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A cemfreio veio pra sabotar seu raciocínio

Marca do artista Victor Apolinário estreia na temporada de inverno de 2017 da Casa dos Criadores.

por Marie Declercq
11 Novembro 2016, 9:00am

Foto: Pétala Lopes/Coletivo Amapoa/VICE

É difícil não fazer um trocadilho com o nome da marca de Victor Apolinário, artista, fotógrafo e estilista de 23 anos, com a velocidade com que seu nome ganhou destaque nos corredores da moda e da mídia. Com 10 meses de vida, a cemfreio realizará seu primeiro desfile na Casa dos Criadores nesta sexta-feira (11) e não parece dar indícios de descansar até conquistar todos os espaços possíveis.

Em uma manhã agradável de novembro no centro de São Paulo, tomamos um café com o Apolinário, que mexia sem parar nas tranças recém colocadas sobre seu cabelo descolorido. Na semana da entrevista, o estilista estava correndo para arrematar todos os detalhes do desfile na Casa dos Criadores. Foi difícil não se apaixonar pela pessoa que se apresentou na nossa frente, discutindo sobre moda, racismo e arte.

Foto: Pétala Lopes/Coletivo Amapoa/VICE

As origens da cemfreio vêm do luto, ou da negação do mesmo, como relata Apolinário. "Dois anos atrás perdi minha avó, que era como uma mãe para mim. Me vi completamente sozinho", relembra. "Foi como perder um dos meus bastiões. Ela sempre me deu a liberdade de executar tudo que eu queria. Com 14 anos eu já namorava boy. Imagina isso no meio da periferia da Zona Norte: uma senhora de 60 e poucos anos achar ok o neto dela namorar com o vizinho? Se não fosse por ela, eu não teria a estrutura mental que tenho hoje. Quando eu a perdi fiquei muito triste e entrei numa depressão pesada. Passei seis meses sem produzir nada. Sem falar com ninguém."

Foto: Pétala Lopes/Coletivo Amapoa/VICE

Para criar uma forma de se livrar da depressão e aproveitando uma grana que guardou de quando trabalhava como analista sênior do grupo Hering, Apolinário criou uma micro coleção de roupas chamada TRU em 2015. Deu certo de primeira. "Vendi oitenta peças logo de cara, fiquei muito surpreso". Em dezembro de 2015, o artista decidiu suspender os trabalhos da marca para analisar o que pretendia atingir com suas criações. "Lembrei da minha época de rolê de rua, de skate, e lembrei do Flip, amigo meu, falando 'essa bicha não para, essa bicha é sem freio' e foi aí que criei o que tenho agora. "Assim nasceu a cemfreio, logo no começo de 2016.

Acredito muito no trabalho do Apolinário. A marca vem revolucionando na estética, na proposta, no em conceito e no e posicionamento que é uma coisa tão fundamental, mas que ao mesmo é tão complicada na nossa sociedade. Estamos em um momento muito interessante onde pessoas de vários ramos têm se posicionado e isso é fundamental para que se leve a uma outra concepção do que tem que ser feito. E de uma maneira que nós todos estamos construindo. Então quando vejo a cemfreio saindo em lugares incríveis e as pessoas usando, me sinto parte disso também. Acho que o Apolinário se sente assim também em relação à minha música, e eu acho que é isso que pode fazer diferença. É a gente querer construir junto. — Tássia Reis, cantora

O timing foi cirúrgico. As discussões de gênero estão cada vez mais em alta na moda e na publicidade e poucas criações plausíveis existiam concretamente nas terras brasileiras. A cemfreio acabou caindo como uma luva ao oferecer roupas para todos os gêneros sem parecer caricata. Tanto é que assim que o artista divulgou a venda, rapidamente era possível ver pelo menos uma peça da marca em qualquer rolê do circuito noturno paulistano, vestindo do mais fashionista ao mais normcore. Os moletons com inscrições tiradas de logos de bandas de black metal e também mensagens como "passivo agressivo" e "visualizada" estampadas nas peças causam um reconhecimento imediato com a criação do estilista, é quase como achar seu espírito animal da internet.

Foto: Pétala Lopes/Coletivo Amapoa/VICE

O fato de as roupas também serem confortáveis, fugindo daquele aspecto meio pastoso que muitas marcas acabam assumindo quando querem brincar com a moda "sem gênero", atrai mais ainda os olhares. Apolinário trabalha com tecidos 100% de algodão e tenta ao máximo se livrar das costuras para se aproximar mais de um trabalho de dobradura que, segundo ele, é fruto de suas várias pesquisas sobre a indumentária de matriz africana, como os sarongs.

