcance, diga-se), as manifestações em grande parte envolveram “reuniões, shows, jogos esportivos, discursos, dentres outras atividades pacíficas”. Um jornalista americano em Gaza inclusive revelou que, mesmo em meio ao as manifestantes próximos da cerca, “não haviam armas, granadas, foguetes”. Agentes do respeitado Centro Palestino de Direitos Humanos em Gaza “não testemunharam a presença de armas ou pessoas armadas em trajes civis entre os manifestantes”, já a Anistia Internacional nos informou que, até 8 de junho, “não ter visto nenhuma prova do uso de armas de fogo por parte dos palestinos contra soldados israelenses durante as manifestações.” Isto explicaria porque os soldados israelenses se sentiram à vontade em meio à multidão, à vista de todos, atirando nos manifestantes. Havia pessoal armado vestido como civil nas barracas da manifestação — mas não próximos à cerca — cujo objetivo era garantir a segurança de figuras políticas ali presentes, obstruir coleta de informações e manter a ordem público. Por mais que alguns incidentes isolados tenham ocorrido longe da barreira, nenhuma das diversas testemunhas com quem falamos viram sequer um “manifestante armado” ou qualquer outro indivíduo armado se aproximando da barreira.

Em segundo lugar, Israel não apresentou provas contundentes de manifestantes armados ou ataques com arma de fogo. Até mesmo um correspondente militar veterano israelense comentou que “nem nós ou veículos internacionais de comunicação recebemos imagens e relatos que ilustrem o perigo e ameaça aos atiradores de elite e do exército israelense posicionado ao longo da barreira”. O mesmo correspondente zombou da recusa de Israel em permitir que jornalistas se aproximem da barreira, colocando-os em uma “distância segura... onde não poderão ser atingidos por uma pedra ou bolinha atirada de um estilingue, ou ainda, deus nos livre, de respirarem gás lacrimogêneo”.

A ligação entre a fraca ameaça diante dos soldados israelenses e o fracasso do próprio exército em fornecer material convicente aos jornalistas parece não ter lhe saltado aos olhos. Será mesmo que ele esperava que o exército lhe mandasse fotos de alguém atirando bolinhas de gude com um estilingue?

À medida em que o exército israelense está equipado com aparato de vigilância de ponta, o que inclui até mesmo "imagens de drones" sobrevoando o local e afirma ter usado força letal somente contra "quem está armado", a clara falta de provas da existência destes explosivos e armamentos é algo a se levar em consideração. Toda e quaisquer “evidências” fornecidas por Israel só sublinham a ausência de forças armadas dentro das manifestações. Observe, por exemplo, as fotos e filmagens daquilo que Israel chamou de “granadas” e “explosivos improvisados”, que não passavam de bombinhas caseiras, do mesmo tipo que os adolescentes de Gaza estouram em casamentos e festas, daquelas que só fazem barulho e nada mais.

Em outro ponto relacionado, Israel afirma que os manifestantes que ultrapassaram a barreira em Gaza teriam matado civis nas comunidades fronteiriças, mas se consideramos que o objetivo dos manifestantes era mesmo matar civis israelenses, por que diabos eles estariam desarmados, de acordo com todos os relatos confiáves? Ou então, estariam os manifestantes planejando cometer assassinatos em massa usando estilingues? Da sua parte, o exército israelense não duvida das intenções destas manifestações, movidas pela “situação e dificuldades enfrentadas em Gaza”, como explicado por um oficial de alto escalão do Comando Sul do Exército Israelense, “e não pelas ambições militares do Hamas”. O “propósito de todos estes eventos”, comentou, “é tornar pública” esta “situação de dificuldades”.

