tatuagem de cadeia braço
Todas as fotos cortesia de Mike Conrath. 
Entretenimento

Por dentro do 'único estúdio oficial de tatuagem dentro de uma prisão'

O estúdio atrás das grades está evitando HIV e hepatite, uma tatuagem de lágrima de cada vez.
03 Março 2020, 10:00am

Nos velhos tempos, se você estava preso e queria fazer uma tatuagem, você tirava o motor do seu barbeador elétrico ou CD player, ligava numa caneta esferográfica, inseria uma agulha de costura na ponta e a enfiava repetidamente na sua pele. Doloroso, muitas vezes nada sanitário e, até recentemente, exatamente o que os detentos faziam na Schrassig, a única prisão de Luxemburgo.

“Os prisioneiros usavam tudo que podiam”, diz Mike Conrath, 45 anos, que trabalha na clínica médica da prisão. Além de máquinas improvisadas, Conrath diz que os detentos tinham “ideias muitos ruins” em se tratando de fazer tinta: “Eles derretiam tampas de xampu e deixavam o vapor evaporar, deixando a cor para trás; ou misturavam cinza de cigarro com saliva e água”.

Uma análise de 2010 de 124 estudos de 30 países ligava tatuagens de cadeia com alto risco de contrair HIV, hepatite e tuberculose. Quatro anos atrás, um colega de Conrath entrevistou detentos para sua tese e descobriu que 100 pessoas tinham sido tatuadas em Schrassig durante suas penas.

Uma tattoo feita no estúdio da prisão.

Preocupado com a extensão do problema, Conrath e seus colegas tivera a ideia para o estúdio Inmates Tattoo. Levou só meia hora para convencer os supervisores da prisão a aceitar a ideia, já que o custo total do projeto – € 50 mil [cerca de R$ 230 mil] – é o mesmo de tratar um só detento com hepatite C.

Sem saber por onde começar, Conrath procurou tatuadores locais na internet e encontrou alguém que se entusiasmou com o projeto. “Ele veio até a prisão e nos ensinou tudo”, diz Conrath, acrescentando que ele também ajudou a encomendar agulhas, máquinas, tintas e desenhos da França.

O estúdio não treina tatuadores. “Simplesmente oferecemos material estéril e um ambiente limpo”, explica Conrath. As tatuagens vão acontecer de qualquer jeito – permitir que isso aconteça num ambiente seguro simplesmente minimiza os danos: “Se distribuímos seringas e camisinhas, também podemos distribuir agulhas de tatuagem”.

Em fevereiro de 2017, os primeiros detentos começaram um treinamento básico, aprendendo os tipos de doenças que podem ser transmitidas e como manter um local de trabalho estéril. Como detentos ficam doentes com mais frequência que uma pessoa média, Conrath tenta diminuir os riscos enrolando os equipamentos em plástico e limpando duas vezes as ferramentas. “Se só uma pessoa se infectar, vou parecer um idiota”, ele me disse. Segundo Conrath, o Inmates Tattoo atualmente é o único estúdio oficial de tatuagem dentro de uma prisão no mundo. Dois projetos similares foram iniciados no Canadá e Barcelona, mas nenhum teve sucesso.

Conrath é o especialista em tatuagens da prisão.

Segundo Conrath, entre 17 e 19% dos prisioneiros têm hepatite, com o tipo C sendo a doença infecciosa mais transmitida atrás das grades. Mas o Schrassig só faz o exame nos pacientes no começo da sentença, então eles não sabem quantas pessoas com hepatite C eles têm em custódia, nem se vão conseguir reduzir essa taxa. Conrath diz que só quer evitar infecções sempre que possível.

Quando o estúdio finalmente começou a funcionar em abril de 2017, os tatuadores foram inundados com pedidos. No final de 2018, 140 detentos tinham sido tatuados. Conrath diz que os prisioneiros geralmente tatuam o nome dos filhos ou das parceiras, mas há pedidos bem mais sombrios, como cobrir o nome da esposa que o homem estava na cadeia por assassinar. Toda parte do corpo e tatuagens são permitidas, incluindo a mais infame tatuagem de cadeia: uma lágrima embaixo do olho. Só tattoos xenofóbicas, como suásticas, não são permitidas.

O estúdio conta com 19 detentos tatuadores, cada um com uma especialidade diferente. Algumas são tão bons quanto profissionais, outros “não são muito bons, mas os detentos ficam satisfeitos”, diz Conrath. Geralmente, eles são pagos com seda de tabaco, e às vezes com macarrão. Alguns detentos passam no estúdio logo antes de serem libertados para economizar na tatuagem – mas Conrath aconselha esses clientes que esperem para se tatuar com um profissional fora da cana.

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Matéria originalmente publicada na VICE Alemanha.

Tradução do inglês por Marina Schnoor.