Marcos Pontes, o astronauta brasileiro, quer te levar ao espaço em 2020

Agência de turismo espacial fundada por Pontes já tem vários clientes que pagaram US$ 250 mil para dar um voo suborbital.

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05 Abril 2018, 11:00am

Você já sabe onde vai passar as férias de 2020? Se ainda não definiu seu roteiro de viagem, o astronauta Marcos Pontes, o primeiro brasileiro a participar de uma missão espacial, tem uma sugestão: que tal fazer um voo suborbital? Pela módica quantia de US$ 250 mil (o equivalente a R$ 827 mil), você vai curtir 10 minutos no espaço, com gravidade zero, a 100 quilômetros de altitude, na área conhecida como “borda do espaço” – a título de comparação, um avião de passageiros voa a 10 quilômetros de altitude. “A médio e longo prazo, voos suborbitais serão tão rotineiros quanto uma ponte-aérea. No futuro, qualquer pessoa vai poder embarcar em São Paulo e desembarcar em Tóquio, em menos de 40 minutos. Mas, por enquanto, as passagens são caras porque a quantidade de combustível necessária para a propulsão é colossal!”, explica Marcos Palhares, o diretor comercial da agência de turismo que leva o nome do astronauta.

Até o momento, mais de 700 pessoas pelo mundo, dos 14 aos 75 anos, já garantiram seu lugar na fila. (A agência de Pontes não revela o número de brasileiros.) Mas, para se tornar um turista espacial, não basta desembolsar a pequena fortuna de US$ 250 mil à vista. É preciso passar por uma batelada de exames. “Não precisa ser atleta, mas tem que estar com a saúde em dia. Não queremos que ninguém passe mal lá em cima”, avisa Marcos Pontes, o diretor da agência. Por enquanto, a Virgin Galactic, do empresário britânico Richard Branson, de 67 anos, aguarda autorização das autoridades americanas para decolar. Assim que tudo estiver pronto, os candidatos terão duas semanas de treinamento para aprender, entre outras lições, como respirar corretamente, evitar movimentos bruscos e, o mais importante, não se esquecer de afivelar o cinto de segurança. “Quando você embarca em um voo comercial, não recebe instruções das comissárias de bordo antes da decolagem? Então, são instruções simples, mas essenciais de como agir numa situação de emergência”, compara Pontes.

Fundada em 2011, a agência de turismo espacial Marcos Pontes, a única no Brasil autorizada pela Virgin a vender voos suborbitais, tem outros pacotes, menos astronômicos, para quem sonha ser astronauta por um dia: conhecer o Cabo Canaveral, na Flórida, nos EUA, visitar a base espacial de Baikonur, no Cazaquistão – de onde decolou a nave russa Soyuz TMA-8 levando Pontes, em 2006 – ou, ainda, fazer uma simulação de gravidade zero a bordo de um Boeing 727-200, o G-Force One, na Califórnia. Na visita a Cabo Canaveral, o turista terá como guia o próprio Marcos Pontes. Pelo menos duas vezes por ano, ele recebe visitantes no Kennedy Space Center (KSC), na Flórida, o complexo turístico da NASA, a agência espacial norte-americana.

“Em geral, as pessoas querem saber como os astronautas comem, dormem e fazem xixi. Mas, já ouvi todo e qualquer tipo de pergunta: desde se existem ETs até se a Terra é plana (sim, ela é esférica!). Há quem queira saber até se dá para fazer sexo...”, entrega Pontes, antes de cair na gargalhada.

Nessas horas, Pontes procura explicar que, numa missão espacial, como aquela em que ele participou entre os dias 30 de março e 8 de abril de 2006, o astronauta tem tanta tarefa para executar na Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês) que a última coisa que lhe passa pela cabeça é... fazer sexo. Vejamos o exemplo dele. Nos dez dias em que participou da Missão Centenário – oito na ISS e dois a bordo da Soyuz –, trabalhou uma média de 18 horas por dia. Nas seis horas dedicadas ao descanso, aproveitava para tirar fotos (voltou para casa com mais de 2,2 mil no arquivo de sua máquina fotográfica), escrever para os filhos (as primeiras cartas deram origem ao livro É Possível – Como Transformar Seus Sonhos em Realidade, lançado em 2010) e dormir. “Tecnicamente, sou especialista de missão. Mas, popularmente falando, sou mecânico de espaçonave. Se algo der errado, sou eu quem conserta. Ou seja, você não tem um minutinho de folga lá em cima. É tudo cronometrado”, reitera o astronauta que, ao longo de oito dias na ISS, realizou oito experimentos científicos e fez três contatos com a Terra. “Todas as tarefas que recebi foram cumpridas.”

O clube mais fechado do mundo

Na lista de espera para embarcar na Space Ship Two (SS2), Marcos Palhares, de 45 anos, tem a senha de nº 462. Parece muito, mas é o primeiro brasileiro da fila. “Se tudo tivesse seguido o cronograma original, a era do turismo espacial teria começado lá atrás, em 2015. Mas uma falha em um dos testes, em 2014, obrigou que, por medidas de segurança, o processo fosse reiniciado”, explica Palhares, referindo-se à queda de um modelo de SS2 no deserto de Mojave, na Califórnia, em 31 de outubro daquele ano. No acidente, Michael Alsbury, o copiloto, morreu e Pete Siebold, o piloto, ficou ferido.

