Meu Rolezinho no Rolezinho

No último sábado, o diretor de videoclipes Toddy Ivon encostou em um rolezinho para tentar entender por que jovens da periferia estão sendo expulsos de shoppings na base da força.

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15 Janeiro 2014, 6:50pm

O Toddy Ivon é diretor de videoclipes e você certamente já viu o trampo dele. Com mais de três dezenas de milhões de visualizações (é isso mesmo) de seus trabalhos, ele já dirigiu clipes para os 3 Temores, HaikaissKarol Conka e ConeCrew Diretoria, entre muitos outros. Além disso, ele é ativista da questão racial e colou no rolezinho do shopping Campo Limpo. A seguir, ele conta pra gente o que viu por lá.

Sábado passado foi certamente um dos dias mais tristes de minha vida. Fiquei sabendo do rolezinho no Shopping Campo Limpo por conta do helicóptero que sobrevoava minha casa, na região sul de São Paulo. Eu me interessei pelo assunto há dois meses quando meu amigo Preto Zezé me contou sobre um mesmo ato que aconteceu em sua cidade, Fortaleza.

Corri para o shopping para tentar entender o que estava acontecendo. Logo na rua, vi um grupo de adolescentes que tinha sido expulso do shopping correndo de uma viatura policial. Chegando ao shopping, identifiquei viaturas do GOE e da Tático. Vários policiais empunhavam fuzis e metralhadoras como se algo gravíssimo tivesse acabado de acontecer. Eles estavam ali para expulsar os adolescentes do shopping.

Segui para a escada que dá acesso ao shopping, onde o chefe da segurança do shopping estava e expulsava as crianças como se elas fossem cachorros vira-latas (nada contra animais) e lixo. Fiquei observando o procedimento adotado pelos seguranças e policiais. Só estavam deixando entrar famílias e casais maiores de idade. Os negros tinham suas bolsas e calças revistados — famílias inteiras de negros eram revistadas. A entrada de adolescentes brancos desacompanhados de maiores era liberada. Os adolescentes eram barrados e expulsos do shopping.

A maioria dos adolescentes expulsos mora nas imediações da minha casa: Parque Arariba, Piracuama, Jardim Rosana, Ingá, Campo de Fora, Morro do Saci, Jardim São Luiz, Capão Redondo, Imbé e Jardim Ypê.

Ainda não sei sobre a legitimidade desses movimentos, mas acredito que estejam relacionados com o exercício do direito de ir e vir diante de um ambiente sem lazer e infraestrutura para os jovens da periferia do Brasil. Quem imaginaria que a vitória do sistema seria dar condições para movimentos gigantes como esse que assombram os regentes do próprio sistema?

Vendo toda aquela situação pensei muito na minha filha e nos pais desses adolescentes. Impossível não me colocar no lugar desses pais e sentir uma mistura de humilhação e ódio. O que eu vi foi que eles não querem o nosso dinheiro preto, eles querem distância de nós.

Quantas lojas foram roubadas? Quem foi agredido? Pelo que pesquisei, foram 15 mil jovens só nos rolezinhos de sábado. Tivemos ao menos 10% desse número de infrações? Para mim, o que esses jovens vêm tentando roubar é o direito de estar nos mesmo lugares que a elite está, porque só assim, na base da força, ele serão enxergados.

O que eu vi no sábado foi o desrespeito à Constituição do país, o não cumprimento do Estatuto da Criança e do Adolescente. Juízes e policiais agindo contra a lei e o Ministério Público. De onde nós esperávamos alguma resposta veio um silencio covarde.

Os rolezinhos vêm acontecendo em shoppings que ficam nas regiões periféricas da cidade. Os jovens não foram para a Oscar Freire. Os shoppings que se estabelecem nas entradas de complexos de favelas esperam que o público dos Jardins e Vila Nova Conceição os visitem?

Ironicamente, isso tudo acontece logo após o momento em que o mundo sofreu o luto da morte do líder africano Nelson Mandela. Os jovens da periferia deveriam se inspirar nos ensinamentos de Mandela, que dizia que devemos usar nossa linguagem para chegar nos corações das pessoas e não só na cabeça; que não devemos temer, devemos vencer! Que os moleques de periferia são os verdadeiros líderes de suas próprias vidas; não devem abaixar a cabeça para os playboys, mas procurar viver como irmãos. E que, independente do que acontecer de ruim no processo de evolução desses adolescentes, que no final eles perdoem, mas que também nunca se esqueçam.

Eu espero que toda essa situação nos faça cidadãos melhores, assim como eu e o Pato no final do século passado esperávamos que fosse este novo século.

Explico melhor: em 1998, eu e o Pato, um dos meus melhores amigos, estávamos conversando sobre o que a gente esperava do século XXI. Naquele momento, estavam começando os rumores sobre o possível grande Bug do Milênio. Achávamos que no futuro teríamos carros voando, uma internet mais avançada, um mundo melhor para nós que éramos nerds naquela época (e naquela época ser nerd não era algo tão legal como é hoje) ainda mais pelo fato de nós dois sermos os típicos jovens filhos de mãe solteira, moradores de casas de dois cômodos de periferia. Naquela época, o mais próximo que  tínhamos do que se chama rede social hoje era uma rede chamada IRC e uma comunidade de sites chamada Geocities. Eu e o Pato acreditávamos, de alguma forma, que os avanços tecnológicos iriam fazer do mundo um lugar melhor. Erro nosso! O que eu vejo é que o Bug do Milênio de certa forma aconteceu, sim ele vem acontecendo nesses primeiros 15 anos do novo século, só que eu esperava que o BUG acontecesse com os computadores, não na sociedade, que insiste regredir.

Não imaginava que no século seguinte um encontro pacífico marcado virtualmente terminaria em espancamento de adolescentes por policiais. Que o comércio receberia tão mal possíveis clientes. Que um shopping jogaria seu nome na lata do lixo publicamente por conta de um método de seleção por meio de cor e etnia para circular em seus estabelecimentos. E que a opinião publica iria aceitar que a culpa de um problema maior fosse colada em adolescentes.

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