Foto: RBMA

Para Luisa Puterman, sons são espaços ainda não explorados

A artista paulistana, que se apresenta no festival Dekmantel nesse sábado (4), vai de estudos sobre paisagens sonoras ao techno-experimental em sua forma de abordar som.

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fev 3 2017, 12:00pm

Foto: RBMA

Dentre as muitas apresentações que vi no festival Novas Frequências de 2016, que aconteceu no Rio de Janeiro do dia 3 ao 8 de dezembro, poucas tiveram tanto impacto sobre mim quanto uma instalação sonora quente, ruidosa e ofuscante que foi colocada no último andar do Galpão Gamboa. Moto Perpétuo, o nome processual que levava a obra, consistia em algumas fontes de luz posicionadas diretamente contra o espectador, que ainda respirava de uma fumaça branca e ouvia barulhos de materiais (vidro, concreto) sendo aparentemente quebrados. Era desconfortável.

Alguns meses depois, Luisa Puterman, artista paulistana idealizadora da instalação, me contaria que incômodo causado pela obra era proposital, e que simulava uma sensação proporcionada pela constante mudança na paisagem sonora de grandes cidades. "A instalação foi meio que aparecendo conforme ideias sobre construção/destruição cruzavam meu caminho. Fui atrás de sons que pertencem a esse universo e acabei chegando numa ideia de ciclo infinito, de uma angústia implícita nos processos ilusórios de renovação", conta. "Além do fato de as cidades estarem inundadas por sons que como consequência desses processos nos habitam de forma inconsciente e esteticamente intrigante."

São muitos os sons que habitam Luisa. Apesar de ter passado muitos anos frequentando conservatórios de piano e usando-o como ponto de partida para suas experimentações musicais (tendo inclusive lançado o EP Nu em 2015, composto apenas por cortes de suas gravações diárias de piano), ela rejeita a ideia de que o instrumento a tenha dado uma noção tradicional de música. "Vejo o piano mas como uma síntese musical, uma plataforma que condensa vários saberes. Uso ele também como uma ferramenta para pensar a música, além de ser um timbre fino, clássico e cheio de memórias", diz.

Formada em História da Arte, a paulistana escreveu seu TCC sobre o processo criativo da peça "4'33", de John Cage, relacionando-o com as ideias disseminadas pelo dadaísta Marcel Duchamp. Foi a partir daí que o interesse de Luisa em música experimental e eletrônica começou a se desenvolver, e que ela resolveu expandir seus conhecimentos sobre música, especializando-se em engenharia de som.

"É como se você tivesse uma lupa sonora que você pode focar em determinados aspectos do som", ela conta, sobre como sua percepção sonora mudou após o curso. "Basicamente é obter um poder de desconstrução – conseguir ouvir as infinitas camadas que um som ou um conjunto de sons possuem. Isso deixa a escuta complexa e prazerosa, mas também gera umas paranoias com os sons do cotidiano."

As paranoias de Luisa obtiveram frutos. De sua obsessão com os sons do cotidiano saíram os trabalhos "TREM" e "Cuidado Veículos", estudos sobre as intervenções sonoras do transporte no dia-a-dia de um morador da cidade. "Gosto de me deslocar, acho que deslocamentos sempre me interessaram de maneira geral. Então trabalhar com isso foi uma extensão desses pensamentos corriqueiros", diz.

Além do interesse por caminhos inusitados do som, a artista se aventura também por vias techno-experimentais em sets feitos ao vivo, que ascendem lentamente e trabalham com uma abordagem um pouco mais abstrata do que os que geralmente rolam nas festas paulistanas em que foram apresentados, como a ODD e a Metanol.

"Eu gosto bastante do palco, tem uma energia única e forte. Acho que para além das pressões psicológicas, os desafios são bem técnicos, ligados ao som/acústica dos lugares e da angústia de extrair o melhor resultado possível de cada elemento envolvido. E também meu live requer muita concentração o que me aliena ainda um pouco do público, mas acho que tá rolando – pouco a pouco – tenho aprendido muito a cada apresentação", conta. A oportunidade de construir um live tão complexo surgiu na residência feita por Luisa na Red Bull Music Academy em Paris, durante o ano de 2015.

A experiência na capital francesa e seus rebentos criativos tiveram grande impacto na carreira artística de Luisa, que, além de passar a se apresentar em festas, teve uma faixa escolhida para a coletânea Hy Brazil, curada por Chico Dub; montou sua instalação no Novas Frequências e foi convocada para abrir a seção da noite no primeiro dia do festival holandês Dekmantel, em sua primeira edição no Brasil. Sobre as intenções para sua apresentação, Luisa responde com alguma incerteza: "Tento não planejar muito... Afinal, meu live set é baseado em situações de improviso que se alimentam do contexto em que estou tocando."

Foi desse processo criativo que surgiu a faixa "Andrômeda", que a paulistana solta nessa sexta (2) exclusivamente pelo THUMP. A track foi construída a partir de trechos de uma apresentação ao vivo de Luisa, que compôs algumas passagens por cima do live gravado. "Tenho explorado bastante esse timbre que parece meio uma guitarra Telecaster de vidro", conta.

Há algum tempo, li uma matéria numa revista científica sobre pessoas sinestésicas; que conseguem enxergar números e operações matemáticas não de uma forma abstrata, mas como formas e cores. Ao me deparar com a obra de Luisa, me intriguei pela forma em que ela também parecia experienciar os sons de maneira mais concreta. Quando a perguntei sobre, porém, ela me deu outra visão do que se passa em sua cabeça: "Enxergo mais na real espaços e cenários... Elementos arquitetônicos e paisagísticos, sejam eles construídos pelo homem, como uma ponte, ou construídos pelo tempo, como um rio ou uma montanha."

Ouça "Andrômeda" abaixo e experiencie por si mesmo a estadia nos espaços construídos por Luisa Puterman:

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