Nos EUA, o capitalismo fez com que os jovens agora prefiram o socialismo

Também levam a culpa: os democratas norte-americanos e liberais em geral.

por Matt Taylor; Traduzido por Marina Schnoor
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ago 23 2018, 1:24pm

Esquerda: foto por JIM WATSON/AFP/Getty Images. Direita: foto por David Paul Morris/Bloomberg via Getty Images.

Pode ser difícil de imaginar, mas não tanto tempo atrás o capitalismo parecia uma boa ideia mesmo, pelo menos nos EUA. Não só no sentido que gente rica tinha coisas chiques que gostariam de mostrar no Instagram (se ele já existisse), mas também em termos morais, tanto dentro das sociedades como entre elas.

Depois que o capitalismo americano ajudou os aliados a derrotarem os nazistas, um movimento forte de sindicatos significou que os trabalhadores podiam compartilhar a prosperidade econômica do pós-guerra. Poder de compra real e porção regular de renda para os trabalhadores eram altos o suficiente para que pessoas (brancas) tivessem uma boa chance de conseguir um trabalho para a vida inteira só com um diploma do segundo grau. Os mais ricos dos EUA tinham seus clubes de golfe exclusivos e resorts de praia, mansões, carros e férias que as pessoas normais nunca poderiam nem sentir o cheiro. Mas coisas como segurança financeira e independência – ter um imóvel entre elas, se as políticas "redlining" de loteamento não te fodessem – muitas vezes eram tangíveis, quando já não estavam à mão.

Essa era atingiu o auge uns 65 anos atrás, quando apesar de disputas de trabalho do pós-guerra e a desgraça que foi o [regime de leis racistas norte-americano] Jim Crow, o boom da economia americana ajudou ajudou o país a entrar na Guerra Fria com o pé direito. Produzindo o que ficou conhecido como a Grande Compressão, os altos impostos da Segunda Guerra Mundial e a explosão do movimento sindical já tinham tornado os EUA significativamente mais igualitário no final dos anos 1940 e começo dos 1950. Em 1954, muitas vezes rotulado como o ponto alto do movimento trabalhista americano, a parte da renda nacional total indo para os 10% mais ricos da população era de “apenas” 32%, segundo uma análise do Economic Policy Institute. Em 2012, em contraste, os 10% mais ricos arrebatavam 48% de toda a renda, enquanto apenas 11% dos trabalhadores eram representados por sindicatos.

Nessa era passada, o resto do planeta teve que testemunhar uma vez atrás da outra o poder impressionante do livre mercado, o triunfo do empreendedorismo individual e da busca por lucro (além de muitas campanhas anticomunistas mortais e cruéis pelo mundo). O então vice-presidente Richard Nixon prevaleceu sobre o premier soviético Nikita Khrushchev no famoso “debate da cozinha” de 1959, exaltando a abundância de produtos que os americanos normais tinham ao alcance da mão. Na imaginação mainstream, pelo menos, a alternativa socialista – com suas implicações autoritárias, racionamentos de bens materiais e estética monótona, tudo representado pela União Soviética – não era tão empolgante ou divertida.

“Por muito tempo, qualquer coisa associada com o termo socialista não era algo que podia ser dito na política mainstream se você queria ser levado a sério”, me disse Stephanie L. Mudge, professora de sociologia e especialista em socialismo da UC-Davis, acrescentando que esse nem sempre foi o caso. “O capitalismo tem uma trajetória interessante, porque no começo do século 20 era meio que uma palavra ruim para muita gente. E ela meio que se valorizou, especialmente no período do pós-guerra.”

Apesar de o capitalismo obviamente ainda ter seus defensores, cada vez há mais evidências de que os millennials estão se afastando disso. Segundo uma pesquisa do Gallup divulgada neste mês, mais norte-americanos que apoiam os democratas nos EUA veem o socialismo mais positivamente (57%) que o capitalismo (47%). E enquanto essa divisão faz sentido intuitivamente para quem é jovem nos EUA, a discrepância de idade é gritante. Entre as pessoas de 18 a 29 anos, incluindo conservadores e republicanos, uma pequena maioria (51%) dos americanos entrevistados curtiam o socialismo, enquanto menos – 45% – tinham coisas boas para dizer sobre o capitalismo. As pessoas acima de 65 anos, por outro lado, eram bem mais fãs do capitalismo (60% viam isso como algo positivo) que do socialismo (só 28%).

O que aconteceu nas últimas décadas para criar uma divisão geracional tão grande? A primeira parte da resposta é que o bicho-papão que era a única superpotência denominada socialista da Terra desapareceu. Tão importante quanto: o capitalismo foi rachando cada vez mais, e os democratas, o maior partido político americano construído com base nos piores excessos do capitalismo, não conseguiu controlar seus próprios impulsos, em vez disso apoiando uma agenda banco-friendly com que muita gente na esquerda ainda luta.

