Foto: Klaus Mitteldorf

Surf 70, Playboy e Racionais MC’s: uma entrevista com Klaus Mitteldorf

Depois de clicar Tati Zaqui nua, o premiado fotógrafo planeja um livro sobre os Racionais, um filme de ficção e um doc sobre as toneladas de maconha encontradas no mar do RJ nos anos 80.

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fev 26 2016, 3:00pm

Foto: Klaus Mitteldorf

Filho de um alemão e uma paraibana, o paulistano Klaus Mitteldorf era ainda criança quando manuseou sua primeira máquina fotográfica. Durante a faculdade de arquitetura, em 1974, se deparou com amigos surfistas e começou a fotografá-los. No ano seguinte, ele lançou Terral, o primeiro filme brasileiro sobre surf em que moleques de cabelos compridos e parafinados navegavam entre ondas em cima de suas pranchas. Documentar o esporte, pouco conhecido à época, serviu como porta de entrada para fazer com que Klaus abandonasse a arquitetura e se dedicasse ao fotojornalismo, à moda e à publicidade. E, assim, surgiu um dos mais premiados fotógrafos do Brasil - que, inclusive, ficou em primeiro lugar no Festival Internacional de Fotografia de Higashikawa, no Japão, em 2008.

Guarnecido por 10 livros lançados, mais de 20 capas para a Playboy brasileira (a última foi da Tati Zaqui) e alemã, editoriais de moda, peças publicitárias e outros incontáveis trabalhos, o currículo de Klaus volta para o começo: o cinema. Atualmente, ele comanda dois projetos cinematográficos. A ficção Rio-Santos, que conta a história de uma nadadora em busca do pai, e Cans on the Beach, sobre o infame "verão da lata", quando 22 toneladas de maconha foram encontradas boiando no mar de Maricá, Rio de Janeiro, nos anos 80.

Canto da Itamambuca, Ubatuba, litoral norte de São Paulo. 1975. Foto: Klaus Mitteldorf

Os projetos não param por aí. Documentando os Racionais MC's há 25 anos, Klaus pretende lançar em breve um livro com fotos e letras mostrando a trajetória da banda, de quem diz ser amigo.

De calça jeans, camiseta e boné, o fotógrafo recebeu a VICE em seu escritório na zona oeste da cidade de São Paulo para um papo sobre sua carreira. Leia os melhores trechos da entrevista abaixo.

O fotógrafo Klaus Mitteldorf em seu escritório. Foto: Felipe Larozza/ VICE

VICE: Quem chegou primeiro: a fotografia ou o surf?
Klaus Mitteldorf: Fotografia é algo que eu faço desde os 12 anos de idade. Mas eu não sabia o que fazer com essas fotos e o que elas significavam pra mim. Quando fiz 18 anos, fui estudar na Europa e comecei a fazer uns ensaios, mas sem achar que isso podia ter algum valor. Eu não achava aquilo bonito, eu achava aquilo estranho. E aí, em 1974, entrei na faculdade de arquitetura em Mogi, na Braz Cubas. Por acaso, tinha um monte de surfista na minha classe. O primeiro convite que recebi pra ir pra praia com eles, eu fui.

Campeonato Brasileiro de Surf em Itamambuca, Ubatuba, litoral norte de São Paulo. 1975. Foto: Klaus Mitteldorf

E como foi se deparar com o surf, que era um esporte pouco difundido no Brasil naquela época?
Eu não conhecia o surf direito. Quando cheguei à praia e vi o que era... foi uma coisa muito mágica. De repente, achei que eu tinha de documentar aquilo. E comecei a fazer isso de todas as maneiras. Não só o surf em si, mas toda a cultura de praia, as pessoas, que eram superlegais.

