Publicidade
Identidade

A comunidade leather é mais profunda do que você imagina

"O sadomasoquismo pode fazer parte do fetiche do couro, mas não é o leather em si. O leather é uma comunidade em primeiro lugar.”

por Juliette Maigné; Traduzido por Marina Schnoor
04 Julho 2018, 10:00am

Todas as fotos pela autora.

Usando uma jaqueta de motoqueiro e uma enorme medalhão dourado numa tira de couro no pescoço, Joseph Macchia tem um sorriso simpático e sobrancelhas felpudas, mas ele não é alguém que você associaria imediatamente a um vencedor de um concurso de mister. Ainda assim, aos 44 anos, careca e com uma barba falhada, Macchia — como seu medalhão atesta — é exatamente isso. Ele é o soberano “Mister Eagle 2018”. Em outubro, ele derrotou seis outros competidores e levou a faixa no Eagle NYC, um dos pontos de encontro mais antigos da comunidade gay do couro, ou leather.

A busca anual pelo Mr. Eagle não é o que você esperaria de um bar gay de Chelsea também. Sim, os juízes entrevistam os participantes sobre seus fetiches — Macchia lista bondage, chicotes e CBT entre os dele — e fazem quiz sobre a história do leather. A competição também envolve posar, mostrar os músculos e desfilar pela passarela com peças que vão do formal a protetores genitais e arreios. Mas para ser coroado Mr. Eagle, ele precisa se destacar mais que seus colegas leathers em seus serviços pela comunidade LGBTQ+.

Macchia, nativo do Queens e um antigo cliente do clube, ganhou o título em sua segunda tentativa, depois de ser vice cinco anos atrás. Ele passou grande parte de sua carreira produzindo shows de cabaré e em breve vai se juntar à equipe do Eagle como o novo gerente de happy hour. Sobrevivente de um câncer — sua mãe atualmente está passando por quimioterapia — ele comanda uma plataforma de conscientização sobre o câncer na comunidade gay. Em 2007, Macchia também fundou a organização sem fins lucrativos Help Is On The Way Today, que distribui fundos para crianças que vivem com HIV e AIDS.

A jaqueta de Mr. Eagle 2018 de Joseph Macchia. Foto pela autora.

No começo dos anos 1980, lembra Macchia, homens queer nas linhas de frente do HIV/AIDS tinham que ter sua própria rede de apoio. Membros da comunidade leather levantavam fundos para pagar contas médicas e ajudar a enterrar amigos e parceiros, que muitas vezes eram renegados pela própria família.

“Para mim, aquele bar é um lugar muito especial”, disse Macchia. “Todo mundo é bem-vindo lá, não importa sua aparência.”

O local atual do Eagle — West 28th Street entre as avenidas 10th e 11th — abriu em 2001, num antigo estábulo do século 19. Derek Danton e seu marido Robert Berk compraram o nome de Jack Modica, o proprietário original do Eagle na West 21st Street desde 1970. Mas a história do clube começa mesmo em 1931, quando o lugar era uma taverna de estivadores chamada Eagle Open Kitchen. As revoltas de Stonewall em 1969 transformaram o pub numa meca do leather.

Apesar de o aroma interno misturar couro, suor e alvejante, o Eagle não é um bar gay típico. Além das duas pistas de dança e um deck de 185 metros quadrados no telhado, o Eagle conta com uma loja própria de artigos em couro, barbearia e engraxate. Embaixo de uma moto pendurada no teto, as paredes estão cheias de fotos de soldados da Segunda Guerra Mundial. No primeiro andar, grandes telas passam filmes pornô. Homens parrudos bebem seus drinques de canudinho em bancos de madeira enquanto outros, nus exceto pelos arreios, dançam na pista iluminada em vermelho.

Q. Foto pela autora.

“As pessoas têm essa ideia sobre o leather — elas pensam em sadomasoquismo”, disse o barbeiro residente do Eagle, que usa o pseudônimo “Q” e foi Mr. Eagle 2016. “O sadomasoquismo pode fazer parte do fetiche do couro, mas não é o leather em si. O leather é uma comunidade em primeiro lugar.”

A subcultura leather emergiu depois de Segunda Guerra Mundial, quando veteranos começaram a se juntar em clubes de moto no que Q descreve como uma “continuação da... camaradagem”. A hipermasculinidade fornecida pela prática leather atraía aqueles insatisfeitos com o esteriótipo de homens gays como afeminados.

Segundo o dono Danton, o couro também tem raízes mais sombrias: uniformes nazistas. “Se era gay, você se sentia marginalizado, envergonhado”, disse Danton. “Você não queria que as pessoas soubessem que você era gay. Olhando para aqueles soldados, eles pareciam poderosos e fortes, e você se sentia vulnerável. Então você meio que dizia 'Quero me sentir assim, quero parecer assim'.”

