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O streaming é realmente o melhor jeito de consumir música?

André Barcinski, Deezer, ONErpm, Rafael Rossatto e Rick Bonadio comentam os prós e os contras do modelo.

por Eduardo Ribeiro
17 Outubro 2017, 9:00am

Imagem via Sohun @ Flickr.

Este conteúdo é um oferecimento Natura Musical.

Na coluna Estudando a Cena, discutimos a atual cena musical do Brasil e como as drásticas mudanças na indústria fonográfica dos últimos anos reverberaram na base da pirâmide sócio-cultural do país.

A transmissão digital de música finalmente encontrou um modo de funcionar comercialmente. O presente é marcado pelo serviço por assinatura ocupando o papel que um dia foi protagonizado pelo vinil, o CD, a rádio e outros suportes. Não se pode ignorar que os arquivos sem taxa continuam sendo trocados na web. Mas é isso: em 97 um CD importado custava R$ 30. Por menos, atualmente as plataformas de streaming dão acesso a discografias de variados movimentos musicais ao longo de décadas. Ninguém mais corre o risco de comprar um disco pela capa para descobrir depois que nem era o mais legal daquele artista.

Na lógica mecânica da indústria fonográfica, quando se mexeu com o elemento material os reflexos se espalharam por toda a estrutura. As grandes gravadoras tentaram manter o modelo antigo de prensagem, transporte, distribuição e venda física, mas, com o tempo se adaptaram à forçosa tendência. Pela primeira vez o consumidor de música surge no topo da cadeia como o maior beneficiado: continua gastando grana com isso todo mês, só que de um jeito mais prático. Porém tudo tem vários lados. Os modelos são sempre indefinidos justamente porque nunca favorecem a todos, e as diferentes partes brigam pela sua compensação ($$$).

Este artigo de 2015 do The Guardian, que o jornalista André Barcinski nos enviou, por exemplo, mostra como um músico, para ganhar o equivalente a um salário mínimo nos Estados Unidos, precisaria ter 1,1 milhão de audições no Spotify e 4,2 milhões no YouTube. Pra onde vai esse game? Conversamos com ele e também com Bruno Vieira, diretor geral da Deezer no Brasil, Ian Bueno, coordenador de marketing artístico da ONErpm, o empresário Rafael Rossatto e o produtor Rick Bonadio, nomes íntimos do assunto, a fim de ter uma noção.

André Barcinski

Jornalista, escritor, roteirista, diretor de TV, crítico de cinema e música da 'Folha de S. Paulo' e blogueiro do UOL.

VICE: Depois de tantas mudanças no modo padrão de se escutar música, o streaming pode ser considerado a última fronteira?
Isso depende do que o Google e outras empresas decidirem. Se o Google achar que já ganhou demais vendendo anúncios no YouTube e que a próxima onda é implantar um chip no canal auricular de sete bilhões de pessoas, que terão à disposição as 20 ou 30 músicas que o Google quer que elas ouçam, tenho certeza que 98% da população mundial vai achar muito bom.

A quem o esquema estabelecido de distribuição e transmissão digital mais beneficia hoje?
Para responder a essa pergunta, vou dar apenas dois dados: desde o início dos anos 2000, o faturamento global com música gravada caiu de 27,3 bilhões de dólares por ano para 10,4 bilhões. E em 2016, o faturamento de publicidade do Google nos Estados Unidos chegou a 60 bilhões de dólares, fazendo do Google a maior companhia de mídia do planeta. Estou usando o Google como exemplo, porque é a maior empresa e a que mais fatura com música, mesmo sem criar nada. Nesse mundo da suposta "democracia digital", quem se ferra mais é o artista.

No começo da mp3/trocas de arquivos, as majors pareceram desnorteadas com o seu antigo modelo de negócio. É possível afirmar que essa "crise" está resolvida?
Claro que não. A música sobrevive, mas a indústria da música acabou. As gravadoras, como as conhecemos, acabaram. Elas agora estão tentando faturar de outras formas, cuidando de outros aspectos da vida dos artistas.

