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Existe uma indústria de cirurgia plástica para consertar lóbulos alargados

Na Austrália, ex-jovens da cena e fãs de Linkin Park em geral estão buscando formas de deixar mais discretos (ou remover completamente) os buracões deixados pelos alargadores de orelha.

por Julia Wright; Traduzido por Marina Schnoor
11 Abril 2016, 10:00am

O piercer Matt Day-Holloway diz que "nunca se arrependeu" de seus alargadores. Todas as fotos pela autora.

"Sai muito sangue?", pergunta Joel Sheffroth, inconsciente da hemorragia saindo de seu lóbulo da orelha, encharcando várias toalhas de papel dobradas, um cobertor protetor e formando uma poça embaixo do seu pescoço. "Parece que estou muito suado atrás da cabeça."

Sheffroth está tendo o lóbulo da orelha cortado com um bisturi para corrigir um problema comum entre pessoas que colocam alargador: um inchaço que força a carne da fístula num caroço estranho. O rapaz de 21 anos está surpreendentemente falante para alguém perdendo tanto sangue.

"Sou muito influenciado por música", ele diz. "Vi um clipe do Linkin Park e pensei: 'Da hora, dá pra ver do outro lado da orelha do cara, quero um desses'. Mas fui idiota e alarguei meu lóbulo muito rápido." Ele quer alargar ainda mais: por isso a operação para remover a cicatriz.

Enquanto o piercer Matt Day-Holloway corta pedaços da orelha de Sheffroth, ele explica o risco. "Esse é um procedimento permanente ou semipermanente", ele diz. Day-Holloway, também teve esse inchaço quando alargou seus lóbulos até o tamanho atual. "Cortei a pele no espelho. Sugiro que ninguém tente isso em casa."

Mesmo sendo uma prática antiga, os alargadores atingiram seu auge na moda no começo dos anos 2000, quando celebridades como Lil Wayne, Adam Lambert e os caras do Linkin Park e Incubus aderiram. Milhares de wannabes seguiram o exemplo, alargando as orelhas com pinos de inserção ou até furando a orelha de um jeito bastante radical. Apesar das reações negativas e do declínio da moda, uma caralhada de gente ainda faz isso — e muitos acabam ficando com lóbulos arrombados para o resto da vida. Diferente da maioria dos piercings, alargar os lóbulos é permanente. Indo além de 12,7 milímetros, você nunca mais precisa se preocupar onde colocar lápis, isqueiros ou latinhas de refrigerante de novo.

Há outras desvantagens: as joias são caras (de $30 por um par de alargadores baratos até $500 para implantes de metal de alta qualidade), caem fácil e é mole de perder. Alargadores pequenos com brincos delicados estão fora de questão, a menos que você invista em peças de design especial. Pior de tudo, lóbulos realmente alargados podem desenvolver um cheiro ruim se não forem limpos corretamente.

Além disso, como a cirurgiã plástica Dra. Julie Khanna aponta: "Você pode ter queloides que crescem além do buraco — um caroço que parece um tumor que temos que tratar com laser. Ele pode infeccionar e causar assimetria e até rasgar o lóbulo". Compreensivelmente, alguns ex-entusiastas de body modification hoje vivem na Terra do Arrependimento, usando alargadores cor da pele para fazer suas orelhas parecerem um pouco mais normais.

A ascensão e queda dos alargadores também criou um novo nicho de cirurgia plástica: voltar esse buracos enormes ao tamanho original, ou o mais perto possível disso. "Vemos isso cada vez mais", disse o Dr. Jeffrey Spiegel, um cirurgião plástico e professor da Escola de Medicina da Universidade de Boston, que já reparou dezenas de lóbulos alargados, alguns de até 50 milímetros.

"Idealmente", ele diz, "a pessoa precisa ter tirado o alargador há um tempo para que o buraco se contraia o máximo possível, aí discutimos o objetivo". Na maioria dos casos, é preciso fazer uma incisão para completar o rasgo no lóbulo. Aí o lóbulo é costurado novamente para restaurar um formato mais natural. Se há um dano muito significativo ou um rasgo completo (como o que aconteceu com Lil Wayne, por exemplo), o procedimento tem que ser feito com anestesia local.

