Guia Noisey para curtir um Tool

Arte marginal, um tiquinho assim de psicodelia progressiva e pseudo-intelectualidade marcam o confuso porém afável catálogo da banda.

por Emma Madden; Traduzido por Thiago “Índio” Silva
15 Janeiro 2019, 9:00am

Foto: Getty Images

Um sábio chamado Homer Simpson, sentado no sofá com um cigarro no bico, certa vez cunhou um belíssimo slogan para aqueles que se consideram autossuficientes: “Todo mundo é burro, menos eu”. É uma frase boa para se segurar quando se é fã do Tool há tempos, este grupo de polímatas polêmicos que passou boa parte dos últimos 29 anos criando algumas das mais superficialmente desafiadoras composições dentro do rock.

Para quem vê de fora, a música da banda apresenta uma proposta esquisita que combina arte marginal, toques de psicodelia progressiva e filosofia pretensamente profunda — tipo misturar a versão para leigos de Admirável Mundo Novo com um VHS de Clube da Luta mais um tiquinho de LSD. Mas, no final das contas, o Tool acabou por dar a luz a um dos públicos mais fieis do rock, tudo isso com apenas quatro discos lançados.

Ao longo destes discos podemos encontrar poliritmos complexos e tempos friamente calculados, acompanhados por batidas tribais que vão deixar seu terceiro olho molhadinho e referências que levaram os fãs da banda a se informarem sobre a Sequência de Fibonacci, viagens de ayahuasca e seres extradimensionais, sabe como é, aquelas paradas que fazem de todos uns burrões, menos você. Não é de surpreender que seu quinto disco, que aparentemente acaba de ser finalizado, tem sido considerado o o mais esperado álbum de heavy metal de todos os tempos”.

A banda se juntou ao final dos anos 80, quando o gentil e já cansado vocalista Maynard James Keenan conheceu o artista de efeitos especiais e guitarrista Adam Jones. Keenan tinha acabado de passar por uma temporada no exército que apenas cimentou seu cinismo e abriu seus olhos para a desigualdade que moldavam os EUA daquela época.

“90% dos meus amigos no exército eram gays ou lésbicas”, afirmou Keenan em biografia escrita por Joel McGiver, intitulada Unleashed: The Story of Tool. “A maioria destes acabava passando por interrogatórios constantes, eu até mesmo cheguei a casar no papel com uma lésbica para que ela pudesse manter seu status.”

O tempo no exército serviu de força motriz para a angústia de Keenan, e também proveu a evidência e a experiência para reforçar sua visão misantrópica de mundo. Some isso ao marasmo da Geração X e a base de operações em Los Angeles (lar da banda ao longo de décadas, apesar de várias canções escritas sobre odiar a cidade) e temos uma banda amarga desde a formação, com a entrada do baterista Danny Carey e do baixista Paul D’Amour, um reflexo do espírito sofrido do começo dos anos 90.

Mas havia algo que os tornava único em meio aos outros artistas da época. Ao longo de sua carreira, o Tool sempre se posicionou como uma banda de intelectuais, com referências a Karl Marx e Carl Jung, acompanhadas por um vocalista acrobático, fazendo com que a banda apelasse para um público mais cabeça, diferente das bandas grunge daqueles tempos.

Keenan se referia a alguns de seus seguidores como “pessoas insuportáveis”, então não seria injusto dizer que são quase como proto-fãs de Rick and Morty. O que é frustrante nessa história é que a banda leva mesmo consigo esse pseudo-intelectualismo a sério, coisa a qual seus fãs se prendem e mesmo assim fazem músicas foda o bastante pra prender sua atenção.

Muitos deixam pra trás as tendências adolescentes apresentadas pelo Tool ainda hoje — arrogância, solipsismo e a sensação constante de saber de tudo — ali pela casa dos 20 anos mesmo. Visite um bazar qualquer num subúrbio norte-americano e com certeza você encontrará adolescências inteiras deixadas para trás na forma de CDs do Machine Head, Staind e Puddle of Mudd. Mas o Tool, esse aí ninguém larga.

