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A história da Sonia Abreu, a primeira DJ do Brasil, virou livro

Beatriz Moura

Beatriz Moura

'Ondas Tropicais', a biografia da pioneira da discotecagem e do conceito de rádio jovem no Brasil chega nas livrarias nesta terça (5).

As paredes da sala do apartamento de Sonia Abreu, que fica na região do Jardins, bairro nobre de São Paulo, são uma de cada cor: rosa, amarelo e verde. Os móveis também são coloridos. Nas paredes, estão pendurados quadros do artista plástico paulistano Antonio Peticov, amigo íntimo da DJ. A coleção de discos ocupa uma estante inteira do canto extremo-esquerdo da sala. Seu mixer fica na mesa à frente, junto com o notebook no qual ela está sempre pesquisando a música que é a novidade do momento. Mas para além dos artefatos musicais, a quantidade de artigos religiosos — de diferentes religiões, inclusive — que decoram o ambiente também chamam muito a atenção. "Eu tenho essa ligação com coisas esotéricas. Aprendi muito isso com o Gilberto Gil", disse a DJ em entrevista ao Noisey sobre a sua recém-lançada biografia, que saiu nesta terça-feira (5).

Essa relação um tanto íntima da Sonia com esoterismo está explícita desde o primeiro capítulo de Ondas Tropicais (Editora Mattrix, 191 pág, 2017), livro escrito pela jornalista Claudia Assef (editora do Music Non Stop e autora do Todo DJ Já Sambou, de 2003) e pelo também jornalista Alexandre Melo (diretor do documentário sobre o Seu Osvaldo, "Maestro Invisível"). Já nas primeiras páginas, Sonia relata uma das suas experiências com ETs, que teria a influenciado a montar sua rádio ambulante numa kombi no final do ano 1980. "Eu ficava ouvindo uma voz nítida repetindo 'Música. Multidão. Rádio ambulante. Leve'", conta. "E eu e a Lucinha [Barbosa, companheira do Arnaldo Baptista, do Mutantes] tínhamos fumado um pra dar um grau. Mas não acho que só isso teria feito a gente enxergar aquele disco voador naquele dia."

Muito antes dessa experiência com OVNIs e do nascimento da sua rádio ambulante — que também se chamava Ondas Tropicais —, no entanto, Sonia já estava há um bocado de tempo na árdua tarefa de propagar música no Brasil: em 1964, aos 13 anos, ela estreou na banda Happiness, fazendo covers de músicas estrangeiras do The Happenings. Aos 16, tocou pela primeira vez numa cabine de uma festa, na casa do empresário e político paulistano Antônio Ermírio de Moraes. Aos 17, ela já estava produzindo a programação da rádio Excelsior (atual CBN), onde trabalhou por 10 anos. Lá, além de ajudar a estruturar uma das primeiras rádios jovens do Brasil, Sonia também lançou a épica coleção de discos A Máquina do Som, lançada pela Som Livre entre 1974 e 1978.

Ondas Tropicais na Kombi. Foto: arquivo pessoal de Sonia Abreu

Foi na Excelsior, em 1973, também que a "Soniaplasta" — apelido dado à DJ pelos seus amigos, resultado da junção dos termos "sonoplasta" e "Sonia" — colocou pra tocar, muito que provavelmente pela primeira vez em uma rádio nacional, "Bohemian Rhapsody", do Queen. "Levei um pito, porque era muito longa e não podia tocar", explica a DJ. "Os roqueiros brasileiros de todas as gerações deveriam reverenciar essas mulher", fala o seu biógrafo Alexandre Melo. "Ela e [o ex-locutor da Excelsior e ex-chefe de Sonia] Antonio Celso apresentaram ao Brasil, por meio de contrabando musical vindo do exterior bandas como Black Sabbath, ABBA, Elton John, David Bowie. Tocar música 'jovem' numa rádio aqui naquela época não era algo comum."

Filha única de pais separados — um médico boêmio e uma dona de casa rigorosa — de uma família paulistana abastada, Sonia saiu de casa aos 18 anos para poder trabalhar com música. "Ninguém da minha família me apoiava. Imagina, ser músico era 'coisa de vagabundo'", diz Sonia. Ela conta que tinha "tudo pra ser médica", que seu pai e seu avô queriam muito que ela fizesse faculdade de Medicina. "Mas eu só queria saber de música. E graças a Deus tive força para me esquivar da minha família e seguir o meu sonho". O pai de Sonia morreu sem saber o que a filha fazia. A mãe, ela acredita que também.

