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Um dos Membros Fundadores do N.W.A É na Real o Pai do Electro Funk

Conheça a história do Arabian Prince que deixou o seminal grupo de hip-hop semanas antes do lançamento do álbum 'Straight Outta Compton'.

por Jeremiah Alexis
16 Setembro 2015, 4:00pm

Em um restaurante de Marina del Rey, em Los Angeles, um pequeno grupo de artistas influentes de hip-hop, mas praticamente desconhecidos, se reúne para uma festa de aniversário. O aniversariante é um cavalheiro chamado Egyptian Lover. Ao seu lado estão seus velhos amigos Arabian Prince e Greg Mack, além de um indivíduo conhecido como Snake Puppy. A história desses homens é pouco conhecida, mas eles foram pioneiros na formação do hip-hop da costa oeste americana e estiveram entre os primeiros nomes a misturar dance music com rap, criando no processo um gênero conhecido como electro funk.

A versão do grupo para o chamado electro funk soa como o filho ilegítimo do Kraftwerk com o Rick James e o Parliament-Funkadelic. Habitualmente atingindo os 130 BPM, os seus sintetizadores futuristas e beats de 808 foram a trilha sonora da cena street de Los Angeles no começo dos anos 80. Crews de DJs como o Uncle Jamm's Army realizavam festas no Veterans Auditorium e regularmente lotavam a LA Sports Arena, com capacidade para 10 mil pessoas. Greg Mack, um dos primeiros DJs da K-DAY, a seminal rádio de hip-hop de Los Angeles, levou este estilo musical mutante para as massas através das ondas sonoras em 1983.

Arabian Prince em fins dos anos 80.

Hoje, Arabian Prince, cujo nome verdadeiro é Kim Lezan, pouco lembra o Prince com um penteado jheri curl [que Michael Jackson tornou famoso com a capa de Thriller] de 1982. Naquela época, a noite de Los Angeles era insana. Ice T, o proto-gangsta rapper, usava um cabelo alisado bufante e dançava popping na cena b-boy. Dr. Dre e DJ Yella eram membros da World Class Wrecking Crew e usavam sombra nos olhos e macacões bordados com lantejoulas. Em meio a tudo isso, Arabian Prince começou dançando nas jams locais. Ele cresceu tanto a ponto de se tornar um DJ influente, depois rapper, depois produtor. Trabalhou em faixas de electro funk para o Bobby Jimmy and the Critters, recebeu uma indicação ao Grammy pelo seu trabalho com o J.J. Fad e também produziu material próprio. No processo, ele se tornou amigo íntimo de Andre Young, mais conhecido como Dr. Dre.

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Esta era de inocência não estava destinada a durar muito mais tempo, e Arabian Prince estava inadvertidamente na raiz da sua extinção. O gangsta rap, o gênero nos anos 80 que evoluiu da epidemia do crack, da brutalidade policial e das políticas econômicas de Ronald Reagan nos guetos de Los Angeles da época, invadiu o meio cultural afro-americano e, no processo, incinerou as bases construídas pelo electro funk. Os precursores deste admirável mundo novo eram um grupo local chamado N.W.A.

A capa do disco 'N.W.A and the Posse' mostra o grupo antes da sua gangstarização.

Arabian Prince foi um dos membros fundadores do N.W.A e uma importante força criativa antes do grupo passar por uma mudança radical, abandonando o electro funk das ruas para os seus membros se tornarem grandes ícones do gangsta rap. Ele compôs e produziu o primeiro single do grupo, "Panic Zone", e também produziu e cantou rap nos seus primeiros dois discos, mas você não vai vê-lo no filme Straight Outta Compton. Como Pete Best, o baterista que deixou os Beatles pouco antes da fama, Arabian deixou o N.W.A. apenas semanas antes de eles lançarem o seu lendário segundo disco, Straight Outta Compton, e depois disso foi varrido para debaixo do tapete da história.

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Arabian ainda tem boas memórias daquela época. "Dr. Dre e eu nos conhecemos na cena. Havia um pequeno círculo de DJs na costa oeste americana nos anos 80. Dre estava no Wrecking Crew, eu estava no Bobby Jimmy and the Critters na época, e nós clicamos. Morávamos na mesma área, em South Central, Compton. Frequentávamos o Skateland em Compton, íamos à praia, saíamos atrás de mulher."

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Dr. Dre levou Arabian Prince para a Ruthless Records depois que começou a trabalhar junto com Eazy-E. Arabian foi o primeiro produtor interno da gravadora e se considerava um parceiro nos negócios. "Dre e eu estávamos de saco cheio de não sermos pagos", diz Lezan. "Produzíamos um monte de discos, ganhávamos dinheiro aqui e ali, mas não ganhávamos royalties. Eazy era o técnico farmacêutico do bairro, então ele tinha algum dinheiro. Dre veio até mim e disse: 'Eazy vai bancar este projeto e você e eu podemos ser produtores. Vamos chamar [a gravadora] de Ruthless Records. Vai ser algo familiar, vamos todos dividir os lucros'. No fim das contas, não funcionou bem assim. Entre o Jerry Heller e algumas outras coisas..."

Suge Knight e Jerry Heller são apresentados como vilões na adaptação para o cinema de 'Straight Outta Compton'.

Jerry Heller era o empresário do N.W.A e conselheiro de Eazy E. Ele é acusado por Arabian, Dr. Dre, Ice Cube e a cena de hip-hop em geral de embolsar royalties e desviar os lucros do sucesso do N.W.A. para o próprio bolso. Ele é o vilão na adaptação cinematográfica, e as memórias de Arabian sustentam que esta representação é correta.