À Mahmoud al-Zahar, líder politico do Hamas, foram atribuídos comentários de que as manifestações pacíficas em Gaza contariam com “o reforço de um exército e agências de segurança”. Isto foi interpretado como uma confissão de que o Hamas estaria “usando civis pacíficos deliberadamente nas manifestações como uma espécie de cobertura e como bucha de canhão para suas operações militares”. Mas o que Zahar quis mesmo dizer é que as manifestações dependem da proteção do Hamas enquanto meio dissuasivo. Na falta de um exército apropriado em Gaza, os soldados simplesmente atravessariam a barreira, destruiriam as tendas e prenderiam centenas de manifestantes. Outras figuras ligadas ao Hamas argumentaram o mesmo nestas últimas semanas, deixando clara a resistência “não-violenta” do Hamas e a estratégia “pacífica” das autoridades palestinas — esta última associada à passividade e rendição.

Terceiro: se os protestos de Gaza são compostos por “incidentes de violência em massa excepcionais em seu escopo e ameaça”, como que — depois de dez semanas de manifestação, onde mais de 110 manifestantes palestinos morreram — apenas um único soldado israelense relatou “ferimentos leves” após ser “atingido por uma pedra?”.

O Hamas deu ordens claras de que nenhum de seus integrantes deveria levar armas às manifestações. Mesmo com Israel tendo atirado em mais de 3.700 pessoas com munição real, desde o início da Grande Marcha em 30 de março até seu auge em 14 de maio, nenhum “foguete” foi atirado de volta em resposta. Caso o Hamas quisesse matar os atiradores de elite israelenses, poderia tê-lo feito com sua própria unidade de atiradores, em vez de — como alegado por Israel — enviar militantes armados em meio ao povo. De fato, o Hamas liberou imagens que mostram como os atiradores israelenses estavam ao alcance de suas forças. Se apenas um soldado israelense relatou ferimentos, certamente isso aconteceu porque o Hamas decidiu não atacar de volta, de forma a manter o prosseguimento das manifestações populares.

O HAMAS MANIPULOU MANIFESTANTES PARA QUE FOSSEM PARA CIMA DA BARREIRA

Como informado por um residente de Gaza à Amira Hass, respeitada jornalista israelense que residiu por um bom tempo em Gaza, o Hamas "não pode nos forçar a nos colocarmos em perigo". "As pessoas de Gaza", apontou outro jornalista israelense experiente da região, "não são robôs". Um dos autores deste texto inclusive conhece membros do Hamas que foram convidados insistentemente a tomarem parte nas manifestações — e não ir pra cima da fronteira — mas que no final optaram por ficar em casa. Pais, oficiais superiores e líderes imploraram ainda para que outros membros do Hamas não participassem das manifestações porque seriam alvos fáceis e de grande valor para o exército israelense (caso de Moaaz e Abdul-Salam Haniyeh, os dois filhos de um dos principais líderes políticos do Hamas, Ismail Haniyeh), mas que acabaram indo às manifestações mesmo assim, contrariando ordens e conselhos de todos ao seu redor.

Foi relatado ainda que "religiosos e líderes de facções militantes" haveriam divulgado a afirmação falsa de que "a barreira havia sido invadida" de forma que manifestantes sentiriam-se encorajados a tomá-la. Como justificavia para as manifestações, falta credibilidade: os próprios manifestantes teriam como verificar se a barreira fora tomada ou não, visto que as tendas de manifestantes estão localizada em região acima da mesma. Alegou-se ainda que “organizadores ordenaram por meio de alto-falantes que os manifestantes rompessem a cerca da fronteira, afirmando que soldados israelenses estariam abandonando seus postos, ao passo em que estes recebiam reforços”. Caso isso realmente tenha acontecido, trata-se de um incidente menor e de pouca importância. Via de regra, o Hamas e o comitê organizador tem feito de tudo para não serem associados a tentativas de romper a barreira, evitando assim dar à Israel pretexto para atacar os acampamentos.

