“Tenho um relacionamento amoroso com a maconha”, uma entrevista com Mercedes Ponce

Uma das idealizadores do Expocannabis Uruguay fala sobre a regulamentação da erva, explica como a feira funciona e aponta caminhos para a indústria da Cannabis.

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dez 8 2017, 12:00pm

Conteúdo possibilitado pela parceria com a Bem Bolado.

Tem início nesta sexta (8), em Montevidéu, a 4ª edição da Expocannabis Uruguay, um evento em que políticos, cientistas e empreendedores, usuários e produtores falam sobre o uso recreativo, terapêutico e medicinal da Cannabis.

Mercedes Ponce de Leon, 33 anos, é a porta-voz da feira e ativista da maconha em tempo integral. Desde 2004, ela faz parte da luta pela legalização da maconha, tendo passado por diversos países onde a regulamentação aconteceu das formas mais variadas - como a Espanha, Holanda, Estados Unidos e o Marrocos.

Como uma das idealizadoras da Expocannabis, Mercedes me falou um pouco de sua trajetória no ramo da maconha e como tem sido a organização da feira desde a sua concepção em 2014. Saque a entrevista abaixo:

VICE: Quais lugares você visitou para pesquisar sobre a regulamentação e quais foram as suas impressões?
Mercedes Ponce de Leon: Eu viajei por todo o mundo investigando o vínculo entre diferentes sociedades com a cananbis. Viajei pela Holanda, Espanha, Marrocos, África do Noroeste, América Latina e foi nos EUA onde me especializei e comecei a trabalhar na indústria de Cannabis Medicinal, especificamente na Califórnia em 2008. Em diferentes países, aprendemos diferentes formas de vínculo com a planta. Na Califórnia havia uma plataforma industrial muito interessante baseada em pequenos produtores familiares e com uma qualidade de produto muito superior ao que eles conheciam e, em sua maioria, orgânicos.

E você teve embates com a polícia em alguma dessas vezes?
Nunca.

Qual dos modelos de regulamentação da Cannabis ao redor do mundo você considera a mais progressista?
Sem dúvidas é o uruguaio, não existe outro tão progressista. Até mesmo os muitos regulamentos que surgiram depois da regulamentação, eu tomo como um sinal de que estamos no caminho certo. Eu espero que o Uruguai aproveite esta lei tão rica.

Então você considera o modelo uruguaio exemplar?
A lei me parece exemplar, sem dúvidas. A implementação não tem sido tão excelente quanto a lei, ela tem sido muito lenta em questões de suprema importância que avaliamos hoje e sofremos as consequências. Também estamos trabalhando e avançando, então esperamos que as diferentes áreas sejam desenvolvidas cada vez mais.

Como você tem visto a implementação da maconha em farmácias no Uruguai?
Muito positiva. Começou com 5.000 registrados e, em uma semana de venda, esse número multiplicou para 10.000, o potencial é muito alto. O problema dos bancos causou a queda da taxa de inscrição, no entanto, quando tudo era petróleo, cada vez mais gente se dirigia para a farmácia. Hoje são mais de 16.500 inscritos. A maconha da farmácia é uma excelente escolha, de boa qualidade, segura e barata.

Como pensa a sociedade uruguaia?
Cada dia se aceita mais e mais, os preconceitos diminuem constantemente. Já se passaram 4 anos desde a regulamentação e não foi uma catástrofe, não causou uma insegurança terrível, não mataram nem roubaram os farmacêuticos. Toda a instabilidade e o medo que quiseram promover se provaram sem fundamento. As pessoas estão mais abertas ao tema medicinal e ao industrial. É como se de repente tivesse virado moda.

