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Tudo que sabemos sobre o "supremacista homem" que atacou um estúdio de ioga na Flórida

Duas pessoas morreram e várias foram feridas por um veterano do exército com um histórico de violência contra mulheres e discurso de ódio na internet.

por Allie Conti; Traduzido por Marina Schnoor
06 Novembro 2018, 8:06pm

Esquerda: Scott Paul Beierle, cortesia Gabinete do Xerife de Leon County. Direita: Imagem depois do atentado na sexta. (Foto por Mark Wallheiser/Getty Images.) 

Na noite da última sexta (2), um homem entrou num estúdio de hot ioga na capital da Flórida, Tallahassee, se passando por um possível cliente. Logo depois ele abriu fogo, matando duas mulheres — uma estudante e uma professora de medicina — e feriu várias outras pessoas, incluindo um homem que tentou parar o massacre com uma vassoura e levou uma coronhada, segundo a polícia. Depois que se matou, o atirador foi identificado como Scott Paul Beierle, um homem de 40 anos que deixou registradas várias de suas reflexões cheias de ódio.

Antes de acelerar uma van contra uma multidão em Toronto em abril passado, matando dez pessoas, o motorista, Alek Minassian, sugeriu no Facebook que estava cometendo um ato da “rebelião incel”. Embora Beierle aparentemente não tenha se descrito usando o termo — uma abreviação de “celibatário involuntário” — em vídeos na internet ele menciona em certo ponto que se identificava com Elliott Roger, que se tornou um anti-herói nos cantos sombrios dessa subcultura depois de matar seis pessoas em Isla Vista, Califórnia. Kegan Hankes, um analista pesquisador do Southern Poverty Law Center, disse que a referência indica que ele nutria um ressentimento específico que se alinha mais com o movimento de “supremacia dos homens”, mesmo que suas visões também incluíssem racismo e outros tipos de ódio.

“Claramente ele era familiarizado com esses espaços e ideias, e nutriu isso por um longo tempo”, me disse Hankes. “Não acho que podemos dizer que ele se identificava como um 'incel', mas ele passou tempo documentando suas crenças, e elas são cheias de tropos familiares para quem acompanha o movimento de supremacia dos homens, como o 'fardo da virgindade' e a 'traição coletiva das mulheres' — uma linguagem horrível e desumanizadora que claramente o infestou.”

Além desses vídeos, Beirerle deixou para trás um grupo de pessoas que nunca tiveram certeza se seu comportamento errático — e às vezes aterrorizante — era suficiente para levar a questão para as autoridades. Como os adesivos na van do suposto terrorista das bombas enviadas pelo correio, alguns dos vídeos dele pareciam ficar na linha tênue de ser uma “verdadeira ameaça” sem cruzá-la. Mas no caso de Beirerle, já havia um histórico de violência contra mulheres que realmente cruzava essa linha, e levantou questões sobre quando e como as autoridades devem intervir sobre homens perigosos.

Beierle fez bacharelado na Universidade do Estado de Nova York em Binghamton e deu aulas no ensino médio de inglês e estudos sociais em Maryland de 2005 a 2007 até se demitir, segundo o WTOP. Ele serviu o exército e se mudou para Tallahassee para fazer mestrado em planejamento na Universidade do Estado da Flórida, que ele terminou em 2013. Conhecidos dessa época disseram a Associated Press que Beierle parecia “irritado” e “estranho”, e que as pessoas tentavam evitá-lo.

Colegas de dormitório também tentavam manter distância. Ele mostrava uma falta de consideração com os outros, como se recusar a vestir uma calça quando amigos dos colegas visitavam, e possivelmente sinais de stress pós-traumático, como gritar durante o sono. Tudo isso rendia uma situação de coabitação desagradável, mas não o suficiente para ligar para o 911. “Ele era esquisito e deixava todo mundo desconfortável”, disse uma mulher que dividiu um apartamento com ele em 2011 ao Tallahassee Democrat. “Na época fiquei preocupada. Mas não havia provas suficientes, e eu faria a polícia perder tempo se fizesse qualquer tipo de queixa. Eu não tinha nada.”

A colega de apartamento também disse que ela e as amigas se referiam a Beierle em particular como “Ted Bundy”, e não o deixava sozinho com convidadas pelas tendências dele de fazer comentários inapropriados e ser escroto com mulheres. E esse medo aparentemente tinha fundamento: no ano seguinte, Beierle foi preso por agarrar a bunda de uma mulher na cantina do campus. Em 2014, ele foi proibido de entrar no campus da UEF por supostamente seguir uma treinadora de vôlei. Novamente ele foi acusado de agarrar a bunda de outra mulher numa piscina em 2016. (No caso do primeiro incidente, a acusação foi arquivada, e no último, Beierle evitou ser processado através de intervenção prejulgamento.)

Beierle também incomodou mais recentemente quando trabalhou como professor substituto no centro da Flórida — um emprego que ele conseguiu de algum jeito depois de passar por checagem de antecedentes federal e estadual, e por um processo de contratação que um porta-voz das Escolas de Volusia County chamou de “rigoroso”. Estudantes entrevistados pelo Democrat disseram que ele muitas vezes não tinha expressão e dormia na classe. Eles também o descreveram como alguém que tinha uma “aura estranha” e parecia não se importar muito com os alunos sob seus cuidados. Ele acabou sendo demitido em maio, segundo um arquivo de funcionários obtido pela WFTV, depois de perguntar a uma aluna se ela sentia cócegas e tocar na barriga dela.

Vizinhos de Beierle em Deltona, nordeste de Orlando, disseram que quase não o viam. Mas Beierle tinha uma história de se entreter fazendo vídeos cheios de ódio e racistas com nomes como “Dreads São o Mullet dos Negros”. Em outro vídeo chamado “O Renascimento da Minha Misoginia”, ele reclama sobre uma lista de mulheres que o humilharam, similar ao que Roger fez em seu longo manifesto “Meu Mundo Distorcido”.

As duas pessoas mortas no atentado na sexta eram mulheres: Nancy Van Vessem, de 61 anos, era médica e professora na UEF, e Maura Binkley, de 21, era uma universitária que deveria ser formar em maio.

Numa declaração ao Buzzfeed, que primeiro descobriu a existência dos vídeos, um porta-voz do YouTube sugeriu que o conteúdo de Beierle voou abaixo do radar deles porque ele só tinha 3 assinantes. Ainda não está claro se as pessoas morando com ele, assistindo suas aulas ou frequentando a faculdade com ele poderiam ter feito algo para intervir antes do atentado.

“Você não quer acidentalmente ter um papel no processo de radicalização deles os abordando cedo demais e os empurrando mais para dentro da subcultura”, Hankes me disse. “Por outro lado, com alguns dos casos passados essa parece ser uma escalada progressiva. Essa é a questão de um milhão de dólares quando se trata de terrorismo doméstico.”

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Matéria originalmente publicada na VICE US.

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