Q, 43 anos, nasceu no Brooklyn de pais das Índias Ocidentais. Anos depois da faculdade, Q levava o que ele descreve como um estilo de vida “gay numa casa de cerquinha branca” com o namorado e o filho dele. “O relacionamento, o filho, a casa, o carro, o emprego — eu usava aquele rótulo.”

Enquanto trabalhava numa publicação judicial, Q sofria com o vício e acabou perdendo o emprego. Ele ficou desempregado por alguns anos até conseguir ficar sóbrio.

Um freguês do Eagle NYC. Foto pela autora.

Em 2008, através de uma rede de sobriedade, ele conheceu e se casou com um professor do ensino médio que não é parte da comunidade leather. Q não usa seu nome verdadeiro nas redes sociais para proteger a privacidade do marido.

“Eu não sabia nada sobre a comunidade leather. Eu não sabia que tinha muita coisa além das roupas”, ele lembra. “Mesmo quando usava couro, eu não me sentia confortável ainda. Eu não me sentia eu.” Quando ele se envolveu com os leathers, foi uma surpresa pra todo mundo. “Você tem esses caras brancos e musculosos de 20 e poucos anos, e eu não era assim”, ele disse, se referindo as ilustrações de Tom of Finland.

Macchia, Mr. Eagle 2018. Foto pela autora.

Foi conhecer um mentor e “irmão de couro” que provocou uma reviravolta na vida de Q. “Comecei a me ver com olhos diferentes”, ele lembra, mostrando suas botas de couro perfeitamente engraxadas. “Eu estava usando uma mentalidade diferente que não tinha antes.” Agora, focando em não deixar sua heteronormatividade defini-lo, Q gosta de estar cercado por “uma energia que é única e totalmente gay”.

Descobrir uma comunidade kink foi “um alívio” pro Mr. Eagle 2017, John-John Punki, que às vezes imaginava se seus fetiches o tornavam uma “pessoa ruim”. “Quando era garoto, percebi que alguma coisa não estava certa, que eu era um pouco diferente”, diz Punki, agora com 29 anos. “Sei que o couro me faz sentir poderoso.”

Um freguês do Eagle NYC. Foto pela autora.

Várias vezes por ano, Punki, que é meio porto-riquenho, meio siciliano, organiza um baile latino no clube, tocando salsa e merengue, que levanta fundos para várias organizações LGBTQ+. A comunidade leather continua principalmente branca, ele explicou, e nem sempre está pronta para atender pessoas não brancas. “Pessoas marginalizadas precisam de seu próprio espaço”, ele disse. “Se não vemos isso, precisamos criar esses espaços.” Como com qualquer comunidade, explicou Punki, o racismo está “vivo” na cultura leather. Em 1998, o então dono do bar Jack Modica foi processado por expulsar dois clientes negros do Eagle. Hoje, Danton disse que o bar sempre tenta “ir contra todo tipo de discriminação”.

Lá fora, na madrugada, homens de todas as idades usando couro se aproximam pelo quarteirão deserto, procurando nos outros pedestres um sinal de que eles estão indo poo mesmo santuário dos amantes de couro.

John-John Punki. Foto pela autora.

Para alguns, o leather é um estilo de vida e uma família; para outros, continua sendo um segredo. “Acho que alguns frequentadores do Eagle levam outra vida fora daqui”, observou Punki. “Eles encontram refúgio em lugares como o Eagle, onde podem conhecer homens que não encontrariam em suas vidas normais.”

Todo ano, o Eagle NYC prepara os donos do título para participar do International Mister Leather em Chicago, onde Macchia competiu com 71 caras do mundo inteiro de 24 a 28 de maio. “Não sou perfeito”, disse Macchia, que gostaria de mostrar que há mais na comunidade leather do que aparenta para quem é de fora. “Não tenho o corpo perfeito, não tenho a pose perfeita, mas tenho um coração e uma alma, e amo essa comunidade.” Macchia ficou satisfeito em terminar entre os 40 melhores colocados.

Além de um encontro anual da comunidade, o IML também representa a comemoração de uma marca distintamente queer de positividade.

“Acho que as pessoas ainda têm medo da sexualidade”, disse Macchia. “Vivemos num país onde tirar a roupa e ser sexual não é visto com bons olhos, e acho isso muito triste porque não tem nada de errado em amar quem você é, em gostar do seu corpo. Desde que tudo seja seguro e você não esteja prejudicando ninguém, quem se importa?”

Matéria originalmente publicada na VICE US.

Siga a VICE Brasil no Facebook, Twitter, Instagram e YouTube.