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E agora que chineses dizem ter criado os primeiros bebês com genes editados?

Pesquisadores afirmam que o DNA de duas gêmeas foi alterado para protegê-las contra HIV. Muitos especialistas estão questionando a validade ética e científica da experiência.

por Daniel Oberhaus; Traduzido por Marina Schnoor
27 Novembro 2018, 12:39pm

Imagem: Shutterstock.

Um pesquisador chinês anunciou que editou o DNA de duas gêmeas nascidas este mês para torná-las naturalmente resistências a HIV e outras doenças. Se essa pesquisa se mostrar legítima, esses bebês serão os primeiros do mundo a nascer com um genoma editado.

He Jiankui, um geneticista que estudou nas Universidades Rice e Stanford nos EUA, fez o anúncio na segunda-feira. Segundo uma revisão do MIT, He editou o DNA de embriões carregados por sete casais, apesar de se recusar a dar o nome dos envolvidos ou o status dos outros bebês a pedido dos pais.

“Sinto uma forte responsabilidade de não é só fazer um primeiro, mas também dar um exemplo”, He disse a Associated Press. “A sociedade vai decidir o que fazer agora.”

He disse que usou CRISPR-Cas9 para editar os genomas dos embriões humanos. O CRISPR usa uma enzima chamada Cas9 para cortar pequenas porções do DNA e introduzir mudanças genéticas no local. O elemento central do sistema CRISPR é um pequeno pedaço de RNA que se liga a uma sequência específica do DNA num genoma e na enzima Cas9. Uma vez que o RNA está ligado à sequência de DNA, o Cas9 corta o DNA no local alvo e os mecanismos naturais de reparo de DNA da célula trabalham para consertar a sequência.

No caso das gêmeas recém-nascidas, He disse a Associated Press que editou o DNA delas para torná-las naturalmente resistentes a HIV, varíola e cólera.

A comunidade científica expressou reações mistas ao anúncio de He. Em primeiro lugar, não é certeza se o feito realmente aconteceu. He não segue o procedimento padrão de publicar seus resultados num jornal acadêmico onde outros especialistas em genética possam revisar. Ele também não divulgou nenhum detalhe sobre o casal que concebeu as crianças. A única pista de que as alegações de He são legítimas são documentos postados no site da Southern University of Science and Technology (SUSTech), onde He está de licença há meses.

Segundo a Associated Press, a SUSTech disse que o trabalho de He “viola seriamente a ética e padrões acadêmicos” e planeja investigar o caso.

Também há questões sobre se He não cometeu um erro ético crasso editando embriões humanos viáveis. Apesar de o CRISPR já ter sido usado para editar genes em adultos para tratar com sucesso várias doenças, até agora ele não tinha sido usado para editar o genoma de um embrião levado até o fim da gestação. Nos EUA, editar o genoma de embriões é limitado a laboratórios e embriões modificados geneticamente são sempre terminados bem antes de começarem a amadurecer em fetos.

A preocupação com edição de genoma embrionário vem principalmente de incertezas sobre como esse processo vai afetar as próximas gerações. Diferente de editar o genoma de um humano adulto para tratar uma doença, mexer no DNA embrionário induz mudanças genéticas que podem ser passadas para as futuras gerações. Um problema é que o CRISPR é conhecido por produzir mudanças genéticas indesejadas, que podem levar a problemas de saúde imprevisíveis nas recém-nascidas.

Na China, porém, as regras sobre edição de genoma são ligeiramente mais relaxadas que nos EUA. Apesar de clonagem humana ainda ser considerada ilegal, edição de genoma de embriões humanos não é. Essa relativa brecha quando se trata de engenharia genética permitiu que a China fizesse vários avanços notáveis nos últimos anos – incluindo produzir os primeiros macacos clonados, o que era considerado uma grande barreira no caminho para criar o primeiro clone humano.

Também é importante notar que essa não é a primeira vez que cientistas afirmam ter produzido um bebê geneticamente modificado sem provas. No começo dos anos 2000, pesquisadores ligados a uma seita disseram ter produzido o primeiro clone humano, o que acabou se mostrando uma fabricação. No entanto, esse anúncio causou pânico generalizado de clonagem em potencial e levou a aprovação de várias leis proibindo a prática no mundo todo.

A China não é exatamente conhecida por sua honestidade quando se trata de pesquisa científica: ano passado, o New York Times relatou que a China recolheu mais artigos fraudulentos revisados por pares desde 2012 do que todos os outros países juntos, e vários resultados de pesquisas de alto escalão não puderam ser replicadas por outros cientistas. Por outro lado, a tecnologia de edição de genoma está num ponto onde as alegações de He são plausíveis.

Por enquanto, ainda não sabemos se He introduziu a humanidade uma nova era de bebês.

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