Ilustração: Cathryn Virginia

O que é o nada?

Perguntamos para um físico e um filósofo explicarem o nada — e isso é muita coisa.

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nov 8 2018, 1:59pm

Ilustração: Cathryn Virginia

Feche seus olhos e tente imaginar o nada.

Tarde demais. A probabilidade é que você tenha pensado em alguma coisa: talvez na cor preta, ou na palavra “nada”, e nenhuma delas é nenhuma coisa.

Pode ser possível contemplar o nada, na melhor das hipóteses, como uma forma de meditação e, na pior, como uma perda de tempo total.

Nada é um conceito tão enganosamente simples. Está presente na intersecção da ciência, da filosofia e da linguagem por si própria. Assim como a criança que pergunta “por quê?” até o limite do absurdo, tentar chegar ao cerne desse problema pode ser muito frustrante, então pedi ajuda a um físico e a um filósofo para ter uma ideia do que pode ser – se é que pode-se dizer assim — o “nada”. Aparentemente, essa também é uma pergunta frustrante até para especialistas.

O que é o nada de acordo com a física?

Sean Carroll é um físico teórico e cosmólogo no Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), nos EUA. O nada é um problema recente para ele a partir do momento que se relaciona com algo.

Em um post de blog recente, um episódio de podcast e um capítulo do Routledge Companion to the Philosophy of Physics, intitulado “Why is There Something, Rather Than Nothing?” [“Por que existe algo, em vez de nada?”, em tradução livre], Carroll tenta responder a essa pergunta nos termos mais simples possíveis.

“A ciência e a filosofia estão preocupadas em questionar como as coisas são, e por que elas são do jeito que são. Logo, parece natural dar um passo a mais e perguntar por que as coisas simplesmente são”, ele escreveu no capítulo. “Nossa experiência de mundo, a qual está confinada a uma fração extraordinariamente pequena da realidade, não nos torna adequadamente equipados para pensar sobre a questão de sua existência.”

A inexistência absoluta é muito diferente do simples “espaço vazio”, mesmo que possa ser uma definição útil e corriqueira, Carroll me contou por Skype recentemente.

“Na teoria quântica de campos, considerada a melhor forma de descrever o universo de que dispomos até agora, o espaço vazio é bastante interessante”, ele explicou. “Mesmo se se tratar de um espaço vazio, ainda existem [propriedades] mecânicas quânticas lá – elas simplesmente estão em um estado de zero energia, fazendo nada. Mas você pode investigar o vácuo, e suas partículas, e descobrir suas propriedades. O espaço vazio é um lugar muito interessante para a física moderna; tem muita coisa acontecendo lá, porque se não houver nada, não haveria nada acontecendo.”

“Talvez seja melhor pensar no nada como a ausência de espaço e tempo, em vez de espaço e tempo sem nada neles.”

Os estados quânticos são funções de onda que medem os níveis de energia incertos dos átomos e partículas com um grau altíssimo de precisão. Um sistema mecânico quântico em seu estado de energia mais baixo pode se parecer muito com o nada, mesmo de uma ponto de vista matemático, mas ainda assim haverá partículas mínimas e energia por lá.

Mesmo se se tratar de um buraco no chão ou uma grande extensão de espaço entre corpos celestiais, esses espaços “vazios” estão repletos de algo que tem propriedades físicas. O vácuo não é o nada, ao menos até onde Carroll e seus contemporâneos têm conhecimento.

Mas essa é somente uma das formas de compreender o problema. O outro é ainda mais doido: a ausência de espaço-tempo juntos, “vazios” ou outra coisa.

“O simples nada – não um vácuo da teoria quântica — simplesmente a ausência de coisas”, Caroll afirmou. “Considerando que estamos em um mundo pós-relatividade geral, sabemos que o espaço e o tempo não são fixos nem absolutos; eles são dinâmicos. Einstein afirmou que o espaço e o tempo são distorcidos pela energia, então talvez seja melhor pensar no nada como a ausência de espaço e tempo, em vez de espaço e tempo sem nada neles. Existe uma grande diferença entre o espaço vazio e o nada.”

Por mais que seja importante manter essa definição de nada na mente, Carroll acrescenta, isso não tem serventia ao campo da física. “‘Algo’ é interessante; o nada é interessante somente enquanto a ausência de algo”, ele afirmou.

Ultimamente, Carroll afirmou, ele não perde mais o sono com a questão “o que é nada?”, mesmo sendo algo muito fascinante a ser considerado.

“Acho que a pergunta ‘por que existe algo em vez de nada?’ é interessante, mas a resposta é, provavelmente, ‘é assim que as coisas são’”, ele concluiu. “É provável que não tenha nada mais profundo que isso. Não é que o nada seja um mistério desconhecido; é simplesmente a ausência de qualquer coisa. É só o que se pode afirmar por enquanto. Não há nada mais para se aprender sobre o nada. É tudo o que se pode aprender sobre alguma coisa.”

O que é o nada de acordo com a filosofia?

