reportagem

Estes black blocs não ligam pra o que você pensa deles

Nove anarquistas norte-americanos falam por que violência é o único jeito de lutar contra o fascismo.

por Donovan Farley
09 Junho 2017, 10:00am

Um anarquista em Nova York no dia 1º de Maio, foto por Spencer Platt/Getty Images.

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE US.

Os nove anarquistas que me encontraram numa tarde chuvosa em Portland, Oregon, me disseram que quase vieram ao encontro "bloc'd out" — vestindo as roupas pretas e máscaras que já se tonaram um visual icônico.

Você conhece esse look porque já deve ter visto fotos e vídeos de anarquistas mascarados, ou os encontrou pessoalmente em protestos da esquerda (ou contraprotestos em resposta a manifestações de direita). Bandanas, lenços ou capacetes são usados para se proteger dos efeitos do spray de pimenta e gás lacrimogêneo; eles também ajudam a não ser identificado pelas autoridades.

O que é essencial, já que a estratégia black bloc utiliza táticas militares e frequentemente ilegais — quebrar vitrines, incendiar carros, jogar pedras na polícia e desafiar fisicamente a oposição. Foi o black bloc que incendiou uma limousine em DC durante a posse de Trump, foi um black bloc que deu um soco na cara do supremacista branco Richard Spencer, foi o black bloc que se revoltou em Berkeley contra a presença do carrapato da extrema-direita Milo Yiannopoulos.

As táticas do black bloc estão em uso desde o movimento autonomista na Europa nos anos 80, mas começaram a ganhar atenção nos EUA depois dos caóticos protestos do World Trade Organization em Seattle em 1999. Durante aquelas manifestações, enfrentamentos violentos entre os manifestantes e a polícia culminaram no uso de gás lacrimogêneo — a coisa ficou tão feia que o prefeito declarou um toque de recolher para o centro da cidade.

Apesar de a estratégia black bloc ter sido utilizada nos EUA muitas vezes desde então, a atuação do grupo vem aumentando desde a eleição de Trump, assim como o debate sobre violência política. Manifestações viraram brigas de rua entre facções de extrema-direita e extrema-esquerda em Seattle e Berkeley; na minha cidade, Portland, temos visto enfrentamentos entre a polícia e anarquistas; em Washington, mais de 200 manifestantes receberam acusações formais depois da posse.

Procurei os anarquistas para saber o que acham sobre o papel do crescente movimento de resistência a Trump, e como eles justificam suas táticas extremas diante de críticas tanto da direita quanto da esquerda.

Os nove black blocs com quem falei são de várias etnias, origens econômicas e regiões do país, mas a maioria tem raízes no Noroeste Pacífico. Boa parte deles estava na faixa de idade dos millennials, mas me disseram que a organização tem "um monte de gente mais velha" trabalhando com eles. Alguns entraram para o movimento anarquista depois do Occupy Wall Street, que um deles chamou de "escola de protesto". Outros foram apresentados ao anarquismo em shows punk, ou estavam procurando algo mais extremo que o "típico liberalismo norte-americano", que todos eles rejeitam. Todos trabalhavam, mas não quiseram falar mais sobre isso com medo de serem identificados — todos estavam envolvidos em atividades ilegais ligadas a protestos, e só concordaram em falar comigo anonimamente. (Todos os nomes foram mudados.)

Eles veem sua marca de anarquismo como uma evolução de um movimento internacional apoiando pessoas sem direitos há décadas. Essa missão vai além das táticas que causam tanta polêmica. O grupo me disse que os anarquistas locais davam aulas de primeiros socorros, defesa pessoal e outros tópicos; o grupo de divulgação da comunidade de esquerda Portland Assembly e os anarquistas taparam alguns dos muitos buracos nas ruas de Portland quando o governo não fez sua obrigação. (Essa última parte provavelmente foi a única publicidade boa que os anarquistas receberam na imprensa mainstream nos últimos tempos.)

