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Tudo que sabemos sobre o míssil nuclear russo “Skyfall” e sua misteriosa explosão

A arma que já foi chamada pelo presidente russo Vladimir Putin de “invencível” é suspeita de ter causado um dos piores acidentes nucleares desde Chernobyl.

por Greg Walters; Traduzido por Marina Schnoor
16 Agosto 2019, 6:32pm

Screenshot da emissora russa RU-RTR de 1º de março de 2018, que mostrava o lançamento do que o presidente Vladimir Putin dizia ser um novo míssil de cruzeiro intercontinental a energia nuclear. (Emissora russa RU-RTR via YouTube.)

Uma misteriosa explosão no norte da Rússia, que matou sete pessoas na quinta-feira passada, está sendo ligada por especialistas ocidentais a um teste fracassado de um protótipo de míssil de cruzeiro movido a energia nuclear.

Agora, o sistema de armas que já foi chamado pelo presidente russo Vladimir Putin de “invencível” é suspeito de ter causado um dos piores acidentes nucleares na ex-União Soviética desde o desastre muito maior de Chernobyl nos anos 1980.

“Todas as evidências apontam para uma explosão de um míssil de cruzeiro movido a energia nuclear”, disse David Cullen, diretor do Serviço de Informação Nuclear do Reino Unido, a VICE News.

Oficiais russos admitiram que cinco cientistas “heróis nacionais” morreram testando um motor de energia nuclear, e relatórios sobre aumento dos níveis de radiação na área desencadearam uma corrida local por iodo, que é usado para tratar exposição a radioatividade.

Mas a liberação lenta de informação por burocratas russos está aumentando preocupações de que o incidente pode ter sido ainda pior do que os oficiais estão dispostos a admitir.

Enquanto os detalhes emergem, aqui vai o que sabemos sobre o acidente, e sobre o sistema de mísseis que o causou, apelidado de “SSC-X9 Skyfall” pelos EUA e seus aliados da OTAN.

Explosão misteriosa

O Departamento de Defesa da Rússia foi o primeiro a divulgar uma declaração breve dizendo que dois de seus funcionários tinham morrido testando um sistema propulsor líquido.

Mas o monopólio nuclear do país, o Rosatom, admitiu durante o final da semana que cinco de seus funcionários também morreram “durante testes com um sistema propulsor líquido envolvendo isótopos numa instalação militar”. Pelo menos três outras pessoas foram hospitalizadas.

A explosão ocorreu numa plataforma na costa da região de Arkhangelsk próxima do círculo ártico, disse a Rosatom.

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Nesta imagem tirada de uma filmagem fornecida pelo serviço de imprensa da Corporação de Energia Atômica Estatal russa Rosatom, uma banda militar se prepara para tocar no funeral de cinco engenheiros nucleares mortos por uma explosão de foguete em Sarov, uma cidade 370 quilômetros a leste de Moscou, que serve como base do programa de armas nucleares da Rússia desde o final dos anos 1940. 12 de agosto de 2019. (Corporação de Energia Atômica Estatal Russa Rosatom via AP.))

Vyacheslav Solovyov, cientista diretor do Centro Nuclear Federal russo, chamou as mortes de “uma perda amarga para todo nosso instituto”, numa entrevista em vídeo para um jornal local, e disse que os pesquisadores estavam estudando “fontes de energia de menor escala com uso de materiais de fissão”.

Alexei Likhachev, CEO da Rosatom, falando no funeral dos cientistas na segunda-feira na cidade de Sarov, disse que os homens “morreram tragicamente enquanto testavam um novo dispositivo especial”.

A cidade próxima de Severodvinsk (população 185 mil pessoas) anunciou um pico de “curto prazo” nos níveis de radiação imediatamente depois do incidente na quinta-feira. Mas a postagem no site municipal foi deletada no dia seguinte.

O Greenpeace disse que dados coletados pelo Ministério de Emergência russo mostravam um pico 20 vezes mais alto que o normal de radiação em Severodvinsk, e exigiu que as autoridades russas liberem mais informação sobre se os moradores locais encaram alguma ameaça para sua saúde.

O país vizinho, Noruega, tem seu próprio monitoramento de radiação, mas até agora não detectou nenhum aumento em seu próprio território.

Skyfall: um míssil de alcance ilimitado

A explicação mais provável parece ser que um dos novos mísseis de cruzeiro russos a energia nuclear explodiu na plataforma de lançamento, dizem especialistas ocidentais.

O próprio Putin revelou o programa em 2018, no meio de sua campanha de reeleição, com aplausos estrondosos de uma sala cheia com a elite russa.

Projetado para ter um alcance “ilimitado”, o míssil de cruzeiro impulsionado por um reator nuclear em miniatura a bordo teoricamente poderia voar por dias em padrões de circuito próximo da superfície da Terra, tornando incrivelmente difícil derrubá-lo com os sistemas antimíssil existentes.

Países da OTAN apelidaram o míssil de “SSC-X-9 Skyfall”. A Rússia chama a arma de “Burevestnik”, o nome de um pássaro que os marinheiros diziam ser um presságio de tempestade.

O Ministério da Defesa russo fez um concurso na internet para batizar o míssil ano passado, com “Burevestnik” ganhando por pouco de outro favorito do público: “A Surpresa”.

Propulsão nuclear daria ao projétil uma grande vantagem em alcance comparado com um míssil de cruzeiro abastecido por combustível tradicional, que geralmente pode atingir perto de 1.600 quilômetros.

O próprio Putin mostrou um vídeo do míssil voando em zigue-zague ao redor de montanhas e sistemas antimíssil, e desviando pela ponta sul da América do Sul.

Mas especialistas em armas estão céticos de que a Rússia pode realmente fazer um sistema tão complexo funcionar.

Ceticismo nos EUA

Um relatório da inteligência americana do ano passado sobre os primeiros testes revelaram que o suposto alcance “ilimitado” tinha atingido a distância bem menos impressionante de 35 quilômetros até agora, e que quatro de quatro testes tinham falhado.

O exército americano já tentou criar sua própria versão de um míssil de cruzeiro a energia nuclear, mas desistiu da ideia por ser muito perigosa. Parcialmente devido a uma falha-chave de design: o motor soltava uma descarga radioativa.

Isso significava que um míssil assim poderia deixar um perigoso rastro radioativo por toda sua rota de voo.

“Suspeito que os russos estão chegando num beco sem saída de desenvolvimento”, disse Ankit Panda, especialista do Defense Posture Project da Federação Americana de Cientistas. “Os EUA tentou fazer propulsão nuclear para mísseis de cruzeiro funcionar, e rapidamente descobrimos as imensas armadilhas.”

Os EUA está aprendendo muito com a explosão do míssil fracassado na Rússia. Temos tecnologia similar, mas mais avançada. A explosão do 'Skyfall' russo deixou as pessoas preocupadas com o ar ao redor da instalação e além. Nada bom!”

O incidente da quinta passada é apenas o último de uma série de acidentes militares sérios na Rússia.

Dias antes, um depósito militar com 40 mil projéteis explodiu espetacularmente na cidade siberiana de Achinsk, provocando a evacuação de mais de 10 mil pessoas.

Em julho, um incêndio num submarino russo ultrassecreto chamado “Losharik”, que supostamente estava envolvido em atividades de espionagem submarina, matou 14 marinheiros.

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