De que modo os meios digitais impactaram conceitos como os de "álbum", "EP" e "single"?
Impactaram tremendamente. Em primeiro lugar, lançar discos não é mais um bom negócio. Músicos ganham mais fazendo shows e vendendo camisetas do que discos. Então quem vai se preocupar em gravar discos — especialmente produções caras e complicadas — é uma minoria dos artistas. O conceito de "álbum" está caindo em desuso, substituído por lançamentos esporádicos das músicas que os artistas consideram mais vendáveis e populares.

Para quem escuta música, como o hábito foi igualmente impactado?
Acho que as pessoas estão ouvindo cada vez mais música, mas aos pedaços: metade de uma música aqui, depois um pedaço de outra música ali, mas poucos têm paciência para discos inteiros. A oferta infinita está criando uma geração de ouvintes preguiçosos e indolentes, exatamente o oposto do que os arautos da tal "democracia digital" diziam que iria ocorrer. Estamos vivendo um período inigualado de monopolização na música. Veja esses dados:

- Em 2005, 13,3% dos CDs lançados no mundo venderam mais de mil cópias. Em 2010, esse percentual caiu para 6,26%. Dos 75 mil discos lançados no mundo inteiro em 2010, apenas mil venderam mais de 10 mil cópias, o menor número já registrado.

- Em 1986, 31 canções chegaram ao topo das paradas dos EUA. Elas eram de 29 artistas diferentes. Entre 2008 e 2012, só 66 canções chegaram a número um. E quase a metade era de seis artistas: Katy Perry, Rihanna, Flo Rida, Black Eyed Peas, Adele e Lady Gaga.

Isso mostra que o público está ouvindo cada vez mais do mesmo. Acho isso triste.

Bruno Vieira

Diretor geral da Deezer no Brasil.

VICE: Existe a chance de surgir um novo formato revolucionário depois do streaming?
Hoje é difícil antever um novo formato revolucionário. O streaming que atualmente é a principal forma de consumo, já existe há mais de dez anos e ainda tem muito a crescer. E isso está relacionado à mobilidade, ao crescimento de smartphones, e a cobertura das redes de internet móvel que hoje já é muito maior do que no passado, mas ainda tem muito a crescer quando falamos de cobertura fora dos grandes centros. A mudança da relação de consumo de posse para acesso tem seus desafios culturais, mas as novas gerações mostram que é questão de tempo. E do nosso lado, os investimentos não param para melhorar cada vez mais a experiência, a conveniência do usuário, e como ouvir tudo que quiser na hora que quiser. Novos dispositivos surgirão com certeza, com mais qualidade, diferentes interfaces, e a tendência é que o streaming esteja sempre presente nessas inovações, seja com integração com os hardwares, em apps com funções diferenciadas, parcerias com as mais diferentes empresas, entrega de mais dados para artistas e gravadoras para que eles possam conhecer mais o hábito de consumo do seu público, e tudo mais que entregue uma experiência premium e personalizada para o nosso usuário.

É certo afirmar que todas as pontas da indústria musical se beneficiam dele?
Beneficia a todos os envolvidos na cadeia da indústria da música. O streaming viabiliza a rentabilização da música no mundo digital, e beneficia todos os integrantes da indústria da música que perderam de forma significativa a receita da comercialização na era de transição do universo físico para o digital. Agora é questão de o modelo ganhar escalas ainda maiores, para então os artistas poderem considerar a receita da gravação da música no seu planejamento financeiro, e não depender somente da receita de shows — que é a grande realidade atual. Ainda são somente 140 milhões de usuários em diferentes plataformas de streaming no mundo, e já representa a maior fonte de receita da indústria. Logo, ainda há muito a crescer nesse setor. Além disso, o streaming tem um papel muito importante para reduzir as taxas de pirataria.

Ainda há questões, como a pirataria, a serem resolvidas pela indústria?
Mudança de hábitos e a criação de um novo mercado geram estranhamento e passam por um momento de adaptação por todos os envolvidos. O streaming também passou por essa fase e hoje já é um dos principais meios de consumo de música no mundo. Mas ainda existem desafios no digital a serem vencidos, e muitos acordos da indústria estão sendo revistos e discutidos pelas gravadoras e players com foco em evoluir o modelo e deixá-lo mais sustentável.