Por que diabos então, que com toda essa empáfia por parte do Tool, fãs que há muito deveriam ter deixado a banda pra trás por questão de puro bom senso e amadurecimento, ainda se prendem a ela? Talvez seja pelas bravatas que seguem em alta e pela capacidade da banda de fazer as pessoas se sentirem como se soubessem de um segredo, como se fossem As Escolhidas. Ou sei lá, é porque o som é bom mesmo.

Dito isso, já se passaram 12 anos desde que o Tool lançou seu último disco e um monte de gente que já devia ter mais noção das coisas (eu) continua googlando todo santo dia “Quando sai o próximo disco do Tool?”. Este guia não é apenas uma tentativa de arrastar você pra lama comigo, mas tentar compreender o porquê desse fascínio todo.

(Ao longo deste texto não apresentaremos as músicas do Tool naquele formato já conhecido de playlist dos nossos guias. Fato é que talvez seja complicado encontrar material da banda na internet, visto que esta é uma das últimas a resistir na Grande Guerra do Streaming, o que tem tudo a ver com o Tool, sejamos honestos.)

Tool grunge

Quando o Tool lançou seu primeiro EP, Opiate, em 1992, a banda parecia ir contra a maré da indústria. “As coisas não deveriam ter dado certo pro Tool, mas por mais incrível que pareça, deram”. É esta frase que abre o livro de McGiver, só que no final das contas não era bem esse o caso; veja bem, boa parte da história do rock pode ser explicada pelo seu efeito pendular. Tivemos a época do rock espetacular — o exagero do hair metal e seu público feminino devoto. Então o rock sincerão — bandas que iam contra o establishment ao apresentar um visual pouco simpático e que acabam adoradas por sua franqueza. Quando o Tool chegou, o rock como um todo meio que já estava nessa pegada.

Em 1992, quando Opiate foi lançado, todo o cenário roqueiro havia mudado: o ano havia iniciado com Nevermind, do Nirvana, dando um chega-pra-lá em Dangerous de Michael Jackson, tirando-o do Top 200 da Billboard, marcando a transformação do grunge de fenômeno local em influência internacional. Opiate fica entre a sonoridade grunge em alta da época e o metal que aos poucos saía de moda.

“Sweat”, que abre o EP, começa com um riff tritonal imundo, ancorado por um linha de baixo modorrenta, lodosa. É o tropo grunge que a banda acabou por refinar em seu LP, Undertow, especialmente na faixa “Prison Sex”, que transformou o grunge em nojeira e horror. Nela, Keenan canta uma perturbadora diatribe sobre traumas intergeracionais e abuso, distorcendo a regra de ouro bíblica: “Faça com os outros o que fizeram com você”, tudo isso enquanto Jones cria com seu baixo a sonoridade pantanosa típica de da banda.

Por mais que boa parte do material lançado pelo Tool nos anos 90 seja notavelmente grunge — com vocais semelhantes ao de Kurt Cobain; o ódio puro, feio e simples; o título contra o establishment do primeiro EP (uma referência à citação de Marx que todo universitário de humanas ama) — o som da banda tinha inspirações diversas, com toques de King Crimson, Black Flag e Meshuggah no início de carreira — o que dificultava sua associação com uma única cena ou gênero. E isso era bem coisa de grunge mesmo, o que não era tão rocker assim era o sem-fim de gravadoras doidas pra assinar com os caras.

Playlist: “Sweat” / “Prison Sex” / “Stinkfist” / “Intolerance” / “Swamp Song”

Tool revoltado

“Alguém tira aquele arrombado metido a Bob Marley daqui”, diz Keenan a um público empolgadaço na primeira das faixas ao vivo de Opiate, “Cold and Ugly”. Desde que eles surgiram, o Tool sempre odiou seus fãs. “[você toca] música pesada e sua gravadora, que nunca teve um disco nas mãos parecido com o que você está fazendo, te vende pro moleque fedorento de dreads com tênis mijado”, Keenan disse ao AV Club em 2006.

