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Saúde

Quanto mais me permitia sentir ansiedade, menos ela me incomodava

Meu mecanismo para lidar com a ansiedade sempre foi a evasão.

por Sarah Watts; Traduzido por Marina Schnoor
24 Janeiro 2019, 9:00am

Anthony Tran 

Por anos, achei que estava lidando muito bem com meu transtorno de ansiedade. Apesar de ter sido diagnosticada com Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) e transtorno do pânico com vinte e poucos anos, uma combinação de terapia e antidepressivos afastava o pior dos meus sintomas. Quando alguma bolha de pânico subjacente aparecia na superfície, eu confiava em alguns métodos testados para me sentir melhor, e eles geralmente funcionavam. Eu tomava longos banhos quentes. Me enfiava embaixo do edredom e tirava um cochilo. Se estivesse realmente me sentindo mal, eu tomava meio Xanax e me acalmava.

Mas em 2017, quando fiz 30, aconteceu uma coisa que derrubou tudo isso. Depois de notar um pouco de sangue na minha urina, procurei um urologista achando que estava com uma pedra no rim ou alguma infecção urinária fácil de tratar. Mas a fonte do sangramento eram quatro tumores na parede da minha bexiga – câncer. E os tumores eram malignos, significando que podiam crescer rapidamente e tinham mais chances de entrar em metástase.

Felizmente, o tratamento para o meu câncer de bexiga teve sucesso – uma cirurgia rápida de quatro horas e quimioterapia e estou em remissão desde então. Ainda assim, nos dias depois do diagnóstico, a ansiedade me engoliu. Eu não conseguia pensar na cirurgia ou no tratamento sem sentir que ia desmaiar. Mesmo depois da cirurgia (que foi um sucesso) e nas consultas depois dela (tudo OK), eu não conseguia ouvir a palavra “câncer” sem pensar em morrer e deixar meus filhos, que tinham quatro e cinco anos, órfãos. Para combater isso, meus banhos foram ficando mais quentes. Eu dormia por horas. Aumentei minha dose de Xanax em três vezes. Nada ajudou. A ansiedade era constante e estava me sufocando.

Numa noite, sucumbi. Enquanto meu marido ficava com as crianças, minha mãe me levou até a emergência. Eu sentia que ia arrancar minha pele se tivesse que aguentar aquele pânico por mais uma hora. Na triagem, contei, chorando muito, minha história para as enfermeiras: o câncer, eu podia sobreviver; mas e esse terror nauseante sem fim? Se eu não conseguisse achar um jeito de sair dele, eu teria que me matar.

Com ajuda de Ativan, uma enfermeira simpática e um psiquiatra competente, consegui me recompor. Eu não queria morrer – não de verdade – eu só queria que o pânico parasse. Com ajuda deles, deixei o hospital e encontrei um programa que me ensinaria métodos “baseados em atenção plena” para lidar com a minha ansiedade.

Eu estava disposta a tentar qualquer coisa naquele ponto, mas terapia de atenção plena – definida como atenção autorregulada com uma atitude de curiosidade, abertura e aceitação – me deixava bem cética. Como meditação ia me ajudar a lidar com anos de pânico reprimido, quando nem o Xanax nem antidepressivos conseguiam contê-lo?

O que eu não sabia na época é que atenção plena vem se mostrando de grande ajuda para pacientes com uma variedade de transtornos de ansiedade. Num teste clínico publicado em 2017, pesquisadores descobriram que pacientes com transtorno de ansiedade generalizada (TAG), que passaram por um programa de oito semanas de redução de estresse baseado em atenção plena, tinham uma queda significativa na taxa de hormônios relacionados ao estresse e reposta inflamatória no final do período. Mais impressionante, outro estudo de 2018 mostrou que pacientes podiam reduzir sintomas de ansiedade significativamente depois de apenas uma hora de sessão de meditação.

No primeiro dia no grupo de ansiedade, nos sentamos em cadeiras de plástico num grande círculo e compartilhamos nossas expectativas para o programa. Quando chegou minha vez, dei de ombros. “Acho... Acho que só não quero mais sentir ansiedade?”, eu disse.

A reação da instrutora me surpreendeu. Rindo, ela balançou a cabeça. “Então você quer que a gente faça um milagre?”, ela perguntou.

