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'Game of Thrones' estava condenada desde o começo

Como 'As Crônicas de Gelo e Fogo' colocou a série da HBO no caminho do fracasso.

por Peter Slattery; Traduzido por Marina Schnoor
22 Maio 2019, 10:00am

Wikimedia/HBO

Semana passada, uma petição para a HBO “Refazer a oitava temporada de Game of Thrones com roteiristas competentes” rodou pela internet. Quase com certeza a HBO não vai consertar uma temporada inteira com zumbis de gelo e dragões que cospem fogo, mas a página no Change.org viralizou mesmo assim, ganhando mais de um milhão de assinaturas e muita cobertura da mídia. A luta para reescrever a oitava temporada provavelmente é fútil, mas a decepção é compreensível. Para muitos fãs, essa última fornada de episódios foi frustrante, previsível e nada satisfatória, fora alguns grandes pontos do enredo finalmente se desenrolando.

Ainda assim, os roteiristas da série não são os únicos culpados por essa zona. O fato triste é que o autor George R. R. Martin pode não conseguir juntar os pedaços nos dois últimos livros da série melhor do que os criadores Benioff e Weiss fizeram na última temporada de GoT. Reescrever a temporada “mais de acordo com os livros”, o que a petição basicamente estava pedindo, não vai consertar Game of Thrones, porque os livros têm os mesmos problemas.

Antes de você gritar “Dracarys”, tem uma explicação perfeitamente razoável pra isso. Na série de livros As Crônicas de Gelo e Fogo, Martin coloca um problema maior para os personagens responderem: “Como alguém consegue ficar no poder (de preferência sendo virtuoso) sem ser assassinado?”. E foi legal ver Starks, Baratheons e Lannisters tentarem jogar esse jogo, mesmo falhando. O problema é, Martin nunca descobriu uma resposta para sua própria pergunta, nem criou personagens que podiam respondê-la de maneira convincente – ou eles morrem, não se desenvolvem ou são substituídos por pessoas com quem os leitores não se importam. E os livros parecem estar indo na mesma direção da série para depender dos mesmos tropos e mágicas que resolveram tudo no final.

Recapitulando: Rei Robert morre porque é um bêbado incompetente; Ned morre porque não sabe fazer o jogo político; Robb morre porque não fez os sacrifícios necessários; Joffrey morre porque é um psicopata. Caralho, Tywin foi 100% astuto e implacável e ainda assim tomou uma flecha sentado na privada porque foi malvado demais com o filho. Essas mortes eram declarações poderosas (e interessantes) sobre as duras verdades do mundo. Foram mortes dramáticas e afetaram momentos nos livros e na série. Mas o cálculo das mortes chocantes de personagens eventualmente perde o gás. A próxima fase do enredo depois de A Guerra dos Tronos (livro um), A Fúria dos Reis (livro dois) e A Tormenta de Espadas (livro três) precisava mostrar como a nova geração lidaria com o poder, mas não consegue fazer isso.

Em vez disso, Martin continua batendo nas mesmas teclas com personagens críticos em Festim dos Corvos (livro quatro) e A Dança dos Dragões (livro cinco). Nesses livros, Arya e Tyrion se afastam da política de Westeros e do próprio continente. Daenerys não parece aprender muito com seus desafios, já que fracassa em governar algumas cidades, aí basicamente parece fugir para Essos. Apesar de podermos supor que Jon ressuscita nos livros como ressuscitou na série, ele morre porque também gerencia mal o poder, alienando seus seguidores imediatos enquanto se foca em construir coalizões distantes. Se ele tiver uma história diferente em Os Ventos do Inverno (o próximo livro da série), por quê? O que ele aprendeu?

