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O Lollapalooza ajuda a contar a história da música jovem nas últimas décadas

Uma análise do festival desde 1991 mostra como o lineup antecipou e acompanhou os rumos do pop.

por Beatriz Moura
21 Dezembro 2018, 8:30pm

Foto: Divulgação / I Hate Flash

O Lollapalooza nasceu como um festival de música alternativa. Criado em 1991 pelo frontman do Jane’s Addiction, Perry Farrell, como uma turnê de despedida para a banda, o Lolla se tornou um espaço de estruturação para a cena musical underground estadunidense durante sua primeira fase, até 1997.

A época era oportuna. Depois de uma década fervilhando em buracos pelo país, esse movimentou acabara de estourar para o mainstream, encabeçado pelo Nirvana e o grundo de Seattle. Na esteira e misturado no balaio da ainda relevante MTV, vinha o rap, que já tinha saído do Bronx (NY) e invadido a Costa Oeste do país.


Inspirado pelo festival Gathering of the Tribes, a primeira edição do Lolla passou pelos Estados Unidos e Canadá entre julho e agosto de 1991. Estavam no lineup daquele ano Nine Inch Nails, Living Colour, Ice T, entre outros.

De 1992 até 1996, nomes como Red Hot Chili Peppers, Ice Cube, Soundgarden, The Jesus and Mary Chain, Pearl Jam, Rage Against The Machine, Snoop Dogg (na épca Snoop Doggy Dogg) Cypress Hill, Tool, Dinosaur Jr., Orbital, The Prodigy, Alice In Chains, George Clinton e Sonic Youth se apresentaram no festival, que cresceu junto a popularidade do rock alternativo.

Um dos headliners de 1994, inclusive, era para ter sido o Nirvana, principal representante do grunge, que cancelou a participação no festival quatro dias antes do suicídio de Kurt Cobain.

Ao mesmo tempo, e de forma espontânea, o Lollapalooza já se adiantava ao conceito de um evento de experiência, com atrações de circo e apresentações de monges Shaolin.


No entanto, conforme a virada do milênio se aproximava, o panorama musical mudou. Na MTV, que ajudou a popularizar as bandas que tocavam no Lolla, o pop retornava com força. Junto ao declínio do rock alternativo, Farrel se irritou com a presença do Metallica no lineup do evento em 1996, porque ele defendia que o festival era “contra essas baboseiras de rock mainstream e cabelo de metaleiro”. O resultado foi o fim do Lollapalooza em 1997.

Só em 2005, quando Farrell resolve retomar a produção do evento, é que o Lollapalooza assume o formato que nós conhecemos hoje: dois (ou três) dias de shows, com várias atrações espalhadas em diversos palcos, acontecendo numa cidade fixa.

No caso estadunidense, o local escolhido foi Chicago. A primeira edição após a pausa trouxe bandas como Pixies, Kasabian, The Killers, Arcade Fire, Kaiser Chiefs, The Black Keys e Death Cab for Cutie. A velha guarda estava garantida, mas ganhavam espaço os nomes do renascimento do rock nos anos 2000.


Artistas de outros gêneros, principalmente do rap, como Kanye West -- que tocou no festival em 2008, antes de entrar na sua fase megalomaníaca com o lançamento do My Beautiful Dark Twisted Fantasy (2010) —, do pop, como Lady Gaga — que se apresentou pela primeira vez em 2007, antes de estourar nas paradas de rádio com os singles de seu disco de estreia, The Fame (2008) —, tinham espaço no Lolla, mas o indie-rock, o pós-grunge e outras ramificações do rock alternativo desenharam a cara do festival até mais ou menos os anos 2010.

O Lollapalooza Brasil herdou um pouco deste clima indie da versão gringa. Isso ficou mais em evidência quando, em 2012, entre os headliners da primeira edição brasileira estava o Arctic Monkeys, uma das principais bandas favoritas entre a juventude alternativa da época.


No começo dos anos 2010, década em que o hip-hop finalmente superou o rock como o gênero mais consumido nos Estados Unidos, as guitarras foram cedendo espaço para as pick-ups e rimas dos rappers no processo de escalação dos artistas no festival. Essa tendência também chegou ao Brasil — tanto que teremos Kendrick Lamar como uma das atrações principais. Além disso, tivemos Eminem, Chance, The Rapper e Pharrell Willians entre os headliners de anos anteriores.

Mais do que acompanhar as novas tendências da música alternativa no Brasil e no mundo, o Lollapalooza é quase uma ferramenta de legitimação de o que é o não música jovem hoje em dia. Principalmente por aqui, onde o festival é o único do porte dedicado a trazer uma programação nacional e internacional que mantém um diálogo com o que está rolando de mais fresco e criativo na esfera musical contemporânea.


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