É sempre importante reforçar que os serviços de streaming são os principais motivos da diminuição de pirataria, assim como o aumento de ouvintes. De acordo com a Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI), a reprodução digital é responsável pelo crescimento do número de usuários ouvintes de música, gerando um aumento de receita de 60,4%. Por conta do grande número de alternativas para consumo de música, hoje o público consegue o acesso ao conteúdo multimídia, de forma legal, quando e onde quiser. O conceito tomou força em 2010, principalmente em regiões emergentes. A América Latina é, por exemplo, pelo sétimo ano consecutivo, a região de maior crescimento no digital.

O que mudou na estratégia dos artistas na hora de lançar seus trabalhos?
O mercado de streaming trouxe uma nova dinâmica para a indústria fonográfica. Com o streaming, os artistas podem ser mais estratégicos na hora de lançar e trabalhar uma música ou um EP, sem a necessidade de lançar um álbum inteiro. Hoje percebemos que existem artistas, como por exemplo, Anitta, Claudia Leitte e até mesmo o Drake, que lançaram singles ao invés de discos convencionais e o hit estourou nos rankings da Deezer. A Daniela Araújo, artista gospel, em 2016 lançou uma música por mês e no final do ano consolidou num álbum. Hoje, com a facilidade e rapidez da internet, os artistas conseguem experimentar melhor, tanto seu som quanto o público, e lançar uma música de cada vez e trabalhar de forma diferenciada. Isso é também uma forma para que os artistas tenham mais novidades para seus fãs durante todo o ano.

Que mudança você assinalaria no hábito de consumo músical?
Hoje vemos um consumo muito grande de playlists, principalmente dos nossos editores globais e parceiros curadores, assim como do Flow, nosso recurso exclusivo de trilha sonora personalizada a partir do perfil de consumo de cada usuário.

A relação com a mídia física era diferente. A pessoa comprava o disco ou CD e o escutava inteiro, e aprendia a gostar de todas as músicas. Hoje não. Você pode consumir realmente só o que quiser. Porém, não há um padrão de comportamento estabelecido, já que cada pessoa tem suas preferências. O importante é conseguirmos atender as individualidades com um serviço personalizado e único.

Ian Bueno

Coordenador de marketing artístico da ONErpm, plataforma de distribuição digital de música e engajamento de ouvintes.

VICE: Existe algum novo formato possível de se antever depois do streaming?
Não acredito que seja a última fronteira. De qualquer forma, não temos dúvidas de que esse é o formato que vai perdurar pelos próximos anos. O Brasil já é o segundo maior mercado de música digital e entramos na era do streaming há pouco mais de três anos. Sendo assim, tem muito pra crescer e aperfeiçoar. Estamos em uma fase na qual as plataformas buscam aprimorar a experiência do artista, entregando mais dados e ferramentas. Como consequência, o artista/selo/gravadora pode entender e potencializar o seu alcance.

Quem se dá melhor com o streaming? Artistas, gravadoras, plataformas, ouvintes?
É uma pergunta que pode ser respondida sob diferentes perspectivas, tudo depende do contrato.

Artistas: De maneira geral, hoje existe a possibilidade de artistas independentes se estruturarem tão bem a ponto de uma major não ser necessária. Eles podem terceirizar todo o processo e ganharem muito mais com a sua própria música.

Grandes gravadoras: Essas empresas tiveram que repensar todo o modelo de negócio nos últimos anos. Elas estão trabalhando um volume maior de lançamentos no digital, porém o foco e investimento continua sendo apenas na parcela com artistas que vão dar um retorno rápido. Ou seja, ainda há muitos artistas se amarrando em contratos ruins e que acabam ficando na geladeira.

Selos Independentes: Muitos deixaram de existir, mas há novos modelos aparecendo e eu particularmente acredito que só vão perdurar aqueles que abraçarem novas funções, a exemplo de organização de festivais, merchandising exclusivo das bandas, assessoria de marketing e venda de shows.

Plataformas: Ainda são sustentadas por bancos de investimentos, o crescimento continua, e acelerado, mas é preciso se desenvolverem ainda mais para chegar ao ponto de serem um negócio 100% rentável.

Ouvintes: Por esse lado, só vejo aspectos positivos como facilidade de acesso, fonogramas de alta qualidade, economia de dinheiro, tempo e, é claro, memória nos equipamentos.