No general, a ideia de que uma parte significativa dos 45.000 manifestantes (estimativa oficial de Israel) que se reuniu perto da fronteira de Gaza em 14 de maio o fez por pura ignorância ou compulsão não só carece de provas, como de plausibilidade básica. “Todo mundo na Faixa de Gaza sabe”, escreveu Hass, que “os hospitais estão lotados e as equipes médicas não tem condições de tratar dos feridos”. O uso de força letal por parte do exército de Israel em nada surpreende sobreviventes das muitas “operações” israelenses, logo, não faria sentido o Hamas coagir milhares de pessoas a rumarem diretamente para suas mortes.

No início da Primeira Intifada, Israel alegou que a revolução não-violenta teria sido "cuidadosamente orquestrada" pela Organização da Liberação Palestina (PLO) e teria sido fruto de “incitação” por parte da PLO no lugar de uma insatisfação genuína. O representante de Israel para as Nações Unidas, um tal Benjamin Netanyahu, havia descrito a ocupação como a “mais benigna administração militar na história”. Em resposta, o observador permanente da Liga Árabe apontou a estranha irrelevância do argumento de Israel: “Há uma insistência contínua por parte de Israel em descrever as manifestações atuais como se não fossem espontâneas e sim incitadas. Não entendo a distinção. Fato é que, mesmo que incitadas, a resposta tem sido total, universal, contínua e duradoura”.

Da mesma forma, as manifestações em Gaza não podem ser explicadas somente como fruto de ação do Hamas. Se tantos em Gaza estão dispostos a arriscarem suas vidas, é porque viver ali tornou-sem uma tarefa impossível. "Não há vida de verdade em Gaza", lamentou uma manifestante de 37 anos, pesquisadora de direitos humanos e mãe de quatro crianças. “O lugar todo está clinicamente morto. As gerações mais jovens são esmagadas pela falta de esperança e morte por toda parte. Estas manifestações nos deram um fio de esperança. São nossa chance de gritar para o mundo que ele precisa acordar, que tem gente aqui lutando pelos direitos mais básicos... Nós também merecemos viver”.

NÃO TEM PROBLEMA ATACAR MANIFESTANTES JÁ QUE ISSO É COISA DO HAMAS

O Hamas apoia as manifestações e seus integrantes foram ordenados a participarem do movimento desarmados. Mas a campanha surgiu mesmo em meio ao povo de Gaza, considerando que apenas dois dos 19 membros do comitê organizador são representantes do Hamas, a grande maioria sendo composta por ativisitas e representantes de outras facções políticas.

É bizarro passar décadas pedindo que o Hamas deixe de lado a violência e adote uma postura mais pacífica para então justificar o assassinato brutal de manifestantes desarmados com base na de ideia que foram organizados ou são membros do Hamas. É de se esperar que o Hamas abra mão das armas para que Israel possa matá-los com mais facilidade? Pelo visto, ao menos no quesito político, o Hamas está na merda independente do que fizer.

Sob ótica da lei internacional, enquanto isso, a extensão do papel do Hamas na organização das manifestações é irrelevante. O povo de Gaza tem direito ao protesto pacífico, ao passo em que Israel não tem direito de executar ninguém extrajudicialmente só porque este ou aquele indivíduo é integrante do Hamas.

Uma declaração de Salah Bardawil, líder do Hamas na Faixa de Gaza, foi citada à exaustão de forma a desacreditar as manifestações. Em entrevista cedida a uma emissora de TV, Bardawil Bardawil afirmou que 50 das mais de 60 pessoas mortas no 14 de maio seriam integrantes do Hamas. Esta afirmação foi usada para justificar as mortes ocorridas em Israel naquela data, porém, o contexto crítico da fala de Bardawil foi deixado de lado ao passo em que bizarríssimas inferências morais derivaram da mesma.