"Não vamos nos curvar aos fascistas nas ruas, a um policial de uniforme, ou a quem estiver na Casa Branca." — Victor, black bloc

Portland vem lidando com uma crise de sem-tetos há anos, e durante uma tempestade de neve pesada em janeiro, quatro adultos e um bebê recém-nascido morreram. Muitos entenderam a abordagem do governo local em relação à tempestade como insuficiente, e os anarquistas se juntaram a outros ativistas para sair às ruas entregando cobertores, sacos de dormir, café e sopa para moradores de rua.

Ainda assim, quando perguntei se era justo afirmar que eles são o ramo armado do movimento de resistência (literalmente armado no caso de alguns black blocs), eles disseram que sim — mas também que suas motivações vão além da oposição ao atual presidente. "A narrativa de que essa luta é pró-Trump ou contra anti-Trump é errada. Isso é sobre ultranacionalismo", me disse Victor, um homem enorme que claramente não queria falar demais. "Temos pessoas trabalhando na França; temos pessoas como os zapatistas... Estamos todos lutando em defesa das nossas comunidades, mas temos a capacidade, a habilidade e a coragem de partir para a ofensiva. Não vamos nos curvar aos fascistas nas ruas, a um policial de uniforme, ou a quem estiver na Casa Branca."

"Queremos destruir o status quo e estamos dispostos a fazer isso por quaisquer meios necessários." — Clay, black bloc

Clay, um cara magro e intenso cuja voz treme e se ergue com paixão quando fala, me disse que as crenças anarquistas "são enraizadas no desejo de uma sociedade sem Estado e livre de fascismo, e na defesa de comunidades marginalizadas de uma longa história de supremacia branca. Queremos destruir o status quo e estamos dispostos a fazer isso por quaisquer meios necessários – seja ensinando comunidades a serem independentes ou algo extremo como o black bloc".

Todos já enfrentaram violência policial. Blair, que ficou sentada em silêncio pela maior parte do encontro e lembrava uma bibliotecária, me disse que uma vez foi detida numa cidade da Costa Oeste depois de um confronto entre o black bloc e a polícia. Ela disse que um policial mostrou a ela um grande arquivo com fotos dela e seus associados, dizendo "Estamos observando você e seus amigos". (Ela me disse que nunca foi formalmente acusada de nenhum crime.)

Victor acrescenta: "Operamos com a suposição de que já temos grupos de direita e policiais infiltrados entre nós, e que estamos sendo monitorados ilegalmente pelas autoridades, como o Black Lives Matter e o Occupy são pela polícia de Nova York".

Parece um jeito muito cansativo de viver, mas para Victor a luta contra simpatizantes de Trump e o que ele vê como um movimento fascista tentando dominar os EUA é "quase que literalmente uma guerra... para, nós a resistência é intuitiva e algo que temos que fazer".

Um manifestante joga um tijolo na polícia durante os protestos no dia da posse de Trump. JEWEL SAMAD / AFP / Getty Images.
Um manifestante joga um tijolo na polícia durante os protestos no dia da posse de Trump. Jewel Samad/AFP/Getty Images

Esses anarquistas acham que a esquerda mainstream nunca levou a ascensão da direita alternativa e do nacionalismo branco a sério. Eles veem seus atos destrutivos nas ruas como um chacoalhão na esquerda e um aviso para a extrema-direita — um chamado às armas e um exemplo de como lutar quando você vê um fascista.

Victor ri quando pergunto se eles não temem que suas ações mais polêmicas afastem pessoas do movimento, me dizendo que "liberais mainstream se agarram às instituições como a polícia e elegem oficiais que sempre os decepcionam, mas continuam voltando para eles como uma esposa que apanha do marido".

"Estamos dispostos a nos colocar na linha de frente por isso. 'Por quaisquer meios necessários' é algo que levamos muito a sério." — Clay, black bloc

Quanto ao debate de se violência política pode ser justificada, para eles isso nem é um debate. "Abomino violência contra pessoas na maioria das vezes, mas esses caras não são pessoas, são nazistas", disse um anarquista que vou chamar de Sean, fazendo o grupo todo rir.

