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Fotos íntimas dos Ramones durante os primórdios do punk

Quando Danny Fields descobriu os Ramones, ele passou cinco anos sendo o empresário da banda e fotografando seus rolês.

por Miss Rosen; Traduzido por Marina Schnoor
25 Abril 2018, 1:00pm

Matéria originalmente publicada na VICE US.

O punk rock podia nem existir se não fosse por Danny Fields. Nascido no Queens, o lendário magnata da música passou os anos 60 em East Village, andando com gente como Andy Warhol e outros astros da cena. Ele apresentou bandas como o Velvet Underground enquanto trabalhava como apresentador da rádio WFMU, fez publicidade pro Doors e Stooges, e, nos anos 70, escreveu uma coluna influente pro Soho Weekly News. Fields também foi o cara que descobriu os Ramones.

Em 1975, a banda implorou para Fields ve-los tocarem no CBGB, e ele ficou instantaneamente enamorado. Os Ramones queriam que Fields escrevesse sobre eles — em vez disso, ele decidiu se tornar o empresário da banda. Ele passou os cinco anos seguintes fechando contratos de discos, arranjando a filmagem do primeiro vídeo da banda, e marcando suas primeiras turnês, incluindo uma viagem pra Inglaterra para tocar com Sex Pistols, The Clash e Damned.

Cinco anos depois, sedentos pelo estrelato, os Ramones demitiram Fields e contrataram Phil Spector, o empresário que apontou uma arma para Johnny Ramone e mandou ele tocar um riff várias vezes seguidas. Mas durante sua época, Fields documentou meticulosamente a ascensão da banda, juntando um arquivo inacreditável de fotos dos primeiros anos do grupo. Em 2016, Fields lançou uma coleção dessas imagens como um livro de fotos de edição limitada. My Ramones (Reel Art Press) finalmente será republicado e vai ganhar um lançamento maior ainda.

A VICE se encontrou recentemente com Fields para falar sobre como era empresariar os Ramones em seus anos mais selvagens.

Ramones ao vivo no Phase V. © Danny Fields / Reel Art Press.

VICE: Você pode descrever como era a cena no CBGB em 1975?
Danny Fields: Era uma confluência de talentos melódicos e líricos, e havia esse desejo de ser diferente. Você era inspirado a levar isso além e Nova York era um bom lugar para fazer isso. O CBGB ficava no térreo de um hotel barato em Bowery. Era um bar longo, escuro e estreito que tinha aberto recentemente pro nosso pessoal [que frequentava] a sala dos fundos do Max's Kansas City.

Os grandes heróis de Nova York eram as pessoas que inventavam lugares bacanas pras pessoas irem. Hilly Kramer, o dono do CBGB, era um compositor e cantor country que tinha gravado alguns discos. Ele tinha um bom ouvido para música. E o CBGB era incrivelmente acústico. Você se sentia dentro de uma guitarra.

Não deixaram o Johnny Ramone entrar no Max's uma vez e ele nunca perdoou os caras. Foi o começo da guerra de classes, e você via a ascensão de um produto de uma classe trabalhadora feroz que era insano e sensacional. Eu diria isso sobre eles na época? Não. Se você me pedisse para descrevê-los então, eu diria que eles eram rock n' roll. Os Ramones estavam perturbando com uma atitude excelente.

Ramones tocando no The Club em Cambridge. © Danny Fields / Reel Art Press.

Como você conheceu os Ramones?
Fui ao CBGB porque o Tommy Ramone me implorou para assistir a banda; eles queriam que eu mencionasse eles na minha coluna semanal no Soho Weekly News. Eles eram insistentes e não liguei muito porque respeitava pessoas que não recuavam e iam atrás do que queriam.

Eu disse ao Tommy que iria ao show. Eu disse oi antes deles tocarem e disse que os encontraria depois do show na frente do clube. Eles tocaram e eu pensei “Uau, essa banda é perfeita. É incrível. Adorei. Mais alto! Mais alto! Mais rápido! Mais rápido!

Gravando o primeiro disco do Ramones. © Danny Fields / Reel Art Press.

O primeiro disco deles soa muito singular, especialmente comparando com seus últimos álbuns ao vivo. Eles eram um quarteto do acaso — mas estavam começando com consciência de apresentação. Eles pensaram em tudo. Eles pareciam todos iguais e tinham o mesmo sobrenome. Os caras tocando guitarra tinham o mesmo corte de cabelo. Eles se vestiam impecavelmente com as mesmas roupas que se tornariam seu uniforme. Eles eram indivíduos mas tinham um senso de grupo que era perfeito.

Ramones no CBGB, fotografados em Kodachrome. © Danny Fields / Reel Art Press.

Então, voltando à história: 12 minutos depois, eles tinham tocado 17 músicas e nos encontramos na calçada na frente do clube. Eles perguntaram “Você gostou?” Eles eram muito diretos. Eu disse que tinha gostado muito. Eles perguntaram se eu ia escrever sobre eles e eu disse, “Sim, vou escrever sobre vocês e mais, quero ser o seu empresário”.