Como você partiu disso para o Terral?
Em 75, um amigo tinha ganhado uma câmera super 8, uma Canon, que era simples, mas super legal. Ele falou: "Pô, por que você não faz um filme de surf?". Aí, em meio ano, conseguimos filmar muita coisa. Era um filme de uma hora e meia que tinha só uma trilha sonora. Fez tanto sucesso que fomos convidados a passar o filme em um monte de lugar. E foi uma coisa toda feita em casa. Eu mesmo montei o filme, sozinho. Mas foi um documento que ficou pra história. Essas filmagens ficaram tão marcantes que vou remontar esse filme agora. A ideia é essa. Já reentrevistei várias pessoas.

Em quais praias você gravou na época?
Muita coisa em Ubatuba e no Guarujá, em São Paulo. Também em Imbituba, no Espírito Santo, no Rio de Janeiro. Era o começo. Era uma galera que fugia da cidade grande revoltada com a situação do país. Esse pessoal fugia pra praia. Era o nicho perfeito pra você se esconder e poder ficar livre. E, com o surf, temos muitos movimentos de todas as naturezas. De moda, filosóficas, de literatura, de fotografia, cinema. Muita coisa surgiu em função dessas pessoas que criaram esses nichos. Isso foi muito importante.

Foto: Klaus Mitteldorf

Quem era essa meninada? Qual era o perfil deles?
As classes eram bem variadas. Se bem que o surf começou numa classe um pouco mais elitizada porque as primeiras pranchas foram trazidas pelos caras que tinham dinheiro. Aí o pessoal começou a fazer prancha. Mas acho que a classe média alta e a classe alta que começaram a desenvolver o surf mesmo. Ele foi mais popularizado depois, na década de 80 e 90. Mas, naquela época, pra você pegar onda, você tinha de ir pra praia, ter dinheiro, se locomover. E não era tão fácil assim. Era barato, mas não era tão visível pra todo mundo. Só conhecia o surf quem conhecia as revistas, as informações sobre o surf. Era, basicamente, uma galera que estudava, classe média pra cima.

E rolava muita droga?
Logicamente, rolavam todas as drogas na praia. Era a grande experiência das drogas. Tudo se experimentava. Não só isso, mas em todos os campos de arte, de música. Se fazia muita arte na praia. Tudo começou meio underground. Cada praia tinha seu nicho, sua turma, sua gangue. Tinha muita disputa entre essas gangues também. E, assim, quem era realmente adepto ao surf descia todo fim de semana pra praia. Todo fim de semana a gente se encontrava lá. Levantava às seis da manhã e ia surfar. Surfista leva muito a sério o que faz.

Praia Vermelha, Ubatuba (SP). 1975. Foto: Klaus Mitteldorf

Você surfava?
Também. Comecei a surfar nessa época, mas surfava pouco.

E como você foi do trabalho documental para a moda?
Comecei a fazer fotos de moda por mim mesmo. Fiz umas exposições que foram vistas por revistas, e as revistas me chamaram pra fazer. Fiz minha primeira Vogue em 1982, com a Regina Guerreiro. Ela me chamou. Depois que a Brasil Surf acabou, fui trabalhar pra revista Pop, que era tipo a Capricho da época, só que muito mais aberta e abrangente. Era uma revista pra jovens que tinha todo tipo de matéria que você pode imaginar. Mesmo entrando como fotógrafo de surf, comecei a querer fazer outras coisas, principalmente na moda. Esse contato com a Pop fez com que eu fosse rapidamente escalando. Fiz muito fotojornalismo também. Fui pra Veja, fazia arquitetura pra Casa Vogue. E, por causa disso, parei na Vogue.

Entendi.
E, quando você faz moda, a publicidade te vê rapidinho. Acho que foi um caminho automático. E, pra sobreviver num mercado como o brasileiro, você precisa ganhar dinheiro. Um lugar que paga alguma coisa é a publicidade. Me dei superbem. Conheci pessoas muito boas. Fiz muito trabalho pra DPZ, Almap, agências grandes. Acabei ganhando bastante prêmio, divulgação.

