Eu finjo jejuar durante o Ramadã, mas não sou o único

Sim, bati um belo rango no almoço, mas minha família muçulmana acredita que estou com tanta fome quanto eles.

por Abe Love; Traduzido por Marina Schnoor
|
mai 17 2018, 10:00am

Buffalo wings do Hooters é uma opção de almoço segura se você não quer ser flagrado por colegas muçulmanos. Imagem via Flickr user Keith Trice.

É Ramadã e minha mãe está suando em cima do fogão para preparar um grande banquete. Ela faz o jejum mesmo tendo 64 anos e diabetes. Eu? No começo do dia devorei uma porção grande de peixe com batata frita, mas minha família muçulmana acredita que estou jejuando com eles.

E isso acontece há anos.

Durante o mês do Ramadã, a maioria dos 1,8 bilhão de muçulmanos obedece a regra de não se envolver com nenhum vício por 30 dias. Do nascer ao pôr do sol, todos os muçulmanos em boas condições de saúde devem “jejuar”, ou seja, não comer, beber (sim, até água), fumar, usar palavrões e fazer sexo. Jejuar durante o mês é um dos cinco pilares do Islã e não fazer isso pode render não só ser ridicularizado pela comunidade muçulmana como, em certos países, multas e até prisão. Muitos muçulmanos aguardam o Ramadã todo ano porque veem isso como um detox espiritual, algo que os deixa mais puros e dá o tom para o resto do ano. Isso se você realmente acredita na fé e suas práticas, o que não é meu caso. Mas os muçulmanos ao meu redor não sabem disso.

Infelizmente, eu e muitos outros temem o Ramadã porque isso significa outro mês sendo desonesto com sua família e amigos muçulmanos. Bom, há muitas razões para alguém de origem muçulmana não jejuar durante o Ramadã. A pessoa ainda pode ter fé na religião, mas não levar as práticas tão a sério. A pessoa pode achar que o jejum é coisa de muçulmanos tradicionais, e se ver como um muçulmano casual. Outra razão pode ser ter deixado completamente a religião mas não se assumir para sua comunidade muçulmana — algo com que muitos jovens dessa origem sofrem, e exatamente a categoria em que caio. Como muitos millennials que não são religiosos, mas venho de uma religião onde a ideia de apostasia é levada mais a sério que em outras religiões ocidentais.

Isso resulta numa luta ideológica entre gerações mais velhas e jovens de muçulmanos que até já foi retratada na cultura pop, da cena do bacon em Master of None de Aziz Ansari a Doentes de Amor, onde os pais de Kumail Nanjiani o renegam por querer casar com uma mulher branca americana. Isso acontece em muitos lares muçulmanos, onde a primeira geração de millennials tem visões sobre a religião que vão contra a natureza muito restritiva que o Islã pode ter. Podemos nos ver como muçulmanos por identidade, e até falar contra a discriminação muçulmana, mas estamos longes de praticar a religião. O Ramadã para nós é extremamente complicado de navegar, já que é um período muito importante para o Islã. Em vez de “nos assumir” para a família e até amigos, sabemos que se conseguirmos passar por esse mês, estaremos bem pelo resto do ano. Alguns podem jejuar só por isso, sem nenhuma intenção espiritual. Outros tentam evitar conhecidos e familiares muçulmanos no geral.

Mas talvez a prática mais insincera é o que chamo de “jejum falso” — agir como se você estivesse jejuando o dia inteiro e “quebrar o jejum” à noite, como se não tivesse devorado vários lanches e tomado Coca Zero o dia inteiro. Muitos fazem isso para manter uma fachada de que ainda são muçulmanos praticantes. Fazemos isso só para evitar julgamento cruel de outros muçulmanos e é algo totalmente contrário ao objetivo de jejuar durante o Ramadã, que deveria ser uma jornada espiritual de provação para se aproximar de Deus.

Esconder dos muçulmanos ao meu redor o fato de que não estou jejuando era difícil no começo, mas agora é uma habilidade que já desenvolvi. Isso depende muito do tamanho da cidade onde você mora e quantos muçulmanos nela você conhece — quanto menor a cidade, maior é o desafio. Se sempre acaba cruzando com um conhecido muçulmano, você não vai querer ser pego segurando um latte de caramelo do Starbucks durante o dia. Certeza que ele vai te dar um olhar cortante de julgamento seguido de decepção. Já teve vezes em que tive que olhar para os dois lados antes de tomar água dirigindo pela minha cidadezinha suburbana durante o dia. Quando saio para almoçar, me certifico de comer em restaurantes que muçulmanos nunca frequentariam — bares e o Hooters são apostas seguras. Óbvio, evite mercados halal e barraquinhas de falafel. Vamos dizer que você conseguiu passar o dia sem ninguém saber que você está comendo ou bebendo, agora vem o desafio final: você tem que agir como se estivesse tão faminto quanto seus colegas muçulmanos ao pôr do sol. É aqui que a culpa realmente bate. Você se senta para jantar com todo mundo que estava literalmente morrendo de fome o dia todo; enquanto isso, você comeu um belo chili algumas horas antes. Algumas pessoas sabem que você não estava jejuando só de te olhar; é tipo um sexto sentido estranho que certas pessoas têm, e você só torce para não te dedurarem.

Isso coloca a mim e outros numa situação estranha. Ou assumimos que não jejuamos e encaramos as reações, ou continuamos vivendo uma mentira por um mês inteiro todo ano. Mas até tomar minha decisão, vou saborear aqui meu kebab de frango.

Siga a VICE Brasil no Facebook, Twitter, Instagram e YouTube.

Mais VICE
Canais VICE