A ciência não tem o monopólio do nada. Jim Holt é um filósofo que escreveu sobre uma grande variedade de tópicos científicos, desde a origem do universo à história filosófica das piadas. Ele também tratou da mecânica quântica e do nada em uma palestra do TED intitulada “Por que o universo existe?”.

Para Holt, o nada puro não é inteligível para a mente humana, mas pode ser descritível por meio do raciocínio filosófico, outro grande ponto de partida para quem reflete sobre essa questão. Ele argumenta que “nada” – não o espaço vazio repleto de coisas invisíveis da física quântica, mas literalmente nada — pode ser facilmente descrito simplesmente pela lógica formal.

“É possível descrever de modo coerente o estado do nada; é fácil fazer isso”, Holt me contou ao telefone. “É um estado no qual tudo não é auto-idêntico. Se para todo x, x não é idêntico a x; essa sentença, em lógica, descreve um estado de nada. Não estimula muito a imaginação, mas também não abre espaço para contradições. Somente pode ser verdade que o nada existe porque, se algo existe, ele é idêntico a si mesmo.”

“Nunca fui capaz de compreender o nada completamente, mas chego perto quanto assisto boliche profissional na televisão.”

Usar o raciocínio científico para compreender como algo emergiu do nada, Holt argumenta. É a tentativa de um físico para responder a uma questão metafísica. Mais especificamente, ele discorda da teoria do campo quântico, que afirma que o universo pode ter explodido de um vácuo quântico graças à inflação.

A teoria da inflação foi inicialmente proposta como um adendo à teoria do Big Bang nos anos 1980. Ela afirma que a inflação cósmica levou o universo da escala quântica para a astronomicamente grande em um período muito curto de tempo (entre 10 a 35 segundos após o Big Bang), proporcionando a escala e a estrutura do universo no qual vivemos hoje.

Mas e se o universo passou a existir a partir do nada, de acordo com um conjunto de leis físicas, então, de onde essas leis surgiram? Elas já existiam antes do universo? Se sim, isso não significaria que o universo não emergiu do nada? “De acordo com os físicos, as leis da teoria do campo quântico podem criar um mundo novo direto do abismo, então são entidades muito misteriosas. Mas são entidades. Não são coisa nenhuma”, Holt me contou.

Então, o que é o nada? De acordo com Holt, mesmo se não pudermos descrever suas propriedades — ou mesmo imaginá-las —, é concebivelmente o modo como as coisas poderiam ter surgido.

“O nada é o modo mais simples possível do qual a realidade poderia ter surgido; é o menos arbitrário, porque exclui tudo”, Holt afirmou. “Assim que você começa a levar a sério, você começa a pensar: ‘é assim que deve ter sido; por que deveria ter algo em vez de nada?’ Não somente há algo, mas é um tipo muito particular de algo que vemos ao nosso redor.”

Na verdade, o nada é um convite para considerar aquilo que existe — que é algo, para ser mais preciso. O nada, por toda sua inexistência, é uma das questões intelectuais mais difíceis de serem compreendidas.

“É uma mistura interessante de filosofia, ciência, análise conceitual e teologia, e decisão dos limites da linguagem”, Holt afirmou, “Para pessoas curiosas sobre problemas intelectuais abstratos, é um banquete.”

Nada realmente importa

Nossos cérebros são programados para compreender as coisas como entidades discretas, mas isso não significa que não possamos quebrar a cabeça com a ideia de uma ausência de propriedades. De fato, fazer isso cria uma apreciação com muito mais nuances do universo.

“Eu acredito que [o nada] é compreensível”, Carroll afirmou. “Não acreditamos que o universo tenha um limite no espaço, mas ele poderá ter tido um início — não sabemos disso com certeza, mas é certamente plausível. Se houve um momento [de início], e após esse momento houve algo, então não havia nada do outro lado. Você fica tentado a dizer ‘antes desse momento, não havia nada’. Mas é melhor dizer ‘não existe algo como antes desse momento’.”

Holt afirmou que o nada pode ser inteligível por meio da lógica, você provavelmente não conseguirá visualizar isso, a não ser que tenha uma assinatura de pacote de canais de esportes na TV a cabo. “Nunca fui capaz de compreender o nada completamente, mas chego perto quanto assisto boliche profissional na televisão”, ele brincou.

Essa referência ao boliche pode não ter uma validade científica ou filosófica, mas ilustra o absurdo da tentativa de compreender aquilo que necessariamente não existe. Ainda assim, no mínimo, fazer uma pergunta tão absurda quanto “o que é o nada?” nos faz lembrar de que sempre haverá ideias no limite da compreensão humana, e seres humanos ousados dispostos a confrontar o absurdo.

“Estou disposto a trabalhar em respostas melhores”, Carroll afirma. “A satisfação é algo com que podemos esperar, mas não demandar, quando falamos sobre o universo. Cabe a nós, como espécie, cultivar a maturidade intelectual para aceitar que algumas questões não têm o tipo de resposta programada para nos satisfazer.”

Então, o que aprendemos com tudo isso? Espero que algo.

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