Depois da Excelsior, Sonia também esteve à frente de rádios como a Brasil 2000, 89 FM (a Rádio Rock), da Rádio USP e da Rádio Globo. No começo dos anos 1980, movida pela vontade de ter mais autonomia sob o seu trabalho, ela montou a sua rádio ambulante Ondas Tropicais, a qual circulava pela região da Paulista, da Consolação e da Augusta, tocando músicas e promovendo programas sobre espiritualidade, vegetarianismo, LSD, dieta macrobiótica — da qual é adepta desde os 27 anos — e outros assuntos contraculturais que a interessassem. Começou num Fusca, virou uma kombi, depois um trio elétrico e, por último, um barco que passou 27 dias navegando pelo litoral paulista. "Uma das minhas principais motivações de documentar a vida da Sonia é mostrar pra nova geração — que vai a festas tipo Mamba Negra e Carlos CapsLock — que lá nos anos 80 uma mulher sozinha resolveu levar música na praia", comenta Claudia Assef. "Ela acabou ficando meio esquecida, mas a Sonia foi muito pioneira e revolucionária para a época dela. E a música brasileira deve muita coisa à ela."

Além de ser a primeira DJ mulher do Brasil, tocando tanto em boates do underground do centro de São Paulo, quanto em festas da high society paulistana e na badalada Papagaio Disco Club, Sonia esteve ligada diretamente a vanguarda de vários movimentos da música no Brasil: desde a Jovem Guarda até o rock, à Tropicália e à difusão da world music no país. Ela era melhor amiga de Lucinha, que viria a ser esposa de Arnaldo Baptista — as duas, inclusive, tomaram conta do ex-Mutantes após sua tentativa de suicídio, em 1982. É amiga do Gilberto Gil, com quem ela já trocou várias experiências sobre dieta macrobiótica, música e, principalmente religiosidade. "O Gil é o meu guru, pode escrever aí", comentou a Sonia no meio desta entrevista. Também é muito amiga do artista plástico paulista Antonio Peticov, com quem tomou muito LSD — o que mudou completamente a relação de Sonia com a música. Foi mestre de cerimônia da segunda edição Festival de Águas Claras, o tal "Woodstock brasileiro", em 1981. Foi a responsável por emplacar "Automatic Lover", hino disco da inglesa Dee D. Jackson que depois entraria na trilha sonora da novela Dancin' Days (1978), na televisão brasileira pela primeira vez. Montou uma super banda de world music de mais de 25 pessoas, a Banda do Quarto Mundo.

Lançamento do disco do Arnaldo Baptista 'Singing' Alone' na Rua Augusta, em 1983. Foto: arquivo pessoal de Sonia Abreu

"A Sonia é antes de tudo uma grande pesquisadora, desde sempre. Super focada e que dedicou a sua vida inteira à música. É muito pouco reduzi-la apenas ao posto de primeira DJ mulher do país", comenta Claudia. A verdade é que Sonia nunca ligou para esse posto. "Só fiquei focada, fazendo o meu trabalho, porque não foi fácil. É um mundo de macho, pô. Às vezes, eu tive [e ainda tenho] que ser meio macho também."

A grande ânsia por pesquisa musical de Sonia não passou com o decorrer do tempo: ela até hoje toca em festas e eventos; até o começo do ano, apresentava o seu programa Ondas Tropicais na Rádio UOL; é DJ residente na Casa 92, boate que fica em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo; e procura sempre se manter atualizada. "Odeio tocar flash back. Tô sempre atrás de novidades na internet. Mas não uso Spotify. Até tenho uma conta, mas perto do YouTube, o Spotify não tem nada de música", disse Sonia ao Noisey. "E é o que eu recomendo para as novas gerações de DJs: não se especializem em um gênero. Estejam sempre buscando aprender a tocar de tudo."

Apesar de ser ainda muito ativa, Sonia reconhece que talvez esteja chegando a hora de parar de tocar. Não porque ela quer. Nem também pelos problemas de saúde que começaram a aparecer recentemente em decorrência da deficiência de vitamina B12. "É que tem cada vez menos espaços e oportunidades para eu continuar tocando. Antigamente, eu sofria preconceito por ser mulher. Agora, é por ser mulher e ser velha. Ninguém quer uma velha tocando — se bem que, depois que o som rola, ninguém mais liga para a minha idade", comentou a DJ. Um pouco desolada, ela diz não saber o que esperar depois do lançamento dessa biografia, mas talvez esse seja um dos últimos suspiros da sua carreira. "Eu me sinto com vida, mas o sistema não é lá muito bondoso com gente velha. Infelizmente é a realidade e a gente tem que aceitar."