Publicidade
Notícias

A Cracolândia está longe de acabar

A ação violenta apresenta poucas soluções para o futuro.

por Marie Declercq
23 Maio 2017, 9:51pm

Cracolândia depois da ação da polícia. Foto: Alice Vergueiro

No domingo (21) 976 agentes da Polícia Militar e Civil participaram de uma operação contra o tráfico de drogas na região da Luz, conhecida popularmente como Cracolândia, para desmobilizar a suposta atuação da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC). Segundo a nota oficial da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP), 53 pessoas foram detidas (embora a imprensa tenha noticiado que dos 69 mandados de prisão, 28 foram cumpridos) e "com a ação, o tráfico da forma que vinha sendo praticado, com um escalão de uma facção criminosa comandando a distribuição de drogas no local, foi eliminado do quadrilátero principal da área". No entanto, assim como outra operação muito semelhante que aconteceu em 2012, a maioria dos usuários e moradores do fluxo que perduravam na região foram dispersados para outras regiões em terem para onde ir e a rede de assistência social já se mostra sobrecarregada pra receber a recente demanda que a operação causou.

"A Cracolândia aqui acabou", anunciou o prefeito João Doria sobre a ação policial intensa que começou ao amanhecer do domingo quando ainda rolava a primeira Virada Cultural descentralizada a mando da gestão do tucano. Doria anunciou que serão colocadas câmeras de monitoramento na região e os albergues instalados durante a gestão anterior do petista Fernando Haddad serão destruídos e darão lugar para iniciativas construídas pela iniciativa privada. Pelo tom de Doria durante a sua campanha eleitoral e as ações policiais quase imediatas na região, a dispersão violenta era esperada.

Durante a ação, muitos usuários saíram feridos e na confusão algumas lojas e hotéis acabaram invadidos e carros foram depredados. Nos diversos vídeos divulgados nas redes sociais, policiais armados com balas de borracha expulsam os poucos moradores e usuários da região que correm pela Alameda Dino Bueno. Todos os barracões do fluxo foram prontamente destruídos e algumas cenas nos noticiários mostram um grupo grande de usuários que se abrigaram em um posto de gasolina próximo à região. Na tarde de terça-feira (23), o mutirão para eliminar qualquer vestígio da Cracolândia da região continuou e acabou deixando três pessoas feridas ao demolir imóveis na Alameda Dino Bueno.

"Foi uma operação bem desastrosa, midiática e muito violenta que não contribuiu em nada para diminuir a situação de vulnerabilidade dessas pessoas", critica Nathália Oliveira, socióloga e presidente do Conselho Municipal de Política de Drogas e Álcool (Comuda) da cidade de São Paulo. "É como se fosse uma maquiagem mesmo, porque essas pessoas afetadas estão perdidas pelo centro da cidade, se espalhando como já aconteceu em 2012 com a Operação Sufoco. (...) os trabalhadores da assistência social e da rede de saúde estão super sobrecarregados, não sabendo o que fazer, porque as orientações estão completamente desencontradas. " A presidente do Conselho disse que a força-tarefa acabou de alguma forma vazando para as organizações e veículos de imprensa, já que no dia da ação policial muita gente já estava presente para acompanhar a polícia. "Uma operação burra", frisa.

Raphael Escobar, membro da organização Craco Resiste que promove atividades no fluxo e presta serviço de apoio a abusos policiais, afirma ter testemunhado toda a operação e não conseguiram sequer ter uma ideia de quantos moradores e usuários foram feridos diante da rápida dispersão policial. "Foi uma guerra onde um lado não tinha nenhuma força. Eram cerca de 500 policiais entrando na Dino Bueno. Quando tacaram a primeira bomba começaram [os policiais] a comemorar. Tinha atirador de elite, vestido de exército. Eles entraram acabando com tudo no fluxo, destruindo o que tinha pela frente e não deixaram ninguém voltar para pegar os documentos. Eu nunca tinha visto isso na vida durante os anos que trabalho na região".

Horas após a operação, pipocaram diversos relatos de pequenas aglomerações de pessoas desabrigadas que estavam ocupando alguns pontos do centro da cidade. Dentre os detidos por tráfico de drogas, há a informação de que 12 pessoas foram internadas no dia. Segundo Nathália, poucas informações foram conseguidas pelo Conselho sobre esses encaminhamentos. "É uma dificuldade que estamos enfrentando porque o Estado não está nos fornecendo informações sobre esses encaminhamentos. Até onde nós sabemos, não houveram internações compulsórias porque elas só podem acontecer via CRATOD (Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas) que define se pode ou não pode esse tipo de coisa. Porém, suspeito que muita gente pode ter aderido à internação por alguns motivos como uma forma de fugir da polícia e para conseguir um lugar para ficar. Escobar comentou sobre as internações da mesma forma. "A realidade mesmo é que eles estão com medo da polícia. Então é quase como se fosse uma internação compulsória, assim que isso acalmar o pessoal vai voltar pra rua."

Segundo Oliveira, a rede de saúde e de assistência social da cidade não tem infraestrutura para receber essa quantidade de pessoas que perderam a moradia na região. Dezenas de desabrigados foram encaminhados ao complexo Prates, no bairro do Bom Retiro, uma espécie de AMA que foi adaptada para receber os usuários que serão atendidos pelo programa "Redenção" da gestão Doria. Segundo uma reportagem, o local tem pouco espaço e várias pessoas estão dormindo em leitos improvisados na quadra do local. Os próprios funcionários afirmaram terem sido pegos de surpresa com a ação, que não foi divulgada antes para a rede de saúde.

Pouco depois de declarar o fim da Cracolândia, Doria recuou em outra coletiva e disse não ter uma solução rápida para um "problema histórico". Seu padrinho político, o governador de São Paulo Geraldo Alckmin elogiou a operação e disse que agora será a hora de começar as ações sociais. Até esse ano, a região abrigava duas inciativas públicas, o "Recomeço" programa do governo do estado que defendia a internação voluntária de usuários e a "Braços Abertos", programa que seguia a tática de redução de danos para tratar da dependência química. A Braços Abertos disponibilizou hotéis e trabalho remunerado para quem fosse atendido pelo programa e mantinha uma tenda na região que fazia triagens de saúde e atividades sociais. A VICE acompanhou o primeiro dia do programa em 2014. Assim que Doria assumiu o cargo, anunciou que o programa da gestão anterior seria extinto quase que imediatamente para dar lugar ao seu programa batizado de "Redenção".

A Cracolândia já se estabeleceu em diversos lugares da cidade durante as décadas que já conta com um caráter itinerante na sua própria existência. Em 2012, com a chamada Operação Sufoco, foi parte da implementação do ambicioso programa Nova Luz do então prefeito Gilberto Kassab, centenas de pessoas se dispersaram da mesma forma após uma operação policial. O promotor de justiça Arthur Pinto Filho do Ministério Público de São Paulo já disse que a Cracolândia apenas "mudou de lugar" com a ação policial e desestabilizou o programa da gestão Doria para combater a dependência química. "O Redenção, que era um projeto civilizatório, foi colocado de cabeça pra baixo, ele não se sustenta mais, as linhas básicas foram quebradas. Evidente que o traficante podia ser preso e deveria ser preso, mas não através de uma ação em que você prende o traficante e espalha os usuários pela cidade", disse à Agência Brasil.

Siga a VICE Brasil no Facebook , Twitter e Instagram.