A troca de arquivos ainda é um calo no pé da indústria?
Ainda há muitas praças em que os players de streaming não estão presentes. Já deixou de ser um grande problema, sem dúvidas, mas nunca vai deixar vai deixar de existir a troca de arquivos.

Os artistas hoje pensam o lançamento de seus repertórios de modo diferente do que no auge do vinil ou CD?
A mecânica de playlists e a velocidade da internet deixaram claro que o single é o formato ideal para trabalhar no streaming, principalmente se você segue uma linguagem comercial. Apenas os verdadeiros amantes de música ou os fãs mais engajados vão realmente ouvir um álbum de 8/10 faixas de uma vez. Claro que há muito do conceito do artista por trás da obra, mas isso precisa ser bem alinhado com a estratégia e os objetivos de cada artista.

Que mudanças de costume você notou com a disseminação do streaming?
O formato de playlists curadas por editores dos players tem funcionado muito bem: é uma opção rápida, fácil de ouvir e conhecer músicas sem se apegar a um álbum, artista ou até mesmo gênero musical (playlists de moods como "Músicas para Malhar" ou "Sertanejo No Churrasco", por exemplo, são muito procuradas, pois entregam uma trilha sonora para um momento bem específico no dia a dia do usuário). Os fãs mais engajados dos artistas vão continuar ouvindo seus álbuns inteiros, mas, de maneira geral, a maioria das pessoas não consome desta maneira.

Rafael Rossatto

Empresário, criador da Agência de Música e Cofundador da Croacia Music House. Trabalha com artistas como Mallu Magalhães, Marcelo Camelo, Gabriel o Pensador, Filipe Catto e Maria Rita.

VICE: O que mais será que vão inventar pra gente ouvir música?
Tenho conversado muito sobre este assunto com o pessoal que trabalha comigo. Eu acho que vai ter ainda alguma novidade, sim, porque foi o que aconteceu com o k7, o vinil... Com toda a tecnologia e inteligência artificial, ainda veremos mudanças.

Quem ganha com o streaming do jeito que está?
O modelo de negócio ainda está em construção. Acredito que financeiramente as marcas estejam indo bem, para as gravadoras, na minha opinião, é uma maneira muito boa porque elimina todo o processo físico. Hoje em dia uma gravadora não precisa mais ter vendedor, fábrica, transporte, enfim, milhares de coisas que geravam um valor absurdo. Pro artista independente também era muito ruim. Mandar prensar, esperar...

A experiência ficou melhor pro ouvinte?
Pro ouvinte é excelente. Sou zero saudosista em relação a CD, LP, essas coisas. Com menos de 20 reais você pode ouvir música irrestrita. Pra conhecer é ótimo, é prático de escolher o que ouvir. Agora, pro artista, do ponto de vista financeiro, não é interessante ainda. Pra divulgação é bom. Porque não são só as majors usando, qualquer artista independente que eu vejo hoje está lá. Antes, já nas lojas, agora, em todas as plataformas musicais. Até o artista chegar a receber como recebia com a vendagem de discos é uma luta da classe [risos]. Mas você vê, até os artistas que eram contra já estão cedendo, então é um caminho sem volta.

Você enxerga algum aspecto negativo nessa história?
O que eu acho que precisa acontecer é ter mais plataformas, pra gente não ficar dependendo só de três ou quatro. Se fica um monopólio, é pior que rádio. Porque tudo começa como uma coisa legal, mas depois quando se tem um monopólio, fica perigoso. Eles podem fazer o que quiserem. Você transfere o que era ruim no broadcasting pro streaming. Eu vejo gravadoras apoiando a diversidade de plataformas, querendo estar em todas.

Aquelas tretas das grandes gravadoras com os blogs de download, o compartilhamento peer to peer e outras distribuições de arquivos, como ficaram?
A crise das majors está sendo resolvida, provavelmente não estão faturando como nos anos 90, mas com o corte dos custos anteriores algo se compensou. Hoje eu trabalho com a Warner, a Sony e a Universal. Você vai nesses lugares e vê uma molecada trabalhando, gente jovem. Que legal que existe uma nova mentalidade, não é mais aquela mentalidade predadora, é uma galera nova. E quando estive nas reuniões de lançamento digital dos artistas, pô, aquilo ali é uma aula. Então acho que as gravadoras estão começando a renovar. No mainstream não tem como não ter essa coisa das grandes gravadoras, elas fazem parte, já estão firmadas. Qualquer artista grande está no catálogo de uma gravadora, de Nina Simone a Beatles. Culturalmente dependemos deles.