A banda também odeia a “religião”, o “governo” e a “indústria”. Odeia ainda qualquer coisa retrô, tatuagens, atrizes inseguras, Prozac, L Ron Hubbard. Provavelmente foi por isso mesmo que eles acabaram atraindo um público de brancos suburbanos que gritam com os pais e gozam na toalha de rosto do banheiro, veja bem. Roqueirões cujo ódio é infundado, cercados por privilégios ao ponto da frustração são formas de se descrever os fãs do Tool e seus contemporâneos, considerando que o eterno ódio da banda inspirou um monte de bandas do final dos anos 90 rumo aos anos 00.

Duvida? Fred Durst do Limp Bizkit disse à MTV em 1998 que Tool era uma de suas bandas favoritas. “Dá pra ouvir a influência de Maynard em ‘Nobody Loves Me’ [do Limp Bizkit] bem no meio, na quebrada do meio. Eu imitei a maneira que ele canta”, disse Durst. Já em White Pony, do Deftones, lançado em 2000, Chino Moreno canta sobre ser abduzido por alienígenas e dar rolê com Keenan, solidificando o status deste enquanto lenda.

A pegada de poucos amigos da banda, um lance meio “pode gostar da gente, mas saiba que a gente te odeia” ficou evidente já em Opiate com suas guitarras nervosas. “[quando surgimos] éramos produtos daquela merda toda do Reagan, estávamos putos e de saco cheio”, Carey disse em entrevista à Kerrang em 2006. Aquele sentimento insípido, puto-com-a-política, retornou no lançamento do quarto disco, 10,000 Days. À época, Carey refereriu-se a Bush como o pior presidente que os EUA já tiveram. “Estamos frustrados e é por isso que o disco saiu mais pesado desta vez”, comentou na mesma entrevista, referindo-se a 10,000 Days.

Faixas como “Jambi” em especial mostram uma estratégia extremamente simples e satisfatória na criação de um som raivosinho — baixo habilidoso, bateria porradeira afinada em consonância com as guitarras e um riff nojento. É o tipo de peso inspirado em grande parte pelos suecos do Meshuggah — uma influência que surgiria mais à frente na carreira da banda, tornando sua música ainda mais complexa. Mas antes de 10,000 Days, a agressividade da banda surgia de forma mais direta e menos levada a sério. Ou seja, melhor.

Alguns de seus melhores momentos nessa pegada estão em Ænima. Ali, Keenan fala diretamente com fãs que acusavam a banda de ter se vendido: “I sold my soul to make a record, dipshit, and you bought one”, retruca.

Playlist: “Sober” / “Flood” / “Hush” / “The Grudge” / “Jambi” / “Hooker With A Penis”

Tool progressivo

Depois de três discos, o Tool buscava a imortalidade, coisa que nenhum subgênero do rock poderia comportar senão o famigerado progressivo. “Odiado, datado, sonicamente envelhecido”, sem contar que provavelmente “o som mais de branco de todos” de acordo com matéria do The Atlantic. Mas o rock progressivo, aquele mesmo que Jon Anderson do Yes chamou de “um tipo de arte maior”, caía bem ao Tool. Não é de surpreender que seu sons mais progzeiros tenham surgido no ano em que os caras saíram em turnê com os pais do gênero, King Crimson. “Queremos que nossos discos durem”, disse o guitarrista do King Crimson, Robert Fripp, no boom do prog lá nos anos 70.

Essa era a intenção do rock progressivo — manter seus ouvintes sempre entretidos ao tentar decifrar cada canção cheia de informação e conceitos; fazer com que os fãs se prostrassem diante de músicos que se consideravam deuses e não parte de uma cena local. E estas mesmas intenções de fazer com que a música durasse, soasse atemporal e transcendente, permeavam Lateralus, disco do Tool lançado em 2001.

Não é como se os caras não viessem se apropriando dos métodos da coleção de discos dos seus pais antes disso, veja bem, já rolava. Em 94, a banda tentou fazer de seus shows espetáculos num pique Pink Floyd, com luzes, lasers e a porra toda; eles também haviam abraçado toda uma extravagância e criado grandes paisagens sonoras comparáveis a bandas como Styx e King Crimson, especialmente em faixas como e, “Parabol” e “Pushit” no disco anterior, Ænima.

