Por que Não Vou Celebrar o Dia dos Pais

Não faço isso há quase dez anos.

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ago 7 2015, 4:30pm

Ilustração Juliana Lucato.

No dia, provavelmente, vou dar um beijo na minha mãe, tomar uma cerveja ou curtir o domingo com a minha namorada. Acontece que tenho um pai. Ele não está morto e sei onde ele mora, sei o seu telefone, sei até o que ele está fazendo neste exato momento. Só que decidi não ter mais pai nenhum na minha vida, só a minha mãe. E talvez isso tenha sido uma das melhores decisões da minha existência.

Que fique bem claro: não me orgulho disso. Já superei a fase de culpar meu pai por todos os meus problemas e de eu ser uma má pessoa. "Você é mau que nem seu pai", uma vez minha mãe me disse em uma briga quando eu era adolescente. Isso me fez perceber que, enquanto o espectro sinistro dele estivesse presente na minha vida, eu não seria uma pessoa feliz. Eu seria amargurado ou provavelmente estaria internado.

Preciso ficar o mais longe possível do meu pai para sobreviver.

Menti quando disse lá em cima que meu pai não é culpado pelos meus problemas. Na verdade, ele é culpado pelo maior deles. Uma dívida bem grande que está no meu nome, com CPF e tudo que tem direito. Uma dívida que daria para bancar um carro ou dar entrada em um apartamento. Essa dívida é do meu pai, mas quem vai responder por ela sou eu.

Quando recebi a notícia de que estava devendo essa indecente montanha de dinheiro que vai além de tudo que já ganhei nessa vida (ganho pouco), tive a confirmação de que ele não cumpriu a única promessa que tinha comigo: pagar a minha educação, enquanto eu me virava com o resto.

Eu já não falava com ele há um bom tempo. Meu amor por ele foi perdido quando eu tinha 15 anos e as relações foram cortadas quando completei 23. Nossa última discussão foi horrível – dos dois lados. Meu pai me chamou de "escroto", "vergonha", "decepção", e eu o chamei de "ladrão" e "estelionatário". Não gosto de rememorar isso, mas provavelmente meu pai nem se lembra disso. Ele é capaz de te dizer as coisas mais cruéis do mundo, te ameaçar e te humilhar, porém te obriga, depois de cinco minutos, a aceitar que ele te dê um abraço e diga que te ama. Isso é uma das coisas que mais odeio nele.

Ele não foi sempre assim. Meu pai era uma pessoa que trabalhou o máximo para me dar o melhor. Estudei em boas escolas, viajei para a Disney mais vezes do que uma criança normal viajaria e toda noite eu tinha o privilégio de ouvi-lo contar sobre as histórias da nossa família que atuou na Resistência Francesa durante a Segunda Guerra Mundial ou aprender sobre a mitologia grega antes de dormir.

Ele me ensinava muitas coisas sobre política (embora ele seja um conservador convicto, o que explica o fato de eu ser o oposto) e sobre como eu poderia ser o que quisesse na vida. Suas expectativas eram tão altas que até na minha formatura do Ensino Superior ouvi dele que havia jogado minha vida no lixo. Nada estava bom para meu pai, inclusive minhas escolhas profissionais. Ele queria que eu trouxesse o mundo para ele – eu só queria ter uma casa legal e talvez um cachorro bonitinho.

O que aconteceu foi que, quando meu pai perdeu todo o dinheiro dele, foram embora os resquícios das virtudes que ele carregava. Ele era um homem pobre, com filhos, um divórcio nas costas e muitos problemas na justiça. E, assim, ele se tornou seus problemas financeiros e também um homem sem bondade.

Além de suas frustrações quanto às minhas escolhas profissionais, vi que não o agradava como um ser humano. Eu não era bonito o suficiente porque estava acima do peso. Eu não era inteligente porque não conseguia passar em uma faculdade pública. Mais de uma vez ouvi meu pai me descrevendo como "uma vergonha" quando chegava em casa com uma nota baixa.

Quando entrei em depressão com 15 anos, época em que morava com ele, ouvi dele que a depressão era uma mentira. Nesse dia, perdi o que restava de amor pelo meu pai e o vi como um homem hipócrita, perturbado e destruidor. Desisti do meu pai e deixei claro que nossa relação seria puramente financeira até finalizar meus estudos e conseguir me bancar.

Até quando recebi a correspondência com o valor da dívida.

Gostaria de descrever a sensação que foi descobrir essa dívida, mas é impossível. Predominantemente, era um misto de ódio e tristeza. Não por mim, mas por ter visto meu pai chegar até o fundo do poço. Talvez realmente seja culpado por não o ter entendido, tampouco suas loucuras e complexidades. Ele é um homem solitário, preso em uma rede de mentiras contadas por ele mesmo, filho de um homem que nunca quis ser pai.

A dívida chegou até mim depois de eu começar a me bancar e montar uma vida. Não tenho escolha e talvez nem devesse estar reclamando disso, já que poucas pessoas tiveram o privilégio que tive de fazer uma boa faculdade particular, trabalhar em bons lugares e usar boas roupas compradas com meu próprio dinheiro.

"Seu pai era um homem bom," afirmou minha mãe quando eu tinha sete anos e estava passando pelo doloroso e conturbado processo de divórcio. Ela dizia isso quase todos os dias para mim numa tentativa de não me fazer odiá-lo. Anos depois, descobri que essa fala da minha mãe era mais para ela justificar seu relacionamento constantemente violado pelas infidelidades do meu pai.

Passei muitos anos me consultando com um psicólogo, mas raramente conseguia falar sobre meu pai. De certa forma, sinto como se tivesse o abandonado na sua própria tristeza. No entanto, acredito que ter cortado relações com ele foi a decisão mais madura que tomei na minha vida.

Eu vou pagar essa dívida. Talvez ele perceba o que fez e venha atrás de mim para me ajudar. Mas, no final, não importa. Talvez a crueldade do meu pai tenha servido para saber encarar o mundo que existe fora de casa, do conforto que tive quando era criança.

"Não dependa de ninguém, filho. Seja seu próprio dono e faça tudo sozinho", ele me disse em uma de suas leituras noturnas quando eu era criança.

Ele estava certo.

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