Você acha que as pessoas perderam o hábito de escutar álbuns na íntegra?
Acredito que álbum é uma coisa que não vai durar muito. Porque antigamente tudo fazia parte de uma lógica: você lançava um disco, tinha lá uns três meses de divulgação, alternando algumas músicas de trabalho, e depois parava de noticiar. Hoje em dia, o artista tem novidade todo mês, pra se manter no foco. Acho isso muito mais legal, o cara tem uma música que quer gravar, ele pode entrar no estúdio e lançar. Não precisa esperar passar dois anos pra incluir num álbum e seguir todo o ciclo. Esse dinamismo é muito mais legal. Não tem essa de guardar uma música pro próximo álbum. Se o artista se arrepende de alguma coisa que gravou e é o dono do negócio, ele vai lá e tira do YouTube, remove das plataformas. Acho bacana o conceito de álbum, mas tem que ver a realidade: as pessoas não estão mais parando pra ouvir um repertório de uma hora. Mas a cultura de procurar disco ainda exista, hoje em dia você fica buscando, escutando as sugestões, olhando as capas. A única coisa que não tem é a ficha técnica dos encartes.

Rick Bonadio em seu estúdio. Foto: Divulgação.

Rick Bonadio

Produtor, compositor, músico e empresário musical. É diretor do selo Midas Music. Descobriu e produziu Mamonas Assassinas, Charlie Brown Jr., Tihuana e CPM22, entre outros. Foi diretor geral da Virgin Records Brasil e criou o selo Arsenal Music.

VICE: Qual é a sua visão sobre o que o streaming trouxe para o universo da música?
No mundo digital nada é definitivo, mas o streaming parece ser uma forma de ouvir música que vai ficar por um longo tempo. A tendência é de não se ter mais nenhuma mídia física para se carregar músicas, vídeos, etc. Fazendo um exercício de futurologia, eu diria que um dia as músicas vão estar no mesmo lugar que os videoclipes e conteúdo dos artistas, como entrevistas e shows, e essa nuvem será acessada pelas pessoas mediante assinatura. De qualquer forma, não vai existir download e será uma nova forma de streaming.

O consumidor de música contemporâneo está bem servido?
Sem dúvida que sim. Nunca se teve acesso a tanta música por um preço tão baixo. Hoje o catálogo de músicas do mundo todo está disponível para qualquer um. Algo inimaginável vinte anos atrás.

As majors estão de volta ao business com a mesma força?
No começo dos anos 2000 as majors se negaram a aceitar o iPod e não entraram na comercialização de MP3. Foi um erro trágico que culminou com a derrocada financeira das grandes gravadoras. Depois de muito tempo elas tentaram voltar ao business digital, mas sempre com um atraso irrecuperável. Hoje as gravadoras encolheram e sobrevivem de um conjunto de formas de receita no qual o streaming é uma fatia muito pequena se comparado aos ganhos anteriores das vendas de CD, por exemplo. Em 2001 eu era presidente da Virgin Records Brasil e pedi demissão quando me foi negado o direito a negociar MP3.

Curioso é que voltamos ao tempo em que os singles e EPs recebiam atenção especial...
Hoje não se tem a necessidade de lançar um álbum completo de um novo artista, por exemplo. É melhor lançar singles e depois um EP para, depois de conquistado um público, ter o álbum. Isso ajuda muito. Dá agilidade, reduz os riscos de investimento e deixa o artista livre para criar sem estar amarrado a uma data de lançamento. Hoje todo artista sabe que a qualquer momento pode acrescentar um single a sua obra.

Como tudo isso se reflete no comportamento dos ouvintes?
As pessoas mudaram com o advento do streaming. Hoje a maioria esmagadora ouve singles e top hits dos artistas. Mesmo de seus favoritos. Claro que existem os que ainda ouvem os álbuns. Pra essas pessoas o catálogo antigo está disponível e atende perfeitamente seus gostos. Os jovens e as gerações futuras não vão se prender a discos longos. Eles querem os sucessos.

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