O que faz o Tool tão charmoso para um público pretensamente ambicioso é que eles pegam as partes divertidas do progressivo — os instrumentos esquisitos (tem um monte de samples de didgeridoo no Lateralus); as composições complexas e oscilantes (a faixa-título de Lateralus brinca com um tempo baseado na Proporção Áurea de Fibonacci) — mas sem a complexidade intelectual. E foi isso que chamou a atenção do engenheiro de som David Bottrill, que influenciou e muito a sonoridade progressiva do disco, fazendo-o se aproximar da banda. “O estilo tocado por eles ainda soa poderoso; é misterioso e ainda assim convidativo”, disse à Magazine em 2001. “Diferente do prog, onde o que importa é a virtuose, o esoterismo da música. Isso afasta as pessoas, é preciso mais estudo para compreender. Não é o caso do Tool.”

Keenan já insistiu que suas canções “não são comerciais, não se tratam de jingles de três minutos, não são de fácil compreensão — se assemelham a um filme” e, ao fazer isso, reforçou a ideia de que ainda assim valeria a pena adquirir os discos de sua banda. Não é coincidência nenhuma que na época em que os CDs entraram em decadência, seu baterista Danny Carey (junto de sua predileção pelo oculto) tenha entrado em evidência. Mais especificamente, Carey trouxe consigo uma fascinação pela geometria sagrada tão #profunda que acabou por afetar a imagem da banda, tornando-se a base para a arte dos discos seguintes.

Em 2000 eles lançaram um box de CDs/DVDs limitados com versões progzêra ao vivo de canções antigas — destaque para “Pushit” — fazendo da embalagem do negócio parte da experiência. Projetado pelo colaborador de longa data Alex Grey, a arte é apresentada em slipcase translúcido (tornando impossível sua cópia), com a ilustração de um ser macrocósmico de braços abertos. Esta tática se repetiu em Lateralus e 10,000 Days, com resultados parecidos. Não, os caras não estão no Spotify.

Playlist: “The Patient” / “Reflection” / “Lateralus” / “Rosetta Stoned” / “Pushit” / “Schism” / “Right in Two”

Tool suave

O chamariz do Tool em cada uma de suas fases — grunge, raivosa, prog — é que eles tem um certo toque de calmaria e feminilidade que seus colegas nunca tiveram. O golpe fica claro desde o começo, com momentos como na faixa-título de Opiate, em que Keenan alterna momentos de gentileza com berros.

“Eu tenho uma natureza mais aberta do que meus supostos colegas”, comentou o vocalista em entrevista à Warp, “A maioria das bandas de rock ou alternativas contam com uma abordagem muito masculina, linear, já no nosso caso creio que haja certo equilíbrio feminino”. Keenan aprendeu com Prince e Bowie — não dá pra ser um ícone do rock sem um lado feminino, certificando-se de que sua banda deixaria este bem evidente.

O Tool deixou para trás seu som estritamente pesado no terceiro disco, Ænima. O metal sempre foi um gênero musical para meninos, de qualquer forma. É música de guerra — tem que ser macho o bastante pra aguentar o mosh; tem que ser raivoso e hipócrita o bastante também. Mas Ænima serviu para a banda expurgar esta masculinidade, por meio de métodos bastante masculinos; de acordo com a psicologia jungiana (da qual o Tool é fã) a “anima” é o eu interior feminino, mas o Tool usou o termo de tal forma que virou um trocadilho sujo — “anima” virou Ænima — que em inglês soa como enema.

Bem, talvez o disco tenha mesmo sido o enema da banda. Já no lançamento de seu quinto e último disco, 10,000 days, o Tool praticava toda uma vulnerabilidade.
“Wings for Marie”, partes um e dois, ainda afetam com sua suavidade. Uma homenagem à sua falecida mãe, na faixa, Keenan canta: “So what have I done / To be a son to an angel?” num arroubo de sinceridade tocante, ainda mais após toda uma carreira de zombaria.

Playlist: Opiate” / “Wings For Marie (pt. 1 e 2)” / “H” / “4°”

Emma Madden é jornalista no Reino Unido e perde tempo no Twitter explicando espirais e outras paradas. Segue lá.

Matéria originalmente publicada pelo Noisey US.

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