“A estimativa mais otimista agora é 2020”, arremata, sem conseguir disfarçar a ansiedade. Para quem dispõe de grana para conhecer o espaço, mas ainda não sabe se vai enjoar na viagem, Palhares dá uma dica: investir US$ 20 mil (cerca de R$ 66,7 mil) em um voo de caça supersônico. Em 2009, ele voou em um MIG-29, um dos mais potentes do planeta, e recomenda o passeio. A uma velocidade de 2 mil quilômetros por hora, quebrou a barreira do som. “A maior de todas as minhas aventuras até agora”, elege, sem titubear.

Marcos Palhares, com a bandeira do Brasil. Crédito: Arquivo pessoal

Quando voltar de seu tão sonhado voo espacial, Palhares vai integrar uma seletíssima galeria de turistas espaciais. São sete desde 2001 – o empresário americano Charles Simonyl, de 69 anos, gostou tanto da brincadeira que foi lá duas vezes: em março de 2007 e em março de 2009. O primeiro deles, o magnata americano Dennis Tito, de 77 anos, desembolsou a bagatela US$ 20 milhões para passar sete dias a bordo da espaçonave russa Soyuz TM-32. A cantora britânica de ópera, Sarah Brightman, de 57, até chegou a comprar sua passagem (por US$ 52 milhões!), mas, alegando “razões familiares”, adiou a viagem de dez dias que faria, em setembro de 2015, a ISS. Antes dela, o último “mortal” a se aventurar além da atmosfera terrestre foi o bilionário canadense Guy Laliberté, de 58 anos. O fundador do Cirque du Soleil regressou à Terra em outubro de 2009 depois de uma estadia de 11 dias no espaço.

O engenheiro paulista Reynaldo Ansarah, de 49 anos, já comprou dois pacotes: o voo suborbital (sua passagem é a de nº 739!) e uma visita guiada ao Star City, em Moscou, na Rússia, onde funciona o Centro de Treinamento de Cosmonautas Yuri Gagarin. “Sou o primeiro brasileiro a entrar na MIR, a réplica da Estação Espacial Russa que ficou na Terra para treinamento dos cosmonautas. Uma honra que antes só era permitida a chefes de Estado”, orgulha-se. Quanto ao voo orbital, é difícil prever quando será o dele. “Em 2019 ou 2020”, arrisca. O objetivo da Virgin é ter pelo menos cinco espaçonaves fazendo duas viagens por dia, com seis passageiros cada. “Não consigo nem imaginar como será a experiência. Às vezes, tento imaginar, mas só indo lá mesmo...”, diz Ansarah, um aficionado tanto por Guerra nas Estrelas quanto por Jornada nas Estrelas. Os voos partirão de uma plataforma de lançamento no Novo México, nos EUA.

O engenheiro paulista Reynaldo Ansarah já comprou sua passagem. Crédito: Arquivo pessoal

Próxima parada: Marte.

Desde 2016, Marcos Pontes não faz mais parte do Programa Espacial Brasileiro. Por essa razão, está liberado para voar por outros países. Convites, garante, não faltam. Já foi sondado pela SpaceX, companhia aeroespacial do bilionário sul-africano Elon Musk, e pela Bigelow, do empresário americano Robert Bigelow, para regressar ao espaço. Participar da colonização de Marte é algo que ele não descarta. “Já conversei com minha família e tomei minha decisão. Se me chamarem, a resposta é ‘sim’”, garante.

Embora seja o único planeta do nosso Sistema Solar em condições minimamente habitáveis, tem lá seus desafios. O maior deles? Os altos níveis de radiação. Pontes aponta outros: a perda de densidade óssea, a escassez de água e comida, e o pouso na superfície de Marte. “As chances de as primeiras equipes regressarem à Terra são baixíssimas”, confessa.

E Reynaldo Ansarah? O que o intrépido aventureiro diria se fosse convocado para desbravar o Planeta Vermelho? “Se fosse uma viagem de seis meses para a Lua, iria até de cozinheiro. Mas, viajar para Marte, uma viagem que deve levar em torno de três anos, incluindo ida e volta? Desconfio que não”, responde.

Indagado sobre o porquê de sua recusa, faz graça: não saberia viver sem churrasco e cerveja. Brincadeiras à parte, ressalva que “o problema maior seria o próprio ser humano”. “Conviver com pessoas ‘estranhas e diferentes’ por um período tão longo não deve ser nada fácil”, observa.

A história relata que a viagem nem precisa ser assim tão longa para despertar sentimentos hostis na tripulação. Em 2000, dois cosmonautas russos – que participavam de uma simulação de confinamento de 110 dias com outros seis astronautas – tiveram um surto e saíram na porrada. Os nomes dos brigões, por motivos óbvios, foram mantidos em sigilo pela Roscosmos, a NASA russa.

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