Um homem que atende por Rip descreve como é estar no bloco, avançando numa batalha literal. "Me sinto mais lógico que emocional", disse. "Tem muita coisa acontecendo, a polícia, ver se o pessoal no seu bloco está bem, se não aparece um Trumpista louco armado... Com certeza é muita adrenalina, mas o resultado é mais uma observação atenta e calcular os riscos. É uma calma estranha no meio do caos que nasce da sua atenção e da confiança nos colegas."

Quando mencionei a publicidade ruim que as táticas do black bloc geraram nos protestos da eleição e de 1º de Maio em Portland (que acabaram em violência e foram declarados tumultos pela polícia), Clay dá de ombros. "É? Ninguém estava prestando atenção nos protestos de Portland até fazermos as pessoas prestarem. De repente, os olhos do mundo todo estavam em Portland. Estamos dispostos a nos colocar na linha de frente por isso. 'Por quaisquer meios necessários' é algo que levamos muito a sério."

Pedi ao grupo para responder às críticas sobre suas táticas acabarem afastando pessoas das causas que apoiam, e Clay, falando com tanto fervor que a mesa atrás de nós se virou para olhar, apontou que outros partidos políticos na Alemanha tentaram dialogar com Adolf Hitler durante sua ascensão. "Os neoliberais podem não saber ainda, mas os antifas militantes serão aqueles que a história vai lembrar como quem lutou contra a ascensão do fascismo neste país — não eles."

E quanto aos danos a propriedades causados pelo black blocs? Quando a vitrine de um negócio é quebrada, isso não é violência contra o Estado, mas violência contra o dono da vitrine, e em Portland esse dono pode muito bem ser anti-Trump.

O grupo concordou com a cabeça enquanto Clay terminava sua cerveja e me dizia que eles não sentem pena de "uma boutique que participa de deslocamentos e da 'morte por gentrificação' de bairros que antes eram habitados por famílias de comunidades marginalizadas".

Norm Stamper era o chefe de polícia de Seattle durante aqueles infames protestos do WTO em 1999, o que levou à sua renúncia. "É um erro subestimar os anarquistas como pessoas movidas apenas pela destruição, eles geralmente fazem um tipo organizado de protesto", me disse. Mais que todo mundo, ele entende a difícil posição da polícia em manifestações violentas, e a falta de opções viáveis.

Apesar de ter dito publicamente que se arrependia da decisão de usar gás lacrimogêneo contra os manifestantes, Stamper diz que ficou "chocado com a inação da polícia" em Berkeley em abril, quando anarquistas e a direita alternativa se enfrentaram nas ruas. "Se eles não agem, eles estão abdicando de sua responsabilidade. Você vai ser criticado de qualquer jeito, e não importa de que lado é a culpa, você precisa agir."

Stamper acrescentou que o uso de táticas militares pelas autoridades, geralmente, apenas alimenta o caos que os grupos anarquistas buscam. "Se tentar falar com eles, eles provavelmente vão mandar você se foder. Mas você precisa tentar se envolver com esses caras", é o conselho de Stamper para lidar com anarquistas. "Violência raramente é a resposta — e gás lacrimogêneo nunca é. Você só está provando o ponto deles e causando danos indiscriminados aos cidadãos. Você precisa movê-los, mesmo à força, mas você não dá o primeiro golpe e não joga gás neles."

Stamper é mais simpático com os anarquistas do que a maioria dos chefes de polícia, e a animosidade entre a polícia e os black blocs é grande dos dois lados. Clay me disse que em protestos recentes em Vancouver, Washington, anarquistas e antifas tiveram suas bandeiras confiscadas pela polícia, mas manifestantes pró-Trump fazendo a saudação nazista puderam continuar com suas armas de fogo.

"Com os departamentos de polícia no país se tornando mais e mais militarizados, e com os nacionalistas brancos e grupos da direita alternativa cada vez mais incentivados pelo regime de Trump, a necessidade de táticas militarizadas é maior que nunca", disse Sean. "Nesses protestos, o black bloc chama mais a atenção da polícia, o que, por sua vez, permite que ações floresçam de maneiras que não aconteceriam se não estivéssemos lá... Aposto que as pessoas que ajudamos a não serem detidas ficaram felizes por estarmos lá para interferir." (Sean definiu ações desse tipo como "interferir nas tentativas das forças da lei de deter alguém usando a força".)

