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O apagamento da memória de pessoas negras

Quando percebeu que não tinha fotografias de suas avós, a jovem cineasta Safira Moreira resolveu fazer um filme.

por Nathalia Barbosa
19 Junho 2018, 10:00am

Imagem do filme Travessia. Crédito: Caique Mello/divulgação

Não ter qualquer tipo de fotografia ou imagem de sua bisavó e apenas um retrato de sua avó materna foi o que levou a artista visual Safira Moreira, de 26 anos, a começar um trabalho de garimpo em feiras de antiguidades do Rio de Janeiro. Desse projeto, nasceu Travessia, curta-metragem que levanta o debate sobre o apagamento da identidade social, econômica e racial das pessoas negras. "Essa falta da materialidade da memória foi o que me instigou. No garimpo pelas feiras encontrei a fotografia que abre o filme. Um registro real de como a história dessas pessoas vem sendo apagada sistematicamente com o passar do tempo”, diz.

Safira levou pouco mais de um mês e meio para concluir o filme. Com a ajuda do namorado, de uma amiga e sem qualquer financiamento, chamou a irmã, a mãe e convidou algumas famílias negras para dar vida ao curta que estreiou na última quinta (14), em São Paulo, abrindo as sessões do filme Baronesa, de Juliana Antunes.

Cartaz do curta-metragem 'Travessia'. Crédito: divulgação

"Encontrar histórias como a minha através desses olhares negros é sintomático e nos faz perceber que esse apagamento se dá de várias formas", pontua Safira. "No cinema, por exemplo, quando você exclui pessoas negras de várias etapas da produção. Nas revistas, nas propagandas de rua, nos livros. Em todos os lugares.”

"Nos negam qualquer reconhecimento, nos negam qualquer participação na construção do Brasil"

Apesar da falta de equipe e tempo, tudo ali foi pensado em detalhes, desde a voz que dá vida ao poema de Conceição Evaristo, o jogo das imagens iniciais que nos guiam por uma reflexão forte, latente, até a música que encerra o filme e que carrega o mesmo nome que a mãe de Safira: Joana.

No Brasil, de acordo com dados do IBGE, mais de 54% da população é composta por pessoas negras ou pardas. Para Safira, é justamente neste seio que nasce a necessidade de se falar da temática central do curta: “Travessia precisa atravessar todo o racismo, o preconceito e encontrar esses olhares para que ocupemos esses lugares, para que essas famílias existam na sociedade e tomem seus espaços. Nos negam qualquer reconhecimento, nos negam qualquer participação na construção do Brasil, não está nos livros de história, não está em lugar algum”, frisa.

Mesmo com toda a carga intensa e necessária, a artista conta que se preocupou em trazer um pouco de leveza e esperança para quem assiste ao trabalho: “A reflexão é inevitável, mas era importante não deixar aquele amargo. Eu quis pensar nessa coisa de não só abrir a ferida, mas também de olhar para pessoas que além de se identificar com a história, se sensibilizaram com o outro momento do filme. Porque agora somos nós construindo novas narrativas, a partir do nosso olhar, ocupando este espaço”, explica Safira.

Travessia completa um ano passando por vários festivais e, mesmo com tão pouco tempo, já acumula vários prêmios como Melhor Curta-Metragem, pelo Júri Oficial do VIII Festival de Documentários de Cachoeira, na Bahia.

Empolgada, a diretora ainda revela o desejo de expandir o projeto para um longa-metragem: “Todo esse retorno me deu muito ânimo e força para entender a dimensão e a necessidade de explorar essa temática. Agora, a ideia é transformar Travessia em filme e, assim, abordar com profundidade essa temática. Se uma história precisa ser contada, que não seja através de um referencial branco, mas sim do nosso, protagonistas dessas memórias”.

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