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A estética das casas nordestinas conta muitas histórias

Com cores fortes, portas abertas e muita identidade, esses lares são registrados no projeto fotográfico 'É Tudo Fachada'.

por Ivana Debértolis
06 Março 2019, 10:00am

Santana do São Francisco, Sergipe. Foto: Melissa Warwick

O lugar onde vivemos costuma dizer muito sobre quem somos. Ao visitar a casa de alguém pela primeira vez, formamos, automaticamente, uma opinião, ainda que superficial, sobre quem vive ali. Entender como se vive em um lugar específico, no caso, o interior dos estados de Sergipe, Alagoas e Bahia, é parte da série É Tudo Fachada, da fotógrafa Melissa Warwick.

Morar é um ato social, e as maneiras de habitar um espaço são inúmeras, podendo variar de acordo com a classe social, a região e estilos muito próprios e vida. Em um país desigual como o Brasil, onde os direitos básicos não são supridos, é alta a capacidade de adaptação e a criatividade no que diz respeito a moradia.

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Povoado Piauí, Piranhas, Alagoas. Foto: Melissa Warwick

Melissa, que nasceu no Rio grande do Sul e foi, ainda criança, viver em Sergipe, conta que a série começou a ser construída espontaneamente, quando pisou pela primeira vez no sertão sergipano, exatamente há uma década atrás. “Tudo era novo pra mim naquele cenário, mas o que chamou mais a minha atenção foram essas fachadas de cores fortes, decoradas com varais de roupas atravessando as janelas”, lembra.

As roupas no varal em frente as casas, que se dá pela falta de um grande quintal, reforçam essa estética tão colorida e única, além de nos chamar para a intimidade de quem vive ali.

A fotógrafa, que passou a visitar essas pequenas cidades em função de outros trabalhos, foi desenvolvendo, paralelamente, a documentação dessas fachadas, que, se já chamam atenção de qualquer olhar mais desavisado, para um fotógrafo é, sem dúvida, um prato cheio.

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Poço Redondo, Sergipe. Foto: Melissa Warwick

Nessas casas vivem pessoas simples e cheias de histórias para contar, entre elas, rezadeiras, pescadores, rendeiras, pequenos agricultores, músicos, doceiras e donas de casa. Melissa também teve acesso ao interior dessas moradias, onde pôde entender uma pouco mais sobre o universo de quem vive por trás dessas fachadas.

Na casa pintada de rosa-choque, por exemplo, não necessariamente vive uma mulher vaidosa e superfeminina, assim como uma fachada mais discreta pode abrigar um lar repleto de relíquias e curiosidades. “Dessa forma, entendi que nem sempre devemos julgar os moradores pelas fachadas de suas casas, o que justifica, em tese, o nome da série”, explica.

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Povoado Rio Real, Poço Verde, Sergipe. Foto: Melissa Warwick

Essa estética tão peculiar e envolvente, revela ao mesmo tempo desprendimento genuíno e ausência de compromisso com algo tão subjetivo e relativo como é o conceito da beleza. Em meio a uma combinação intensa de cores e informações, as questões práticas da vida do morador estão, muitas vezes, expostas nessas fachadas, com recados que variam sobre a venda da casa ou o serviço prestado por quem mora ali. A beleza, muitas vezes, está naquilo que se dá por acaso.

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Povoado Lagoa do Junco, Poço Verde, Sergipe. Foto: Melissa Warwick

Além das roupas no varal, uma pessoa ou um cachorro podem estar por ali, espiando a vida pela janela e compondo essas imagens tão ricas e, ao mesmo tempo, tão singelas. É impossível passar despercebido por essas fachadas que nos despertam uma atração imediata por quem vive ali, dando-nos a ilusão de que a vida é simples e boa na maior parte do tempo. O que observamos foi, certamente, elaborado sob critérios muito particulares e, provavelmente, espontâneos, que nada têm a ver com nossas suspeitas a um primeiro olhar. Assim, pergunto: será que sabem que são tão cheios de vida aos olhos alheios?

Para Melissa, cada detalhe que compõe a fachada de uma casa revela parte da personalidade do morador. “Isso contribui, de forma imediata e superficial, para que compreendamos um pouco mais sobre a identidade do povo que vive ali.”

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Rua da Palha, Santa Luzia do Itanhy, Sergipe. Foto: Melissa Warwick

Existe um programa, em um canal da TV paga, que leva o nome de Casa Brasileira, onde são apresentadas casas fantásticas, projetadas por arquitetos de renome, acessíveis apenas a quem pode pagar (muito) por isso. O nome do programa é, no mínimo, um equívoco, e isso sempre me incomodou. Essas casas coloridas do interior do nordeste, lindamente registradas nas fotografias de Melissa, são, sem a menor dúvida, um bom exemplo do que realmente vêm a ser as verdadeiras casas brasileiras.

Mais fotos da Melissa Warwick no Instagram e abaixo.

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Santana do São Francisco, Sergipe. Foto: Melissa Warwick
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Povoado Saco do Camisa, Poço Verde, Sergipe. Foto: Melissa Warwick
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Pão de Açúcar, Alagoas. Foto: Melissa Warwick
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Santa Luzia do Itanhy, Sergipe. Foto: Melissa Warwick
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Vila do Santo Antônio, Bahia. Foto: Melissa Warwick
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Serra da Guia, Poço Redondo, Sergipe. Foto: Melissa Warwick
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Serra da Guia, Poço Redondo, Sergipe. Foto: Melissa Warwick
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Barra Grande, Bahia. Foto: Melissa Warwick

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