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"Antes do lançamento de Straight Outta Compton (o disco), estávamos fazendo muitos shows, e me lembro de pensar: 'Cara, não estamos sendo pagos como deveríamos'. Recebíamos metade do dinheiro e a outra metade desaparecia, não víamos nada do dinheiro pago adiantado. Então comecei a questionar Jerry Heller sobre os royalties. Estávamos vendendo milhões de discos, mas não víamos esse dinheiro e não podíamos ver as declarações de royalties. Sempre havia uma desculpa."

Arabian continua: "Eu estava fazendo discos como Arabian Prince e ganhando dinheiro, mas agora que estava em um grupo que vendia milhões de discos, estava ganhando menos? Como podemos ser gângsteres fodões e ter o nosso dinheiro roubado? As pessoas dizem que sou burro por ter saído tão cedo do N.W.A., mas eventualmente o Dre e o Cube saíram pelos mesmos motivos. Eu só fui o primeiro."

Arabian Prince compôs e gravou a faixa "Panic Zone".

A história do Arabian Prince exemplifica a ideia de que a história é escrita pelos vencedores. O filme Straight Outta Compton foi produzido pela viúva de Eazy, Tomica Woods-Wright, que por acaso também foi réu de diversos processos judiciais movidos por Arabian. "Não estou bravo com eles por terem me deixado de fora, deixaram o J.J. Fad de fora também. Elas também abriram processos contra Tomica."

Veja um Trecho de 'Straight Outta Compton', a Cinebiografia do N.W.A

O J.J. Fad, e não o N.W.A., foi o primeiro grupo de sucesso comercial da Ruthless Records. O seu disco Supersonic, produzido pelo Arabian Prince, foi o primeiro disco de hip-hop feminino a receber uma indicação ao Grammy, e o single vendeu milhões de cópias. Seria de se pensar que isto garantiria uma menção no filme do N.W.A., mas o grupo foi sumariamente ignorado.

"Se o motivo por que não estamos neste filme é porque esta mulher quer se vingar de nós de alguma forma, cara, isso é loucura", diz Arabian Prince. "Ela nem estava lá para ver nada disso. Sei que ela é produtora executiva e detém os direitos sobre quase todo mundo. O Dre e o Cube provavelmente estavam de mãos atadas, mas ninguém me procurou, então não sei. No final, as pessoas que sabem a verdadeira história, a verdade virá à tona."

Da esquerda para a direita: Arabian Prince, Jerry Heller, Eazy E, Dr. Dre, DJ Yella

Além do desfalque de Heller, os motivos para a saída do Arabian Prince são fonte de muita especulação. Alguns dizem que ele foi forçado a sair quando o Ice Cube voltou da faculdade. Outros supõem que a sua produção mais electro funk não se encaixava bem na imagem gangsta do N.W.A. De qualquer modo, depois de deixar o grupo, Arabian manteve boas relações com o resto da equipe. "Quando eles entraram em guerra com o Cube, depois de ele sair, fiquei fora disso", ele diz. Arabian Prince continuou a produzir para a Ruthless, criando faixas para o J.J. Fad, além de um disco solo. Arabian quase chegou a se juntar à então incipiente Death Row Records, mas desistiu depois de se encontrar com o outro vilão do filme.

"Depois do Dre sair da Ruthless, ele e o Yella vieram até a minha casa em Burbank e me convidaram para ir ao estúdio e talvez tocar alguns projetos", ele diz. "Eu fui e o Suge Knight estava lá com alguns dos parceiros dele. Conhecia Suge do meu bairro e sabia que tipo de cara ele era. Naquele momento, só senti que não era o lugar para mim. Quando formamos o N.W.A., era como uma família, com pessoas que conhecíamos. Não conhecia nenhum desses caras e não havia ninguém ali com quem eu pudesse contar."

Kim Lezan atualmente.

Em uma turnê, Arabian testemunhou os efeitos de um dos primeiros videogames, o ColecoVision, e como ele transformava seus amigos maconheiros em gamers pesados. Sempre ávido por descobrir os mais novos sintetizadores e tecnologias de produção, a sua atenção se voltou para os videogames e os efeitos especiais. Arabian aprendeu a programar e se tornou testador de games e uma espécie de erudito da tecnologia. A sua empresa, Hypnotic FX, produziu animes nas Coreia e efeitos especiais para filmes como Independence Day.

Mas a música ainda tem lugar no seu coração. "Depois do N.W.A., lancei um disco (Brother Arab, de 1989). Não foi um grande sucesso como o disco do Cube, mas era meu, então ganhei dinheiro com ele. O Lover e eu voltamos há pouco da Europa, onde estivemos em turnê pelos últimos 20 anos. Nunca parei de criar. Na verdade, estou trabalhando em um disco de EDM com alguns grandes nomes neste exato momento, é uma parada meio ultrassecreta. Adoro a música eletrônica e respeito de verdade os caras que fazem isso agora. Meu respeito ao Flying Lotus, estive com ele algumas vezes e ele é muito legal."

A gravadora Stones Throw Records, uma instituição do hip-hop indie de Los Angeles, lançou uma antologia da obra do Arabian Prince em 2008, e ele promete que teremos um lançamento exclusivo quando sair o seu projeto ultrassecreto de EDM nos próximos meses. "Sabe, algumas pessoas dizem que o gangsta rap matou o electro funk, mas acho que ele só evoluiu para o pop e o EDM. Muitos dos beats que fazíamos naquela época estão ressurgindo, só os artistas que são diferentes. As coisas evoluem, e no final, isso é tudo que sempre tentei fazer. Algumas pessoas dizem que ser inovador é uma maldição, mas é o que sempre fui e acho que é uma bênção."

Jeremiah Alexis está no Twitter.

Tradução: Fernanda Botta