Fiquei confusa. Um milagre? Claro, acho que eu esperava um milagre – do mesmo jeito que eu iria até um consultório com uma infecção de ouvido e o médico me prescreveria uma combinação “milagrosa” de remédios que acabaria com a infecção. Não é assim que tratamento funciona? Mas atenção plena, como aprendi, tinha uma abordagem profundamente diferente. A instrutora explicou pacientemente que, usando métodos de atenção plena como conscientização, meditação e respiração, poderíamos mudar nosso relacionamento com a ansiedade, em vez de tentar bani-la completamente.

Essa não era a resposta que eu queria ouvir. Na hora, pensei naquela cena do filme Separados pelo Casamento, onde Jennifer Aniston e Vince Vaughn brigam sobre fazer faxina depois de uma festa. “Eu quero que você queira lavar a louça”, ela grita, e ele explode de volta “Por que eu ia querer lavar a louça!?” Me senti exatamente assim. Por que eu ia querer coexistir com a minha ansiedade? Por que não podia me livrar dela pra sempre, como qualquer outro problema médico?

Muitos pacientes que procuram tratamento para ansiedade têm reclamações parecidas, diz Andrea Quinn, diretora interina do Centro de Estudos Psicológicos da Universidade Rutgers. “Pode ser difícil vender a ideia e não é um tratamento fácil. Temos que dizer para as pessoas que não, o tratamento que queremos que você faça envolve diminuir seu instinto de evitar a coisa de que você tem medo, e experimentar essa ansiedade. As pessoas geralmente não acreditam.”

Como muitos outros que procuram esse tratamento, o que eu fazia até aquele ponto era tentar escapar da ansiedade, lutar contra ela ou ignorá-la, em vez de realmente encará-la quando ela surgia. Meus métodos testados, descobri, na verdade eram comportamentos de evasão – algo que alivia a ansiedade no momento, mas a torna pior a longo prazo. “O que acaba acontecendo é que os pacientes sentem que ansiedade é algo perigoso ou intolerável, e que não vão conseguir sobreviver a ela sem as estratégias que desenvolveram”, diz Quinn. “Mas enquanto eles vão encontrando mais situações desafiadoras, a ansiedade começa a interferir demais na vida deles. Eventualmente, os comportamentos de evasão não são mais eficazes, e é nesse ponto que as pessoas procuram o tratamento.”

Então por que a terapia de atenção plena é tão eficiente? “O que notamos é que quando os pacientes observam como se sentem e onde a ansiedade deles se centra em seu corpo, como é a experiência da ansiedade, ela se dissipa sozinha”, ela diz. “O objetivo não é eliminar a ansiedade – é ajudar o paciente a sentir a ansiedade de um jeito que não os sobrecarrega.”

Aí comecei a aprender como fazer isso. Cada manhã na aula, tentávamos um novo exercício de atenção plena, para treinar observar nossos pensamentos e sensações físicas sem julgar. Era muito mais difícil do que eu esperava. Depois do nosso primeiro exercício, onde o grupo deveria imaginar nossos pensamentos vindo e voltando na nossa mente como folhas num rio – fiquei tão sobrecarregada com pensamentos ansiosos que lágrimas escorriam pelo meu rosto. Apesar do desconforto, continuamos treinando, aprendendo como olhar nossa ansiedade como observadores curiosos. “Onde no seu corpo a ansiedade se localiza?”, a instrutora perguntava, “ela tem uma cor? Uma forma? Qual seria a classificação dela, numa escala de um a dez?” Eventualmente, os pensamentos e sentimentos que me deixavam à beira do abismo começaram a parecer familiares – chatos até.

Quanto mais eu me permitia realmente sentir minha ansiedade, menos ela me incomodava. Durante o tratamento, a ansiedade se tornou só uma coisa estranha e desconfortável que meu cérebro e corpo faziam de vez em quando, algo em que eu podia me fixar e tentar controlar, ou algo que eu podia experimentar com o entendimento de que logo passaria. Quanto mais eu sentia isso e me focava em prestar atenção no momento, mais rápido a ansiedade passava – e, curiosamente, menos ela aparecia.

Quando terminei meu tratamento para ansiedade seis semanas depois, eu tinha o que nunca pensei que conseguiria em um milhão de anos: habilidades para encarar a ansiedade. Métodos reais dessa vez. Um milagre mesmo.

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