Quem alargou só um pouco os lóbulos às vezes nem precisa de cirurgia, segundo a Dra. Khanna, uma cirurgiã plástica que atua no Canadá e EUA. "Para buracos de apenas alguns milímetros, podemos fazer tratamento com ácido — se a pele for boa e não houver muito tecido frouxo. Os buracos maiores não se esticam o suficiente para tentar isso."

Mas a coisa se complica com lóbulos "realmente alargados e finos", segundo a Dra. Khanna, que podem "perder muita massa. Nesses casos, primeiro temos que reparar o buraco, depois fazer injeções de gordura para recuperar alguma massa. Pode ser algo simples, mas podem ocorrer complicações".

"Sai muito sangue?", pergunta Joel Sheffroth, que está cortando parte do tecido para alargar ainda mais as orelhas.

Alguns que alargaram as orelhas podem pensar que não vão ter problema com a dor para consertá-las, mas fique avisado: "É um pouco mais dolorido do que alargar", diz a Dra. Khanna, que geralmente não prescreve remédios para o pós-operatório. Os pontos ficam por algumas semanas, deixando uma cicatriz que leva até um mês para sarar. Aí você tem que esperar "um mínimo de três a quatro meses para furar as orelhas de novo". Isso para brincos normais; para quem for realmente indeciso e decidir alargar as orelhas de novo, "o procedimento pode rasgar o lóbulo logo de cara", segundo o Dr. Spiegel.

E a orelha parece realmente normal depois de tudo? "Depende", ele diz. "Mas podemos deixar as cicatrizes muito bem escondidas." Depois que o corte se cura, uma pequena cicatriz em forma de U, da frente até atrás do lóbulo, geralmente é a única prova da sua juventude desperdiçada como um primitivo moderno.

Se você está atrás de um lóbulo novo, vale a pena pesquisar preços. Como esse é um procedimento cosmético, os planos de saúde geralmente não cobrem.

Apesar de Day-Holloway dizer que "nunca se arrependeu" de seus alargadores, ele vê as plásticas para reverter as modificações como "um efeito colateral necessário quando algo vira moda, e as pessoas o fazem sem pensar na realidade a longo prazo". Ele já viu pessoas com furos de até 76 milímetros.

Em alguns casos, ele acredita que é sua responsabilidade salvar os clientes deles mesmos. "Fazemos várias consultas antes desse tipo de trabalho. Não quero que ninguém tome uma decisão e se arrependa depois. Prefiro que a pessoa vá embora desapontada por não fazer algo, do que ver ela sair daqui com alguma coisa que vá se arrepender dali um ano."

Considerando a chatice que é alargar as orelhas, a maioria das pessoas que se submeteu ao procedimento não vê problemas em simplesmente viver com isso indefinidamente.

"Depois que você alarga até certo tamanho", diz Day-Halloway, "você se torna dedicado àquilo. Já aposentei vários piercings, mas meus lóbulos são o que mais gosto, e foi onde gastei mais dinheiro com joias".

"Fiquei tão acostumado com eles que, se tirasse, acho me sentiria irreconhecível."

O piercer Matt Day-Holloway corta tecidos cicatrizados.

Como a maioria das modificações corporais, parece que os alargadores chegaram para ficar — talvez não levados até os extremos dos primórdios da tendência.

"Parecia um concurso de mijo a distância, com todos os moleques querendo ter os maiores lóbulos possíveis", diz Day-Holloway. "Isso parece ter caído. Alargadores pequenos são a norma agora."

Uma guinada para a moderação faz sentido para o Dr. Spiegel. "Você sempre tem estéticas diferentes quando é jovem e depois que fica mais velho", ele diz, acrescentando que o exército americano não aceita recrutas com alargadores. "A pessoa alarga a orelha achando que é legal, mas aí encontra o homem ou a mulher dos sonhos e pensa: 'Não quero casar usando isso'. Ou querem arranjar um emprego num lugar mais conservador."

Mas Day-Holloway discorda. "Daqui 20 anos", ele diz, "vamos ver todos esses piercings como um furo de brinco na orelha. É normal."

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Tradução: Marina Schnoor

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