Primeiro, Bardawil tinha interesses claros ao exagerar o número de mortes de membros do Hamas. Durante a Operação Chumbo Fundido (2008-2009), tanto Hamas quanto Israel inflaram o número de militantes do Hamas mortos, cada um com seu próprio objetivo em mente: Israel de forma a desviar de qualquer reação negativa internacional e o Hamas para ganhar pontos políticos ao participar na resistência. A declaração de Bardawil e a exploração de Israel em cima disso fazem a história se repetir. Como notado por Amira Hass em texto no Ha’aretz, Bardawil estava respondendo a críticas de que o “Hamas estaria mandando gente rumo à morte na barreira enquanto via tudo de longe, na segurança de casa”. Ele aumentou o número de mortos do Hamas de forma a defendê-los desta acusação. “A declaração de Bardawil focava no público em Gaza”, observou um dos organizadores do protesto, "de forma a promover a imagem de seu partido”.

Segundo, Bardawil ou se enganou com os números ou usou o termo “ligado ao Hamas” meio na gambiarra não se referindo somente aos membros do Hamas, mas também aqueles que o apoiam. Levando em conta esse critério (nada concreto), grande parte da população de Gaza pode ser encarada como ligada ao Hamas. Falando de dados mais precisos, de acordo com Amira Hass, a estimativa oficial do Hamas é de que 42 pessoas ligadas ao mesmo estariam entre as 120 pessoas mortas desde o início dos protestos em 30 de março. Mais de metade destas 42 pessoas seriam “manifestantes desarmados”. Além do que, outros 20 integrantes do Hamas foram mortos “longe das manifestações, mas em circunstâncias que requerem maior esclarecimento”.

Terceiro, como descrevi acima, está longe de ser um segredo a participação e apoio do Hamas nas manifestações em Gaza. Tendo em vista interesses em manter a unidade do movimento e alinhar-se à estratégia de não-violência, o Hamas instruiu integrantes que decidissem participar dos protestos para deixarem suas armas em casa, deixarem de lado os uniformes militares e se apresentarem como civis, sem bandeira ou insígnia do próprio Hamas.

Quarto: o grande número de integrantes do Hamas entre os mortos não surpreende, tendo em vista que desde o primeiro dia de manifestações, o exército israelense focou deliberadamente nestes. Dez dos 15 manifestantes mortos em 30 de março estavam ligados ao Hamas, incluindo cinco membros de unidades de elite das Brigadas de Qassam (braço militar do Hamas). Até mesmo Israel não alegou desta vez se tratarem de manifestantes armados no 30 de março. O Hamas chegou a conclusão de que Israel teria usado tecnologia de reconhecimento facial para ajudar no processo de aquisição destes alvos e sugeriu que seus integrantes deixassem seus celulares em casa e usassem máscaras. Cabe lembrar que, neste caso, as forças israelenses não atiraram a esmo, muito pelo contrário, os mais de 110m manifestantes mortos e 3.700 feridos foram escolhidos um a um. Um oficial-sênior da Human Rights Watch descreveu como foi o massacre: “Tratam-se de atiradores de elite a muitos e muitos metros de distância, posicionados em local seguro, atirando em manifestantes específicos, executando um de cada vez”.

“Não é um sem-fim de tiros”, escreveu jornalista do The Nation ali presente. “É algo metódico, paciente, preciso. Um único tiro e alguém cai. Esperam-se alguns minutos. A mira vai para outro alvo. Mais um tiro, mais um corpo ao chão. E mais uma vez. E outra. Tudo ao longo de quatro horas”.

Quinto, como comentamos acima, fazer parte do Hamas — autoridade em Gaza cujo partido foi eleito democraticamente em 2006 — não é motivo para execução extrajudicial. Um manifestante não-violento fazer parte do Hamas também não é crime.

ISRAEL NÃO PODE DEIXAR O HAMAS NO PODER, POIS O HAMAS QUER DESTRUIR ISRAEL

O estatuto de 1988 do Hamas, que contém passagens antisemitas e anseia pela “obliteração de Israel”, é frequentemente citado como prova de que o movimento busca a destruição de Israel.