Free skate na Rio-Santos. 1976. Foto: Klaus Mitteldorf

Tentei listar os seus prêmios, e são muitos. Fui compilando desde os anos 80 até 2002. Como é ser premiado pelo seu trabalho?
É uma coisa muito boa. Acho que o prêmio que mais me satisfez foi o prêmio que eu ganhei no Japão, em 2008. Mas o que mais gosto de fazer é expor pra muitas pessoas em museus. E é legal, porque minhas obras estão hoje em dia nos acervos. Tem acervo meu na Pinacoteca, no MAM, no Masp, no museu da Faap. E, lá, as obras estão guardadas pra sempre.

Quantos anos de carreira você já tem?
Difícil calcular. Desde 1975... quanto dá?

Não sei fazer conta... sou jornalista.
[risos]

Quarenta anos...
Então. E, hoje em dia, eu parei de fazer publicidade. Faço moda de vez em quando, faço Playboys. Fiz a da Tati Zaqui agora. Gosto muito de fazer editorial porque é uma coisa que dá muito prazer.

A funkeira Tati Zaqui. Foto: Klaus Mitteldorf

Como foi fazer o ensaio da Tati Zaqui para a Playboy?
Uma delícia. Ela é uma pessoa maravilhosa. Eu gosto de desafios. Ela faz exatamente o perfil da mulher que eu gosto de fotografar: ela é pequena, bonita. Não gosto de pessoas que sejam exageradas. Eu gosto de transformar as pessoas, e ela tem um corpo equilibrado. É fácil transformá-la em alguma coisa a mais. É a tal da magra falsa. Então, você faz com ela o que quiser. Ela é muito teatral, muito fácil. Fluiu superbem. Isso tudo embaixo de chuva, tempo nublado. As fotos foram numa fazenda perto de Santa Branca.

E estava chovendo?
Em um dos dias estava chovendo.

A funkeira Tati Zaqui na Playboy. Foto: Klaus Mitteldorf

Foram quantos dias de foto?
Dois dias. Foi um trabalho muito satisfatório. Fazia muito tempo que eu não fazia Playboy porque estava cansado. Gosto de fazer uma fotografia mais de vanguarda, mais experimental, com um pouco mais de criatividade. Acho que conseguimos fazer isso. Mas, nos últimos anos, a Playboy não me dava essa abertura.

Você fez várias Playboys. Tem alguma de que você gosta bastante?
Tem muitas. Fiz muitas na Alemanha e muitas no Brasil. Desde 1988. Então, fiz muitas Playboys legais. Vera Zimmerman, por exemplo.

Racionais MC's. 2002. Foto: Klaus Mitteldorf

Queria falar sobre a sua relação com os Racionais.
Trabalhar com os Racionais é trabalhar com o mundo. Eles têm milhares de amigos, milhares de turmas, de pessoas que fazem parte dessa família. É uma grande família. É uma família violenta, uma família cheia de rusgas, muito machista. Mulheres não têm muita vez. E é difícil, mas adoro desafios. Esse foi um dos desafios mais legais da minha vida. Conheci a fundo a periferia de São Paulo, o Capão [Redondo]. Aprendi a conviver com armas, com um monte de coisa aí. Eles gostam muito de mim. Temos uma amizade tão grande... estamos sempre juntos. No ano passado, fiz fotos de divulgação pra eles.

E você tem algum plano pro futuro com os Racionais?
Estamos planejando fazer um livro. Espero que ele saia uma hora, porque temos uma convivência de 25 anos. É muito tempo. Gosto muito deles. Eles são muito fortes. Acho que o que fizeram foi muito corajoso.

Imagem utilizada na capa do disco Nada Como um Dia Após Outro Dia (2002), dos Racionais MC's. Foto: Klaus Mitteldorf

O que vai ter no livro?
Tenho toda a vida deles documentada. Tem de tudo. É um livro que vai juntar as letras de músicas com as fotos da vida deles. E são muitas fotos. O problema é que, quando você tem quatro pessoas no grupo, mais os agregados todos, pra você aprovar alguma coisa é muito complicado. Tem mulher, tem ex-mulher, tem empresário. É cada vez mais difícil.

