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Entretenimento

É uma Boa Doar Dinheiro pro Kony 2012?

Kony 2012 é um filme produzido pela organização Invisible Children, que tenta sensibilizar as pessoas sobre os soldados-mirins de Uganda.

por Alex Miller
07 Março 2012, 5:30pm

Hoje você provavelmente esbarrou num negócio chamado Kony 2012 na internet. Então, Kony 2012 é um filme produzido pela organização Invisible Children, que tenta sensibilizar as pessoas sobre os soldados-mirins de Uganda. Desde que foi lançado no YouTube no dia 5 de março, ele já foi visto milhões de vezes. Assista aqui:

E isso é bom, né? Joseph Kony e seu Exército da Resistência do Senhor sequestram crianças para transformá-las em assassinos. Eles têm feito isso por anos e é bom que alguém esteja tentando levantar o perfil de Kony para que os políticos norte-americanos sejam forçados a fazer alguma coisa para acabar com essa tragédia, certo?

Bom, é mais complexo que isso. Você deve ter notado que quando QUALQUER coisa acontece na internet, sempre vai ter alguém pra tentar estragar tudo. Claro, geralmente o que essas pessoas fazem é tentar acabar com minazinhas indefesas chamando elas de vagabundas, mas de vez em quando elas tentam foder com alguma coisa que realmente merece, como a SOPA. Basicamente, se tem uma coisa que os humanos curtem, vai ter um bando de outros humanos que odeiam.

Então, como já era de se imaginar, algumas pessoas estão metendo o pau no Kony 2012. Tenho certeza de que aqueles que estão por trás do filme e da organização vão simplesmente passar por cima dessas críticas com algum tipo de cinismo. Claro, quando uma coisa é tão importante que até a Rihanna tuíta sobre o assunto, tem gente que vai suspeitar, ter ciúmes e tentar estragar tudo. Tem sempre quem gosta de contrariar, né?

Dito isso, aqui estão algumas das principais críticas sobre o Invisible Children e o Kony 2012.

Crítica #1: A Invisible Children é uma organização financeiramente questionável.

Essas imagens têm circulado por aí.

É impossível entender tudo sobre os motivos da Invisible Children analisando apenas essas imagens. Oitenta e nove mil dólares é um puta salário, mas isso importa? Suas despesas serem elevadas em comparação ao faturamento não é surpresa. O manifesto Kony 2012 foi feito para sensibilizar as pessoas. Quem está doando dinheiro faz isso para divulgar a situação em Uganda, e, da noite pro dia, graças ao filme no YouTube, milhões de pessoas ficaram sabendo disso. Foi um sucesso então.

Crítica #2: A Invisible Children não é financeiramente responsável.

De acordo com algumas pessoas na internet, o Invisible Children se recusa a cooperar com a Better Business Bureau — uma organização que investiga a natureza ética das companhias.

Já de acordo com o Charity Navigator (um site que só fui conhecer hoje), a Invisible Children é bastante transparente.

Crítica #3: A Invisible Children está mentindo.

De acordo com um artigo publicado pelo Conselho de Relações Internacionais:

Em suas campanhas, tais organizações [como a Invisible Children] manipulam fatos para propósitos estratégicos, exagerando a escala de sequestros e assassinatos pelo ERS, enfatizando o uso pelo ERS de crianças como soldados, e retratando Kony — um homem brutal, com certeza — como uma horrível personificação do mal.

Crítica #4: A Invisible Children quer encher Uganda de armas.

OK... Aqui está uma foto de Jason Russell, Bobby Bailey e Laren Poole, os cineastas que fundaram a Invisible Children e que fizeram o Kony 2012.


Cineastas da Invisible Children posando com oficiais do Exército de Libertação do Povo do Sudão na fronteira do Congo com o Sudão durantes as negociações de paz entre a LRA e o governo de Uganda, abril, 2008. Foto por Glenna Gordon.

Que ideia de jerico, hein, gente. Quer dizer, não me interpretem mal, se a VICE me mandar para algum lugar do Congo, a primeira coisa que vou fazer é postar uma foto minha segurando uma arma no Facebook. Mas isso não significa que estarei fazendo lobby para que o Exército de Libertação do Povo do Sudão (que pelo que me disseram tem sido acusado de estupros e saques) seja armado pelos Estados Unidos.

Não sou um especialista, mas essa história de armar um grupo de caras para que eles matem outro grupo de caras num país distante não é sempre uma péssima ideia? Isso aí não leva à limpeza étnica, extremismo, vingança, conflitos tribais e miséria geral? Talvez não, mas como eu disse, não sou especialista.

Crítica #5: A Invisible Children é composta por um bando de babacas.

Quando eu assisti o Kony 2012 pela primeira vez, senti uma pontada terrível e finalmente compreendi como sou superficial. Achei impossível ignorar completamente como o vídeo é presunçosamente indie. Me pareceu uma propaganda de tecnologia manipulativa, ou aquele clipe do Kings of Leon onde eles festejam com famílias negras, ou aquele do 30 Seconds to Mars onde as crianças ficam falando de como o Jared Leto salvou a vida delas. Quer dizer, assista os primeiros segundos de novo. É uma bobajada pomposa que não tem nada a ver com nada. 

No entanto, a mensagem central — impeça que esse filho da puta do Kony mate e estupre crianças aos milhares — é muito poderosa. Então tentei ir além do meu esnobismo.

Mas talvez eu esteja errado nisso também. Chris Blattman, que é professor assistente de Ciências Políticas e Econômicas em Yale, escreveu esse post sobre o Invisible Children, basicamente chamando os caras de cuzões. Ele começa sacaneando as “gravatas hipsters” e os chapéus de cowboy deles e depois os acusa de serem pós-colonialistas. 

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Agora estou meio que num dilema. Me preocupo que a verdadeira razão de eu estar procurando os pontos negativos do fenômeno Kony 2012 seja simplesmente porque sou um esnobe que curte estragar a festa dos outros, e porque achei o filme promocional deles vergonhosamente produzido. E isso é uma razão horrível para ignorar uma questão de caridade.

O filme Kony 2012 teve início quando os cineastas foram para Uganda e conheceram um menino tão traumatizado por suas experiências que pensava em se matar. Confrontados com a realidade dessas atrocidades, esses cineastas ocidentais fizeram o que espero que eu mesmo fizesse, e resolveram ajudar. Não importa como. Com isso em mente, importa se eles estão sendo bem pagos? Importa se eles manipulam os fatos? Importa que sua organização não seja financeiramente responsável? Importa se eles são uns ingênuos que acham que o trabalho do homem branco é salvar a África? Ou são apenas hipóteses muito elaboradas de ocidentais com liberdade, informação e educação suficiente para procurar defeitos num simples ato de bondade?

Não é melhor apenas parar de criticar e começar a ajudar crianças necessitadas? Ou será que esse é o tipo de intervencionismo cego que joga países como o Afeganistão em guerras tão longas?

Não faço a menor ideia, gente.

(Aliás, brigado a todos os blogs e pessoas do reddit de quem eu roubei as fotos).

Para mais informações sobre por que você NÃO deve doar para o Kony 2012 clique aqui.

Se você quiser ler mais posts com contos horríveis sobre pessoas sendo feridas e mortas na África Central e Oriental, confira os links abaixo:

Guia VICE Para o Congo

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