Aí o Johnny disse, “Precisamos de três mil dólares para uma bateria”. [Risos] Eles acharam que eu daria dinheiro a eles, o que não era um grande problema. Então, fui pra Flórida e pedi o dinheiro pra minha mãe. Ele assinou o cheque e disse, “Espero que você saiba o que está fazendo”.

Joey nos degraus da Roundhouse. © Danny Fields / Reel Art Press.

Como era a personalidade individual de cada membro original?
Johnny queria deixar de ser um pedreiro que casou cedo e — como ele diz na sua biografia — ser o tipo de pessoa que joga um tijolo numa vitrine enquanto anda pela rua. Um dia ele parou e decidiu que queria fazer algo da vida, ser famoso, ser bom e não machucar mais estranhos.

Joey era o mais quieto de todos e quase nunca falava. Ele não queria cantar nessa época. Ele era um nerd no universo onde estava. Para ele, ficar lá parado na frente de um monte de gente e fazer o que ele fazia era incrivelmente corajoso. Fiquei espantado com o senso de humor dele e sua habilidade em zombar, ridicularizar e repudiar. Uma risada dele mandava as pessoas direto pra guilhotina. Eu sempre ficava um pouco nervoso perto dele.

Dee Dee com sua guitarra Rickenbacker. © Danny Fields / Reel Art Press.

O Dee Dee era o mais social. Ele morou comigo e queria que eu conhecesse outros músicos em outras bandas — e nenhum dos outros se importava com isso. Eles só queriam conhecer garotas, mas o Dee Dee queria participar da cena e ser um rockstar.

O Tommy era o mais tímido, mais estudado e mais consciente do que estava acontecendo na arte, nos filmes e na vanguarda. O Ramones era a banda do Tommy desde o começo — ele e o Johnny cuidavam da música, e ele e o Arturo Vega pensaram no visual. O Tommy não gostava de tocar pro público e preferia uma vida mais discreta criada de um jeito diferente. Ele saiu da banda em 78.

Ramones em Park Lane, durante um passeio guiado numa manhã em Londres. © Danny Fields / Reel Art Press.

Você pode falar sobre algumas das tensões no grupo?
Eles nunca se deram bem — eles se odiavam, na verdade. Eles eram diferentes e sempre brigavam. E faziam isso abertamente, mas não na frente de estranhos. Depois do show, eles se trancavam no camarim. Eu tinha que ficar na porta, porque os VIPs queriam entrar, e eu dizia “Eles estão relaxando”.

Eles estavam lá dentro e você podia ouvir o Johnny socando o Dee Dee e empurrando ele na parede porque ele tinha perdido a abertura por 64 milésimos de segundo ou algo assim. Ele gritava muito. Depois eles tomavam uma cerveja, alguém abria a porta e me dizia, “OK, pode deixar as pessoas entrarem”. E eles estavam sentados lá normalmente. O sangue já tinha secado [risos] e eles estavam prontos para receber as pessoas.

A gravação do primeiro vídeo dos Ramones no estúdio de TV M.P.C. O vídeo tinha oito músicas em 17 minutos e meio e nunca foi lançado oficialmente. © Danny Fields / Reel Art Press.

O mais importante era que os fãs que ficavam esperando na boca do palco — o Johnny sabia que esses eram os fãs que trariam outros fãs com eles. Ele dizia para não começar o show enquanto ele não falasse com cada pessoa que estava tentando conseguir um autógrafo.

Ramones em 1977 tocando no show de Ano Novo no Rainbow Theatre de Londres. © Danny Fields / Reel Art Press.

Por que você saiu?
Eles me demitiram. Eles não tinham vendido muitos discos. Todos eles achavam que suas músicas eram tão boas que eles venderiam milhões de discos nos primeiros seis meses, e que depois de três anos eles estariam ricos e poderiam se aposentar, o que começou a parecer bem improvável logo de cara. Mas fui empresário deles só nos primeiros cinco anos.

Fico chateado de não estar no barco quando eles começaram a fazer shows em estádios para 80 mil pessoas, pensando agora. Na Argentina, a polícia teve que fazer um cordão de isolamento no bairro onde eles estavam ficando porque a multidão estava ensandecida. Nunca pude ver isso. Só voltei a falar com eles depois que o Joey morreu.

Ramones tocando na Roundhouse © Danny Fields / Reel Art Press.

Como você descreveria o legado deles?
Eles pararam de tocar, mas continuaram sendo os Ramones até morrerem. Eles inspiraram outras bandas da mesma forma como o Velvet Underground, o Stooges e o New York Dolls os inspiraram antes. Os Dolls não tocavam nada e era uma inspiração saber que você não precisava ser o Eric Clapton ou o Eddie Van Halen para ter uma banda. Era só tentar fazer um barulho novo que você queria ouvir.

Eles nunca tiveram um grande sucesso. O primeiro álbum deles levou 38 anos para conseguir um disco de ouro. Comparando com o sonho deles de se aposentar em três anos, a coisa foi bem diferente. Mas tenho que dar o crédito a eles. Anos depois, eles ficaram extremamente ricos com seus comerciais de TV: “Hey! Ho! Let's Go!” É algo melódico, direto e rápido. É um hino e algumas pessoas nem sabem de onde isso veio.

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