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Como 'Akira' influenciou todos os seus filmes, músicas e programas favoritos

Lançado há 25 anos, o filme japonês moldou toda uma cultura sci-fi ocidental.

por Tom Usher
20 Dezembro 2016, 12:46pm

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE UK.

Sempre que alguém discute filmes clássicos, tem sempre aquele cara. Aquele cara que faz um som audível molhado quando fala e que tem um canal no YouTube só de tutoriais de vaping.

Você não pode achar qualquer outro Alien bom porque o Alien, o Oitavo Passageiro é muito superior. Não vale a pena assistir Avatar porque o filme é basicamente uma cópia de Dança Com Lobos com gatos azuis. Você não pode gostar de Deixe Me Entrar porque ele é baseado no Deixe Ela Entrar holandês, e quem manja mesmo de filmes sabe que todos os remakes de Hollywood são uma bosta.

Infelizmente, quando se trata do clássico anime de 1988 Akira, preciso concordar com esse cara. Sou tanto esse cara que quase não enxergo além da aba do meu fedora por causa da fumaça do vaping. Esse é o único filme que eu vou pagar pau descaradamente, e foda-se quantos amigos eu perder por causa disso.

Felizmente, não estou sozinho nessa. Setembro último foi comemorado o aniversário de 25 anos da Manga Entertainment — a distribuidora responsável por trazer várias animações japonesas para o Reino Unido e EUA — e Akira já ganhou três lançamentos no Reino Unido, e atualmente está passando em 70 cinemas do país.

Quem já viu o filme provavelmente já é fanático por Akira. Quem ainda não assistiu, eu aconselharia desmarcar o Netflix sagrado de hoje e ir assistir o filme. Por quê? Porque o título é um dos mais influentes dos últimos 30 anos, e é um favor que você faz pra si mesmo.

Passada numa Neo-Tóquio depois da Terceira Guerra Mundial, a história segue uma gangue de motoqueiros adolescentes rebeldes, especificamente Kaneda e Tetsuo, enquanto ele cruzam acidentalmente com um projeto militar que planeja usar humanos com telecinese como armas. Tetsuo é capturado pelo governo e logo fica claro que ele tem poderes telecinéticos que rivalizam com a arma mais poderosa do projeto, um menino chamado Akira. Aí — bom não vou dar spoilers, mas basicamente a coisa toda explode da maneira mais foda possível.

Considerando como a cultura japonesa é parte do mainstream no mundo ocidental hoje, é difícil imaginar que antes do lançamento de Akira em 1989, o Japão e a sua arte, cozinha e animação eram alienígenas para a maioria do Ocidente. Tanto que quando ofereceram a Stephen Spielberg e George Lucas a chance de trazer Akira para os EUA em 1987, eles recusaram, dizendo que o desenho não atrairia o público ocidental.

Estranho, porque o diretor e roteirista do filme Katsuhiro Otomo emprestou muito do que era popular no cinema contemporâneo e clássico do Ocidente na época. Tematicamente, vários aspectos do filme lembram Juventude Transviada, Videodrome de David Cronemberg, Blade Runner de Ridley Scott e 2001: Uma Odisseia no Espaço. O filme até faz referências fortes a E.T. e Guerra nas Estrelas.

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A combinação de distopia cyberpunk, alienação adolescente, ficção científica e bombas visuais de grande escala de Akira já era parte do gênero de sci-fi ocidental nos anos 80, e seu apelo ficou evidente quando o filme fez $ 49 milhões de dólares em bilheteria mundialmente quando foi lançado no cinema — uma quantia considerada muito dinheiro para qualquer filme na época.

Falando sobre como a empresa começou, o cocriador da Manga Entertainment Andy Frain contou para a Manga UK: "Comecei a achar que [Akira] era mais que um grande filme — ele poderia ser um fenômeno. Havia mais filmes assim no Japão? Se sim, poderíamos tratá-los em termos de música, como a Def Jam: um gênero em si".

Foi a primeira vez que o ocidente se envolveu com a cultura japonesa em massa, e isso causou um impacto considerável: a influência do filme ainda é óbvia por todo lado. Nas áreas de cinema e televisão, é fácil ver como o título moldou o sci-fi moderno como o conhecemos. Filmes como Destino Especial, Poder Sem Limites e A Origem pegam muito emprestado da temática e estilo de Akira. Dois desses três filmes até têm uma criança com poderes telecinéticos destrutivos central no enredo. Outro filme influenciado foi Looper: Assassinos do Futuro. O diretor Rian Johnson disse recentemente numa AMA do Reddit: "Você pode ver a gama de coisas onde me inspirei, de Exterminador do Futuro a Akira".

Na TV, o seriado da Netflix que é uma carta de aos anos 80, Stranger Things, se baseia na personagem Eleven, outra criança treinada por um grupo sombrio para usar seus poderes de telecinese como arma. O filme abriu caminho para Pokemon, Naruto e Dragonball se tornarem fenômenos culturais.

Uma comparação lado a lado de 'Akira' e o clipe de "Stronger".

Fora o cinema e a TV, o filme também influenciou vários músicos. Kanye Westjá falou sobre seu amor por Akira e até baseou o clipe de "Stronger" em sua narrativa, basicamente interpretando um Kanye/Tetsuo como protagonista. O diretor Hype Williams disse sobre Ye e o clipe na época: "Ele sempre se inspirou em Akira. Em certo ponto, acabamos mergulhando de cabeça e filmamos partes do filme para o clipe, mas decidimos voltar um pouco atrás e fazer uma versão mais abstrata no final".

A trilha sonora revolucionária de Geinoh Yamashirogumi rendeu uma série de discos de remixes da Bwana ano passado, a Capsule's Pride.

Fica claro quanto o filme influenciou a cultura ocidental desde que foi lançado 28 anos atrás. Foi o primeiro caso de um filme japonês que logo de cara foi apreciado pelos críticos no EUA e Reino Unido. Akira abriu as comportas não só o anime, mas para que toda a cultura japonesa fosse aceita pelo público ocidental.

Então, se você não viu o filme, não perca a chance de assistir agora. Vou tentar não atrapalhar sua visão com o meu fedora.

@williamwasteman

Tradução: Marina Schnoor

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