Ver o Bam Margera de hoje me faz ter medo da morte

O mítico sem noção de Jackass não foi mais o mesmo desde a morte de seu melhor amigo Ryan Dunn, e ele está novamente num reality show, tentando consertar a própria vida.

por Joe Bish; Traduzido por Marina Schnoor
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abr 7 2016, 3:00pm

Imagem via  YouTube .

Quase todo mundo chega a um ponto da vida em que começa a pensar nos seus entes queridos morrendo. Mãe, pai, irmão, irmã, namorado, namorada — todos vão morrer. Você começa a pensar no que você vai fazer quando isso acontecer, como vai lidar com a tristeza, como vai ser sua vida sem eles. Bam Margera, um homem que ganhou milhões rebaixando a si mesmo e aqueles que amava, parece nunca ter considerado isso. Semana passada, um trecho da aparição de Bam num programa de TV chamado Family Therapy with Dr Jenn pipocou na internet. Pelo que entendi, o programa mostra celebridades numa casa com as pessoas importantes para elas, tentando conseguir a ajuda de que precisam. Entre elas está Tiffany "New York" Pollard, Dina e Michael Lohan, alguém do Teen Mom e claro, Bam e sua mãe, April.



Quando Jackass começou em 2000, Bam era um jovem skatista profissional e uma das figuras centrais da turma de amigos em sua cidade natal, West Chester, Pensilvânia. Depois de Johnny Knoxville e talvez Steve-O, Bam era o membro mais popular do pessoal do programa, e aparentemente o que mais gostava de ter sua vida filmada: Viva La Bam, Bam's Unholy Union, Bam's World Domination, Bam's Badass Gameshow... Ele era a cara da marca de canalha que se tornou tão popular, num fluxo constante de filmagens de Bam e seus amigos arrumando encrenca. E assim como Jackass inicialmente, isso fazia você querer ser parte da coisa toda, parte das piadas, parte do caos, centrado no empolgante mau comportamento de Bam. Claro, às vezes havia consequências um tanto pesadas dessa cachoeira constante de pegadinhas, piadas, cenas de ação e tudo mais, mas o tom era muito leve. Era como uma fraternidade extrema, não uma coisa Jogos Mortais. Bam Margera tinha nascido para estar na TV, mas isso acabou indo longe demais.

Esse lado zueiro de Bam morreu com seu melhor amigo. Em 2011, o barbudo simpático Ryan Dunn, bebaço, bateu de carro numa árvore em alta velocidade. O acidente matou Dunn e Zachary Hartwell, um assistente de produção do Jackass 2: O Filme. Dunn tinha 34 anos. Na beira da estrada no local do acidente, onde flores estavam sendo deixadas por amigos e familiares, um Bam Margera beirando a histeria deu uma entrevista. Ele estava totalmente confuso e em angústia total, como se estivesse preso num filme, e esse momento incrivelmente íntimo de perda estava disponível agora para o consumo das massas. Um homem que passou a vida num reality, te fazendo assistir e amar ele e seus amigos, encurralado pelo mesmo meio quando uma das pessoas mais próximas dele morria.


Bam não foi o mesmo depois disso, e como poderia? No curto trecho disponível de sua nova empreitada na TV, ele diz que nunca tinha pensado que alguém próximo dele podia morrer, e que o choque da morte de Dunn o fez se voltar para a bebida. Ele diz isso com os olhos marejados, balbuciando, com a mão sangrando depois de socar a janela de um carro. Aquela confiança de menino se transformou numa ansiosa confusão. A vida que ele construiu, estapeando o pai enquanto ele dormia e filmando, virou algo estranho, estragado, sem sentido. Ele começou a ganhar peso, e o jovem skatista cheio de energia se transformou num cara inchado e chorão.

E agora ele está de novo, junto com sua mãe sofredora, num reality, tentando conseguir ajuda para seus vícios, seus problemas. Muitos vão dizer que ser exposto diante das câmeras não ajuda ninguém, constantemente julgado por espectadores maldosos. Mas esse é o lar dele, isso dá a ele uma sensação de estabilidade, de familiaridade.

Depois de Viva La Bam, a popularidade de seus programas foi caindo. Seu último esforço televisivo, Bam's Badass Game Show, de 2014, estava muito longe das pegadinhas extremas dos seus dias de Jackass. Não era mais possível pular de cabeça numa lata de lixo, ou fazer um cuecão se jogando de uma árvore. Esse formato que as pessoas amavam foi transformado num programa brega, com piadas caídas, um elenco mal ajustado e competidores irritantes.

Em Family Therapy, Bam, acredito, pode ser quem ele realmente é: um homem muito sensível e emocionalmente perturbado — e esse lado dele aparecia mesmo em Jackass. Seu medo extremo de cobras, usado pelos outros membros do elenco para o aterrorizar, mostrava vulnerabilidade. A vez em que o trancaram num trailer com uma cobra, provavelmente foi a única vez que alguém chorou de verdade no programa.

É de partir o coração ver como a morte de um homem pode arruinar a vida de outro. Isso mostra como a situação pode ser destrutiva. Bam Margera tinha tudo, mas sem Ryan Dunn, o que isso significava? E a situação só se agravou com a condenação de seu tio, Vincent "Don Vito" Margera, como criminoso sexual, e sua morte subsequente por alcoolismo em 2015. Bam criou uma marca ao redor de sua família e amigos através de reality shows, mas quando a realidade passou por cima dele, ele não conseguiu lidar com isso.

A derrocada de Bam no alcoolismo é aterrorizante. Isso mostra que as pessoas mais importantes na nossa vida podem nos arruinar se algo acontecer com elas. Como lidamos com uma tragédia cataclísmica depende de cada indivíduo. Alguns podem desabar na futilidade da vida; outros podem ser mais resistentes. Bam Margera não me parece ter essa resistência. Ainda assim, se estiver nos EUA, ligue a TV no VH1 para ver um homem destruído chorando nos braços da mãe.

@joe_bish

Tradução: Marina Schnoor

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