Você tem dois projetos de filme. Vamos falar primeiro sobre o Rio-Santos.
É uma ficção que escrevi em 2008, e começamos a produzir em 2010. Agora vamos filmar. É um filme autoral, uma história muito bonita sobre uma menina que é nadadora, descobre quem é seu pai e vai nadando à procura dele.

Foto que foi utilizada na capa do livro Norami (1989), de Klaus Mitteldorf. Foto: Klaus Mitteldorf

Li uma frase tua dizendo que sempre fez fotografia pra algum dia poder fazer cinema.
Isso. Eu sempre quis ser um bom fotógrafo pra poder fazer cinema. Demorou 36 anos [risos]. Nos anos 90, eu comecei a pensar em fazer esses filmes e não consegui. E aí, em 2008, quando comecei a escrever a história, eu tinha certeza [de] que iria fazer.

E qual é o segundo filme?
É a história do "verão da lata", só que não a versão que todo mundo conhece. É o outro lado da história contado por pessoas que fizeram isso, que jogaram as latas no mar, que fizeram tráfico. É a historia dos traficantes. Eu fechei com eles um contrato. Esse filme devia sair até 2017, mas acho que não vai dar. Talvez em 2019. Chama Cans on the Beach provisoriamente.

1984. Foto: Klaus Mitteldorf

E você achou alguma lata, Klaus?
Eu vi muitas, mas não achei nenhuma. Mas eu fumei algumas também... e era muito bom. Mas esse fumo era meio estragado. Tinha muita água do mar. Uns falavam que era skank, mas era tudo maconha das montanhas da Tailândia. O problema é que, com o contato com o mar, aquilo acabou ficando com outras texturas, outros cheiros e gostos. Foi estragando. Então, cada um pegou um tipo de maconha diferente ali. Entendeu? Tem lata que abriu, tem lata que ficou fechada, tem lata que ficou boiando. Eu sequei muito em cima dos telhados de casa lá no sul do Brasil.

Outros planos?
Débora, quem faz dois longas não pode pensar em muita coisa. Agora, a dedicação é pra eles. Inclusive, quero remontar o Terral. Não dá tempo. É uma loucura. Você leva cinco anos pra escrever, roteirizar, vender, inscrever na Ancine, ter dinheiro, produzir, juntar todo mundo. Já adiamos o filme duas vezes porque o horário das pessoas não casava.

Não é um filme tão comercial. É um filme mais de arte, mesmo tendo atores de primeira porque a gente quer ganhar prêmio com esse filme. Não tenho nenhum vínculo com a Globo ou com nada que obrigue a seguir certos padrões. Então, sou muito livre. É pra ser um filme bom.

Você vai participar como diretor de fotografia?
Não, eu sou só o diretor.

Astúrias, Guarujá (SP). 1977. Foto: Klaus Mitteldorf

Você é uma pessoa fácil de trabalhar?
Acho que sim. É importante passar pras pessoas o que você quer. Não sou tão fácil, não. Mas acho que sei transmitir bem o que quero. Na fotografia, você também tem de dirigir. Equipe, produtores, moda, acessórios, locações, cabeleireiro. Estou muito acostumado a fazer isso.

A publicidade me ajudou muito. Não só me deu lugar como me ajudou a sustentar tudo isso que eu fiz. Com o dinheiro da publicidade, eu fiz muitos trabalhos pessoais. Investi meu dinheiro na minha própria arte. Lancei 10 livros. Alguns também foram pagos por editores, mas muitas vezes tive de botar dinheiro também. E você conseguir lucro pra bancar aquilo que você gosta é muito bom.

Veja mais trabalhos do Klaus Mitteldorf no site dele.

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