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Os Adolescentes da Maggie Lee

A Maggie Lee mandou pra gente um zine que ela fez a partir de fotografias de adolescentes desajeitados dos anos 70 e um livro bizarro de psicologia de 1945.

por Equipe VICE US
14 Dezembro 2010, 11:52am

A Maggie Lee mandou pra gente um zine que ela fez a partir de fotografias de adolescentes desajeitados dos anos 70 e um livro bizarro de psicologia de 1945. Pelo que percebemos, o pensamento dominante a respeito de crianças com problemas comportamentais dos anos 40 considerava que se tratava de um bando de pirralhos esquisitos e retardados.

Como Maggie explica na última página, um amigo dela enviou um monte de negativos que encontrou numa lojinha de Ohio dizendo “faça alguma coisa legal com isso”. O resultado é um monte de imagens de anuários acrescentadas de descrições de “crianças problemáticas” tiradas de um livro chamado Our Teen-Age Boys and Girls… Suggestions for Parents, Teachers, and Other Youth Leaders, de Lester e Alice Crow. Muitas vezes as sugestões nem existem e, na maioria, os títulos dos capítulos parecem mais insultos berrados no recreio do que uma forma apropriada de um médico descrever um paciente. Na nossa opinião de peritos, parece que esses casos são mais de jovens que gostam de curtir a balada e transar bastante.

Aqui estão alguns dos melhores (transcritos do original):

Gordon Continua Sendo um Bebê Mimado

“Gordon, de 17 anos de idade, é indisciplinado desde a infância. Quando bebê, foi mimado pela mãe, o que fez com que nem ela nem o pai conseguissem controlá-lo. Apesar de sua inteligência dentro da média, reprovou no ensino básico e só chegou ao colegial com quase dezesseis anos de idade.

O Gordon não tem qualquer tipo de respeito pela autoridade. Costumava faltar às aulas pra vadiar e, uma vez, chegou a trazer uma faca para a escola, mas a sua mãe se mostrou indiferente e pouco cooperativa. O Gordon é um garoto imprevisível, irrequieto e que demonstra tendências neuróticas. Costuma apalpar a mãe, e ela parece gostar disso.

Quando fez 17 anos, Gordon recusou-se a voltar à escola, e quando recebeu um certificado de empregabilidade, rasgou-o em dois, dizendo não haver necessidade alguma de trabalhar e que não pretendia fazê-lo. Atualmente, costuma ficar em casa, frequentar salões de jogos e afins. Seus pais não fazem nada em relação a isso. Ainda não chegou a cometer nenhum crime, mas uma vez que ninguém fora ou dentro do seu lar o disciplina, só tende a piorar.”

Viu o que quisemos dizer sobre a falta de sugestões? E também, que porra quer dizer “costuma apalpar a mãe e ela parece gostar disso”?

A Marcia Era Uma Delinquente Sexual

“No que toca o trabalho escolar, a Marcia não apresentava problemas. Era uma estudante lenta e tinha repetido um ano, mas sempre demonstrou uma atitude de cooperação. O seu programa de estudos foi ajustado para ir de encontro aos seus interesses e capacidades, e ela estava grata à escola pela ajuda que tinham dado. Em casa, Marcia vivia com poucas condições e os seus pais não tinham qualquer tipo de controle sobre as atividades sociais que desempenhava. Ficava na rua até tarde, sem apresentar explicações, até que eventualmente fugiu de casa para se tornar uma delinquente sexual. As autoridades a encontraram e prenderam, mas ela fugiu uma segunda vez. Quando finalmente a reencontraram, tinha se casado no civil com um marinheiro em outro estado. Seus pais aceitaram a situação, mas organizaram uma nova cerimônia, desta vez oficializada por um capelão da Marinha. Dentro de pouco tempo, Marcia deu à luz uma menina.”

O Dennis Tem Comportamentos Indesejados

“O pai do Dennis abandonou a família. Sua mãe contraiu uma doença que inchou suas pernas de tal forma que a deixou impossibilitada de andar sem se apoiar em uma parede [que porra é esta? -ed.]. Tais circunstâncias parecem ser as grandes responsáveis pela incapacidade de ajustamento do rapaz. Dennis leva uma vida leviana, fica na rua até a madrugada e gaba-se pelo álcool que bebe e pelas raparigas com quem dorme. Ninguém consegue controlá-lo. Seu avô é indiferente a esta situação e não tem qualquer interesse pelo bem estar do rapaz. Consequentemente, Dennis não respeita ninguém na família e vai ficando cada vez mais selvagem. Na escola, aborrece os professores e colegas com o seu mau comportamento. Envolve-se constantemente em brigas, fuma dentro dos edifícios, fala durante as aulas e porta-se como um palhaço. Em certa ocasião, empurrou um carrinho de cozinha escada abaixo e fez um buraco na parede. Numa outra vez, roubou a blusa de um rapaz e a desfez em pedaços, dizendo que o tal rapaz tinha rasgado a sua.

Sua única ambição parece ser chamar a atenção pelo péssimo comportamento. É um rapaz inteligente o suficiente para fazer um bom trabalho, mas insiste em não ser aplicado, apesar de seu programa escolar ter sido reformulado de acordo com seus interesses. Quando alguém o repreende, ouve com atenção, mas, no minuto seguinte, repete a mesma asneira. Uma vez que já tem dezesseis anos de idade, poderia receber um certificado de empregabilidade e começar a trabalhar, mas neste momento não tem responsabilidade para manter um emprego. A única solução seria retirar o Dennis de sua casa e colocá-lo num internato onde, graças a uma disciplina severa, mas bondosa, seria encorajado a desenvolver melhores hábitos de estudo e um melhor comportamento em sociedade.”

A Mary é Antissocial

“A Mary está no limite da sanidade mental, pois é extremamente introvertida e antissocial. A dependência emocional que demonstra perante a figura materna é pouco normal e bastante perturbadora para a sua mãe. Enquanto criança, Mary era tímida ao ponto de ser quase impossível persuadi-la a olhar para outras pessoas. Sua mãe não se recorda de nenhuma experiência desagradável na infância de Mary que possa ter causado tal atitude.

Não tem quaisquer amigos no bairro nem na escola, e seus colegas acham-na diferente. É uma rapariga nervosa, tensa, que não consegue facilmente confiar em outras pessoas. Foi tratada por um psiquiatra particular durante quase um ano, mas este teve que entrar para o Exército. O psiquiatra ficou muito interessado no caso desta menina e a sua intervenção pareceu ajudá-la. A mãe de Mary anda à procura de outro psicólogo que não seja muito caro.

Seria desaconselhável levar a garota a uma clínica neurológica, uma vez que isto poderá intensificar seus medos. Quando estava sendo tratada pelo psiquiatra, via-o como um médico normal, e não como alguém designado para tratar dos seus distúrbios mentais.

Mary é uma menina esperta e, graças a um programa ajustado e um tratamento especial por parte dos seus professores, conseguiu adaptar-se à escola. Por consequência, a escola conseguiu evitar que a sua perturbação nervosa evoluísse, mas não houve qualquer tipo de melhoria na sua atitude perante situações sociais."

Só coisa linda, não acham? Agora passamos o dia diagnosticando uns aos outros, mas já que o livro não oferece nenhuma solução concreta, parece que não temos escolha senão continuar com nossas vidas antissociais, levianas, mimadas e delinquentes, como sempre fizemos.