Outro lado

Perguntei ao porta-voz da polícia de Portland, Pete Simpson, sobre as críticas feitas pelos anarquistas, e ele me disse: "É fácil nos pintar como contra ou a favor de certos grupos, mas não é esse o caso. A polícia não gosta de trabalhar em protestos porque são horas de um tédio muito tenso que de repente pode virar violência — violência que esses anarquistas começam".

E quanto às táticas militarizadas tão desprezadas pelos manifestantes que a polícia usa?

"Estamos sempre revendo nossas táticas", Simpson respondeu. "É quase impossível porque as pessoas querem que a gente resolva as coisas... e metade delas acha que não fazemos o suficiente nesses protestos, enquanto a outra metade acha que fomos longe demais. Os anarquistas nos obrigam a isso."

Se lidar com os black blocs é complicado para a polícia, é ainda mais difícil para ativistas de esquerda que abominam o uso de violência.

Um organizador de protestos com quem falei, que pediu para permanecer anônimo, ecoou um refrão que ouvi muitas vezes discutindo esta matéria com pessoas de esquerda: "É uma situação incrivelmente complexa com esses caras, porque em teoria concordo com eles em quase tudo — mas ainda acho que a melhor maneira de alterar um sistema poderoso e corrupto é de dentro e exercendo sua liberdade de expressão... e tenho medo que algo como uma lei marcial seja imposta se algo der muito errado."

"Os fascistas estão se organizando e colaborando no país inteiro. Então também temos que fazer isso."

Pessoas engajadas em táticas como o black bloc veem esse tipo de preocupação como parte de um problema maior de se curvar a um sistema corrupto. "Numa atmosfera onde o presidente e seus representantes podem ignorar descaradamente verdades e liberdades básicas, mais e mais pessoas estão percebendo que não há espaço para os debates mornos do passado", disse uma anarquista que vou chamar de Lauren.

Para entender como esse grupo pensa, é importante perceber que quando eles veem conflitos como a "Batalha de Berkeley", eles consideram isso um progresso.

"Os fascistas estão se organizando e colaborando no país inteiro. Então também temos que fazer isso", disse Clay. "Eles são violentos e se sentem empoderados, e vamos continuar a enfrentá-los com uma agressão igual. Eles precisam saber isso. Estamos prontos. Não somos aqueles que a polícia vai proteger. São os fascistas e a direita alternativa que são escoltados pela polícia."

E essa retórica não deve esfriar tão cedo. Recentemente, nos EUA, dois homens foram esfaqueados e mortos, e um ficou gravemente ferido, defendendo duas adolescentes, uma delas usando um hijab, de um homem que gritava insultos racistas em Portland. Em sua aparição no tribunal, o suspeito Jeremy Joseph Christian gritou "Vocês não têm um espaço seguro!" e "Morte aos inimigos dos EUA!".

Na esteira do crime, o prefeito de Portland Ted Wheeler pediu a um grupo de direita para cancelar um comício marcado para sábado (10), mas o grupo provavelmente não vai obedecer. Os anarquistas com quem falei não quiseram comentar sobre esse comício, mas provavelmente estarão lá com suas máscaras.

Com toda essa raiva no ar, no entanto, poucas pessoas parecem dispostas a se juntar ao black bloc, mesmo acreditando que a causa deles é jutas. Para participar do grupo com que falei, você precisa não apenas se opor a brutamontes de direita dispostos a arranjar briga nas ruas, mas também ao governo e à polícia. Uma exigência e tanto.

Stamper me surpreendeu durante nossa conversa dizendo acreditar que sair às ruas é a forma mais viável de protesto, e que ele entende de onde essa raiva vem. Mas quando perguntei o que ele achava dos black blocs, ele respondeu "Se você acha que só há maçãs podres no departamento de polícia, por que provocá-los? Essa é uma batalha que os anarquistas nunca, nunca vão vencer".

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Tradução: Marina Schnoor

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