Para o desfile da Casa dos Criadores, Apolinário terá o colorismo como tema central, discutindo a discriminação de acordo com a pigmentação mais escura da pele. "É o caso do pardo, por exemplo. Que é preto. Só que muitas vezes o acesso de uma pessoa pode variar se ela tiver uma pele muito mais escura do que uma outra mana com uma tonalidade negra mais clara." Para isso, o estilista escolheu minuciosamente um casting de modelos que preencha as várias tonalidades da pele negra.

Pra mim, mano, o que a cemfreio representa é o que o Expensive $hit representa pra mim. É nós denegrindo, chegando com os dois pés na porta. É predominantemente pretos no topo, é protagonizar tudo. — Tasha Okereke

O desfile promete causar o mesmo impacto do que vimos mês passado com a coleção do Laboratório Fantasma em parceria com o João Pimenta no SPFW. A rapper Lay foi escolhida por Apolinário para se apresentar no evento. "Ela é tipo minha Victoria Secret's", brinca. "A Lay é a amálgama dessa referência do corpo feminino livre de todos os parâmetros atrelados aos nossos históricos culturais de feminilidade e também onde o corpo da mulher negra está inserido. Esse descolamento é que se aproxima tanto de mim e da cemfreio."

LEIA: A Lay comenta o histórico desfile da LAB no SPFW

Foto: Pétala Lopes/Coletivo Amapoa/VICE

A proposta da marca de vestir todos os corpos também sustenta a intenção de Apolinário em querer tirar a glamourização do universo da moda — que já está fazendo hora. "O mercado de moda vai ser branco e elitizado porque o povo quer pagar R$ 400 pra um jornalista de moda. O que você faz com R$ 400? O que você faz com os 50 conto que você quer pagar pra um produtor de moda?", questiona. "Por isso que eu vou falar sim de loja que pegou peça emprestada e não devolveu, de marca que me deu calote. Dois mil reais pode ser uma bolsa a menos para essas pessoas, mas pra mim é vivência. É meu aluguel. É meu ônibus."

A cemfreio é liberdade e luta, mas sem esquecer do fervo porque nóis também rebola, né bb? Sempre na vanguarda, a Apolinário traz um jeito novo de ver os pretos e o gênero, questionando tudo e abrindo os horizontes, misturando o mais fuleiro da rua com o mais alto da arte (ou seria o contrário?), anjos e demônios mesmo. A gente veio para causar, e é muito bom poder contar com essa ótima companhia. — Lay, rapper

E foi com o pé na porta que a cemfreio foi hackeando a moda. Lançou sua primeira coleção na loja moderninha Cartel 011 em São Paulo e apareceu em quase todas as publicações tradicionais de moda, trazendo discussões (desconfortáveis para muita gente) sempre presentes na vida de Apolinário: a discussão racial, o machismo e a identidade de gênero. "Minha marca aborda muitas dessas frentes porque sou eu. Hoje tenho um produto que diz tudo que sempre dizia quando fazia outros projetos", explica.

Foto: Pétala Lopes/Coletivo Amapoa/VICE

Homem gay, negro e criado na periferia da Zona Norte paulistana, Apolinário sabe exatamente o apelo que emana de suas criações e de sua própria pessoa. Em tempos de textões "militantes" nas redes sociais e a apropriação publicitária sobre minorias, o estilista busca se aproveitar o máximo dessa atenção oportuna para inserir mais pretos em espaços que são tradicionalmente fechados para eles. A intenção não é inventar a roda, como ele diz, é mostrar que todo mundo também pode ter espaço para a criatividade. E não só ele.

A cemfreio representa o que toda marca deveria ser: desconstruída e consciente em relação ao gênero e até consciente na questão de passar informação para as pessoas como o Apolinário faz. A cemfreio é o futuro. — Tracie Okereke

"Estou aproveitando esse espaço de mídia para hackear e falar mesmo do jeito que quero. E eu quero que minhas manas pretas também tenham esse espaço na discussão", afirma Apolinário. "Eu foco no humano. É pagar bem a costureira, as pessoas que trampam comigo. O produto já está entendido, as pessoas já sacaram. Agora eu quero trazer mais perto é o respeito do trabalho pro próximo, a divisão de inteligência. Não sou a próxima Coco Chanel, só quero reestabelecer novos mecanismos de consumo e dizer que todo mundo pode criar."

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