E a Expocannabis, como surgiu?
A partir do momento em que houve a regulamentação de cannabis no Uruguai, foi necessário gerar uma plataforma de informação séria, que contribua com insumos na sociedade sobre os Cannabis, mas ao mesmo tempo promove a desestigmação da planta e, principalmente, dos usuários. No Uruguai houve uma falta real de conhecimento do potencial medicinal da planta e do cânhamo industrial, então surgiu uma necessidade quase natural de fazer um evento que seja uma ferramenta de articulação da indústria.

A Expoxannabis é o único evento de cannabis no mundo com declarações de interesses Ministeriais, apoio institucional e participação do governo e do setor público. Ela busca promover e informar sobre a regulamentação de cannabis e normalizar a sua implementação, assim também como criar uma plataforma de negócios para o desenvolvimento do setor.

Quais foram os momentos mais memoráveis das últimas edições?
Todas as Expo são diferentes e têm seus grandes momentos. Acontece uma grande sinergia entre o público, as bandas de música, o lindo ambiente nos stands e, sem dúvidas, há momentos magistrais na sala de conferências. Especialmente nos fóruns de debate em que o público participa. Tivemos momentos de grande agito e visitas muito importantes, como a de Andrew Tosh, que um dia visitou a Expocannabis e disse publicamente que seu pai, Peter Tosh, adoraria fumar um em um evento como esse, no primeiro país do mundo com uma legalização total. Naquele momento todo mundo arrepiou.

O formato do evento hoje segue a proposta original?
Desde o começo, o evento tem uma sólida base estrutural e sempre estamos adicionando elementos a isso. Ele evoluiu muito desde 2014 e surgiram novos espaços. Por exemplo, em 2015 nasceu o Consultório de Orientação em Cannabis Medicial, com atendimentos feitos por médicos especialistas profissionais em cannabis. Qualquer visitante pode fazer uma consulta individual com eles, gratuitamente. Também esse ano nasce a Tenda do Cultivo, que é uma tenda dedicada aos workshops durante todo o evento. E teremos entretenimentos para adultos que serão muito divertidos!

Quais as expectativas para o evento desse ano?
Esperamos muitas pessoas da região e convidamos todos os estrangeiros a conhecer o regulamento e a indústria local.

Teremos shows de grandes artistas e apostamos em conferências e em um fórum de alto nível. Na sexta-feira, o Fórum Político apresenta algo único, uma mesa de discussão entre representantes dos 4 partidos políticos mais importantes do país para discutir os desafios desse regulamento.

Como o se deu o envolvimento do governo do Uruguai no evento?
Desde o começo nós nos propusemos a montar o evento alinhado com a regulamentação. Nos pareceu fundamental que, em um país regulado, os eventos de cannabis tomem voo e prestígio, como em qualquer setor. A presença do Estado faz com que o regulamento funcione in loco. O stand do IRCCA (Instituto de Regulamentação e Controle da Cannabis) estará junto aos correios no evento, e lá as pessoas poderão se registrar para serem auto-cultivadores ou compradores na farmácia.

Também contribuindo nos conteúdos do evento, temos representantes da IRCCA, JND (Junta Nacional de Drogas) e diferentes ministérios que oferecem conferências todos os anos.

Este ano participam, em representação do governo: o Pro Secretário da Presidência e Presidente da Junta Nacional de Drogas, três deputados e o Gerente Geral do IRCCA.

Eu li que você fuma maconha diariamente desde os 18 anos. Você considera esse uso medicinal ou recreativo?
Eu sou, sem dúvidas, uma usuária recreativa. Ao longo dos anos, o meu uso tem se tornado mais terapêutico do que qualquer outra coisa. Cannabis me faz bem, me relaxa, me tira o stress e a ansiedade.

Em uma entrevista você disse que tem fases de amor pela maconha. Como são essas fases?
Eu tenho estágios de amor para tudo! Eu vivo apaixonada! A planta é um ser vivo, eu a cultivo, cuido dela, faço a colheita e a consumo. Claro que tenho um relacionamento amoroso com ela. Ela me deu muita vida e estarei eternamente grata. É minha motivação para trabalhar nesta indústria.

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