Sansa é quem tem o maior potencial para ser mais interessante nos livros, já que a deixamos em A Dança dos Dragões aprendendo sobre política e intriga no Vale. Se ela passar mais tempo realmente usando seu novo poder nos últimos dois livros, Martin pode estar realmente desenvolvendo uma personagem impressionante. Ainda assim, a porta continua aberta para Sansa sofrer desnecessária e brutalmente como aconteceu na série, onde ela acaba nas mãos de um marido psicopata poderoso, o Ramsay.

Pra piorar, Martin não traz personagens multifacetados de sucesso nesses livros para substituir os que morreram. Como escritor, Martin se descreve como um “jardineiro” em vez de arquiteto. Ele admite que no geral planta as sementes dos personagens e narrativas, depois escreve as partes boas. Esse estilo levou (talvez inadvertidamente) nos últimos livros a ele contando histórias sobre mais e mais personagens, que tem cada vez menos e menos conexão com os Starks e Lannisters, o pessoal mais intrigante do seu jardim. Nos livros, Boltons e Freys são basicamente vilões fantoches odiáveis, sem acrescentar nada à estrutura moral da história. Cersei é praticamente uma sociopata completa nos últimos livros também – honestamente, alguém ainda está torcendo por ela em A Dança dos Dragões? Martin introduz a intriga Greyjoy e Martell, mas há jogos de poder nas Ilhas de Ferro e Dorne de perto tão interessantes quanto no Norte e no Sul? Aí Martin também decidiu focar em Essos em vários capítulos dolorosos que nunca chegam a lugar nenhum. Ninguém liga pra Volantis, Jon Connington, nem pra nada disso.

Essa última escolha talvez tenha ferrado de vez Benioff e Weiss. Os cocriadores de GoT tentaram moderar excessos e levar a série para o final, como num tabuleiro de xadrez onde os peões e peças menores foram retirados. O problema é, As Crônicas de Gelo e Fogo atualmente não parece estar rumando pro final. Martin está praticamente ignorando o elenco principal nos últimos livros para desenvolver novos personagens com novas versões do problema, em vez de ter os personagens centrais realmente resolvendo suas questões. Benioff e Weiss disseram que estavam escrevendo mais ou menos de acordo com o final planejado que Martin contou a eles, mesmo que as adições de Martin nos últimos dois livros tenham tornado esse final incrivelmente difícil de se realizar. Então acabamos com um mundo menor, mais simples e mais estéril na série de TV, onde a roda do destino realmente começa a se mover na última temporada.

No final das contas, para esses livros e a série chegarem a um final satisfatório, alguém precisa se tornar um Roberto de Bruce ou um Guilherme, o Conquistador, políticos medievais que entendiam o equilíbrio certo entre espírito público genuíno, ser absolutamente implacável, ser um general competente, construir coalizões, manter a lealdade e ser um líder carismático para vencer, como esses dois homens fizeram. Dany parecia estar nesse caminho, mas não conseguiu realmente entender a coisa toda na Baía dos Escravos. Jon podia ser outro candidato, mas não consegue resolver suas questões no Norte. Sansa é uma ótima escolha, só não vimos ainda ela exercer esse tipo de poder nos livros.

Martin acabou encurralado pela própria escrita, parcialmente porque a pergunta inicial, bom, é uma pergunta muito difícil de responder, e nenhum dos seus personagens parece estar chegando a uma maneira convincente de respondê-la. Jon, Dany e Sansa não estão evoluindo para líderes poderosos realistas – eles simplesmente são difíceis de gostar até o finalzinho porque são parte de uma profecia mística. Westeros não é um mundo onde vamos focar num time de desajustados tentando derrotar capangas sobrenaturais sem rosto servindo um vilão gigante unidimensional, mas, no final, foi isso que sobrou para a HBO.

Mesmo não havendo mais esperança para a série, é possível que Martin descubra como trazer esses personagens para um final satisfatório nos últimos dois livros. Mas neste ponto, seria mais emocionante ver um revolta de plebeus matar todos esses palhaços. Infelizmente, a série da HBO era uma causa perdida.

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Matéria originalmente publicada na VICE EUA.

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