Mas tal documento há muito não serve mais de guia para a conduta política do Hamas. Após a vitória nas urnas em 2006, os líderes do movimento escreveram uma carta ao presidente dos EUA à época, George W. Bush, onde expressaram sua disposição em aceitar “um estado palestino de acordo com as fronteiras de 1967”, no contexto de um cessar-fogo extendido, e outra ao Quarteto do Oriente Médio, enfatizando que sua eleição havia se dado para que fosse buscado um “acordo com Israel”. Os líderes do Hamas há tempos declaram seu “apoio” para “um estado palestino com base nas fronteiras de 1967”, fazendo parte de um governo cuja plataforma reconhece implicitamente Israel e comprometeram-se a cumprir quaisquer acordos entre o presidente palestino Mahmoud Abbas e o Estado de Israel que passasse por referendo popular.

O Hamas também vem oferecendo uma trégua a longo prazo a Israel, acompanhada do fim ao cerco em Gaza, proposta que reiterou no início das manifestações atuais. Em vez de encorajar tais avanços, Israel e a comunidade internacional impuseram sanções financeiras devastadoras que forçaram Gaza – e o Hamas - a entrarem naquilo que o então Relator Especial das Nações Unidas para o Processo de Paz do Oriente Médio chamou de "modo de sobrevivência".

"Não lhes demos nenhuma opção que não o confronto", argumentou um antigo chefe do serviço de inteligência de Israel, Mossad. Um engajamento mais construtivo poderia “dar início à longa trajetória que no final levaria à coexistência”, disse. Já que Israel simplesmente rejeitou todas as tentativas por parte do Hamas, o prospecto de um modus vivendi segue em aberto. O que está claro, porém, é que existe a possibilidade de diplomacia com o Hamas, basta dar uma chance a estas.

Em suma, eis o que aconteceu em Gaza nas últimas semanas: no dia 30 de março, organizações civis palestinas se juntaram para promover um protesto não-violento contra as péssimas condições de vida em Gaza; o Hamas se juntou à causa, que envolveu uma grande parte da sociedade de Gaza; dezenas de milhares de pessoas participaram de manifestações pacíficas, que incluíam “reuniões, shows, jogos esportivos, discurso e demais atividades pacíficas"; as manifestações em grande parte mantiveram-se "pacíficas", mesmo com ataques de atiradores de elite israelenses contra manifestantes desarmados. Apesar das ações de Israel, o Hamas ordenou ao seus membros que deixassem as armas em casa e se certificou de que os protestos permaneceriam pacíficos de forma não dar a Israel um pretexto para violência; Israel não forneceu nenhuma prova crível de que haviam manifestantes armados, ao passo em que agentes de direitos humanos locais e internacionais "não viram armas nem pessoas armadas" nas manifestações; as manifestações pacíficas atingiram seu auge no dia 14 de maio, quando o exército israelense atirou sistematicamente em mais de 1.300 manifestantes com munição de verdade, matando mais de 60 pessoas.

Resumindo, como observado pelo veterano ativista israelense pela paz Uri Avnery, “Multidões de gente desarmada, homens, mulheres e crianças, enfrentaram os atiradores de elite israelenses. Eles não sacaram armas, apenas ficaram ali, expostos aos atiradores e foram mortos”.

Diante do massacre movido por Israel e a indiferença da comunidade mundial, o povo de Gaza tem mostrado coragem e controle admiráveis. Não há mentira que possa frear esta verdade.


Muhammad Shehada é escritor e ativista na Faixa de Gaza. Cursa Estudos de Desenvolvimento na Universidade de Lund, Suécia e foi pesquisador de campo e relações públicas do Gabinete de Gaza da Euro-Med Monitor for Human Rights.

Jamie Stern-Weiner é um cidadão britânico-israelense e editor de Moment of Truth: Tackling Israel-Palestine’s Toughest Questions (OR Books, 2018).

Matéria originalmente publicada na VICE UK.

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