Fotografia

Fotos da Transnístria, o país que não existe

A ONU não reconhece a independência do país, mas os 500 mil transnístrios merecem ser vistos.

por Adina Florea; fotos por Anton Polyakov; Traduzido por Marina Schnoor
01 Setembro 2017, 10:00am

Fotos por Anton Polyakov

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE Romênia.

A autodeclarada República da Transnístria, que fica entre a Moldávia e a Ucrânia, no Leste Europeu, luta por reconhecimento há 27 anos. Em 1990, o pequeno estado — de aproximadamente 200 quilômetros de extensão — se declarou independente da Moldávia depois que o país se separou da União Soviética em colapso. A Transnístria, que tinha uma grande população russa, esperava formar um país que continuasse parte da URSS. Depois de dois anos em guerra, o governo moldávio garantiu ao país reconhecimento limitado como uma "unidade territorial autônoma", com algum controle sobre sua economia.

Hoje, apesar de ter seu próprio governo, moeda e exército, a Transnístria sobrevive de empréstimos da Rússia e não é reconhecida formalmente pelas Nações Unidas. O estado parece preso ainda à era soviética; uma estátua de Lenin observa o principal prédio do parlamento, a moeda transnístria tem imagens de generais soviéticos e você encontra um retrato emoldurado de Stalin em basicamente toda casa e prédio do governo.

O fotógrafo transnístrio Anton Polyakov quer que o mundo conheça sua terra natal um pouco melhor. Sua série "Transnistria Conglomerate" recebeu recentemente o Bob Books Photobook Award, do Jornal Britânico de Fotografia, pelo modo como "deu voz aos cidadãos da Transnístria e os trouxe para nossa consciência". Falei com Anton para saber como é viver num país que não existe, e sobre as esperanças dele de que seu trabalho mude a maneira como as pessoas veem o estado, que às vezes é chamado de "o buraco negro da Europa".

VICE: Como os transnístrios lidam com a ideia de morar num país que tecnicamente não existe?
Anton: Estabelecer uma identidade nacional é muito difícil. Historicamente, vários grupos étnicos — russos, moldávios, ucranianos, búlgaros — chamam a Transnístria de lar. Quase todo jovem aqui encara uma escolha difícil. Se você ficar, o que há para fazer num país que não tem suas próprias tradições, indústria, artes e cultura estabelecidas, e tem pouca chance de desenvolver isso num futuro próximo? E se você sair, para onde ir? A maioria das pessoas escolhe entre a Rússia e a Moldávia.

Para quem é de fora, o país parece um pouco um museu soviético a céu aberto.
Em termos de símbolos e arquitetura soviéticos, acho que não temos mais disso aqui que qualquer outra ex-república soviética. Eu aprecio a estética da arquitetura soviética — ela deve ser preservada em vez de substituída. Isso é parte da nossa história cultural e acho vergonhoso ver pessoas querendo se livrar disso.

Nasci depois que a Transnístria declarou independência, então não sei realmente como o lugar era sob o domínio soviético. Não acho que deveria ser surpresa que haja uma mentalidade soviética. Para muita gente, aquele pode ter sido o período mais feliz da história da Transnístria.

Pelas suas fotos, parece que jovens transnístrios têm um amor pelo exército e fisiculturismo. Por que você acha que isso acontece?
A Transnístria ainda precisa desenvolver sua própria cultura e tradições. O foco no nosso exército e educação física é uma tentativa de instilar certos valores patrióticos nas crianças — as imbuir com amor pelo país.

No seu projeto Mahala , você explorou a vida rural na Transnístria visitando o vilarejo recluso de Hristovaia. Por que você estava interessado nessa comunidade?
Cada vez menos pessoas vivem em áreas rurais, então eu queria ver como era o cotidiano dos moradores de Hristovaia, e como sua proximidade com a natureza influenciava suas vidas e visão de mundo. Eu queria conhecer os desafios que eles enfrentam — como indivíduos e como comunidade.

Como os jovens passam seu tempo livre em vilarejos assim?
Como você pode imaginar, há pouco para fazer num pequeno vilarejo de um país minúsculo. Ainda assim, a maioria das pessoas têm acesso à tecnologia, então estão acompanhando o que acontece no resto do mundo. Claro, os adolescentes transnístrios são como os outros adolescentes do mundo — eles gostam de música pop, videogames e fofoca.

O que te mantém na Transnístria?
Me sinto em casa. Não importa para onde vou, me sinto atraído por este lugar. E acho que é importante fazer o que eu puder para ajudar nossa república.

Veja mais fotos da série "Transnistria Conglomerate" de Anton Polyakov abaixo.


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