“Sem a Guerra Fria e sem a União Soviética, se tornou possível falar sobre socialista de um jeito que não era uma referência ao que era entendido como uma sociedade ou sistema político ditatorial”, me disse Mudge. “Em outras palavras, quando não há um exemplo vivo de nenhum país realmente socialistas, as pessoas ficam livres para imaginar diferentes tipos de instituições socialistas sem ter que se defenderem como sendo pró-soviéticas, pró-Stalin ou algo assim.”

“Para os jovens – millennials e Gen Z – que não cresceram na Guerra Fria, como regra-geral, o socialismo não é o termo pejorativo que já foi”, concorda Andrew Hartman, professor de história da Universidade Estadual de Illinois e autor de Education and the Cold War: The Battle for the American School.

Com o legado da União Soviética e seus excessos stalinistas desbotando da memória, o capitalismo teve muito tempo e espaço para esticar suas asas e fazer as pessoas sofrerem. E como sofreram, especialmente depois da crise de 2008 – um processo auxiliado e instigado pela desregulamentação financeira defendida por democratas como Bill Clinton – que puxou o tapete inteiro de baixo do mito da economia americana. “Isso moldou completamente como toda uma geração pensa sobre a economia”, me disse Hartman sobre o crash financeiro e seu rescaldo.

Na última década, os americanos são cada vez mais prejudicados por dívidas estudantis, uma bigorna iminente que se aproxima antes mesmo deles começarem sua vida econômica adulta. A carga média de dívida estudantil de jovens adultos pagando pela própria casa em 2010 no país era de cerca de US$ 13 mil [em torno de R$ 52 mil na cotação atual], segundo uma análise de dados da Reserva Federal dos EUA – e a porção de famílias que tinham dívidas estudantis era a mais alta já registrada. Foi por volta do mesmo período pós-crash que a dívida estudantil total começou a exceder a dívida de cartões de crédito pela primeira vez.

Enquanto as taxas de execução de hipoteca decolavam, e milhões de novos locatários – alguns deles pessoas que foram despejadas e precisavam de outro lugar para morar – entravam no mercado, os aluguéis também decolaram, tornando os trabalhos e as cidades mais atraentes fora de alcance para muita gente. As pessoas que podiam pagar aluguel se viram usando uma parte cada vez maior de sua renda para fazer isso: em 2013, metade dos locatários dos EUA estavam gastando 30% de sua renda só para ter um teto, comparado com 18% uma década antes, segundo o Centro Conjunto de Estudos de Habitação da Harvard. E falando em empregos, aqueles que pagam bem sem te fazer trabalhar 80 horas por semana começam a parecer quase um mito, ou objeto de desprezo.

Capitalismo começou a se mostrar como um vilão que pagava de herói. E quanto mais as pessoas analisam o que deu errado, mais putas elas ficam com o sistema que foram ensinadas a amar.

O colapso econômico liderado pela elite financeira em 2008, o subsequente fiasco do mercado de ações, esquemas ponzi, ondas de crimes de colarinho branco, ricos escondendo seus ativos em paraísos fiscais – o capitalismo para muita gente hoje é visto menos como um mecanismo de prosperidade e mais como uma série de golpes desonestos. Políticos como Bernie Sanders, que abordaram esse ressentimento – em vez de evitá-lo, como democratas mainstream tipo Barack Obama – têm se beneficiado da ira do povo. “Me considero parte do processo capitalista de sorteio pelo qual poucos têm tanto e muitos têm tão pouco, pelo qual a ganância e indiferença de Wall Street acabaram com nossa economia?”, disse Sander quando perguntaram se ele se identificava como um capitalista no debate presidencial democrata em 2015. “Não.”

Da mesma maneira, Alexandria Ocasio-Cortez, uma socialista democrata e 28 anos do Bronx, entrou num desafio de primárias com um poderoso democrata no cargo mandando um dedo do meio para o livre mercado – e expressando um desdém geral pela riqueza organizada – em seus discursos e na internet. E ela não foi mais para o centro depois de sua vitória. “O capitalismo nem sempre existiu no mundo e nem sempre vai existir”, ela disse ao PBD mês passado.

É difícil encontrar políticos americanos que apoiem abertamente o socialismo no sentido tradicional de indústria estatizada – mesmo Sander e Ocasio-Cortez não chegam a isso. Mas muitos democratas têm apoio da indústria financeira e defendem o tipo de desregulamentação pró-negócios que tantos eleitores de centro-esquerda desprezam. Apoiar o “socialismo”, seja lá o que isso significa para cada pessoa, é um jeito de sinalizar insatisfação com esses democratas e liberais antirregulamentação.

“Como o liberalismo se tornou um termo associado com a política de terceira via da era Clinton, o socialismo é o termo que Sanders e outros adotaram para o pólo esquerdo do liberalismo New Deal”, sugeriu Hartman.

Claro, os dois acadêmicos com quem falei também concordam que a explicação mais simples para tudo isso tem a ver com a eleição de 2016. Como Hartman disse: “Quando falam em capitalistas, as pessoas pensa em gente como Trump agora”.

Matéria originalmente publicada na VICE US.

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