Pilotos Explicam por que Você não Deve se Preocupar com Turbulências

Três bilhões de pessoas voaram em 2014, com 692 mortes em voos comerciais. Com números assim, você tem mais chance de ganhar na loteria do que de morrer num acidente de avião.

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03 Agosto 2015, 10:30am

Ilustração por Carla Uriarte.

Desde que o MH370 desapareceu, o Air Asia caiu no mar e Andreas Lubitz jogou o voo 9525 nos Alpes Franceses, eu estava sentindo – apesar de toda a ciência e lógica – que aviões não eram uma boa. Eles funcionam por pura sorte. E, de todos os problemas em se voar, turbulência é o pior. Você sente um tipo especial de impotência quando seu avião chacoalha, especialmente quando não sabe por que ele está chacoalhando. Então, para tentar relaxar durante os voos, pedi a alguns pilotos para explicarem os riscos reais de uma turbulência.

"Turbulência não é algo para se ter medo", disse Keith Tonkin, ex-piloto militar e diretor de consultoria do grupo Aviation Projects. "Aviões modernos são projetados para aguentar muito mais força do que uma turbulência pode criar. Eles simplesmente não vão quebrar." Só para dar uma ideia de como eles são fortes, Tonkin acrescentou que aviões militares entram em ciclones regularmente para fazer leituras meteorológicas.

Fora isso, eu queria saber se a turbulência pode derrubar um avião. Lembrei Tonkin que, em novembro de 2001, o voo 587 da American Airlines caiu depois da decolagem no Aeroporto JFK de Nova York, matando todas as 260 pessoas a bordo e outras cinco no chão. A razão? O voo decolou atrás de outro e foi derrubado pela turbulência no rastro do avião.

Porém, como Tonkin me garantiu, o problema foi que o voo 587 decolou muito cedo. Como ele apontou, erro humano é a maior razão de acidentes aéreos, enquanto turbulência meteorológica significa mais um incômodo que um perigo. "Evitamos turbulência porque é estressante para os passageiros", ele explicou, "mas, para os pilotos, isso não é um problema".

Turbulências vêm em três categorias principais: térmica, mecânica e de cisalhamento. As três são versões em menor escala de ações que você vê em água corrente. O ar quente se levanta, parecido com o processo de como a água vem de baixo. Isso é chamado de turbulência térmica, e você experimenta isso como uma lombada quando o avião passa por uma coluna de ar ascendente a 800 km/h. Se já voou através das nuvens de final de tarde durante a decolagem, você provavelmente experimentou turbulência térmica.

Depois, temos a turbulência mecânica, que ocorre quando estruturas físicas como montanhas e prédios perturbam as correntes de vento, assim como um pedregulho rasga a corrente de um rio. Isso é perigoso apesar de muito fácil de prever, e os pilotos simplesmente evitam voar perto de grandes estruturas a baixas altitudes.

Uma compilação de aviões passando por turbulência de cisalhamento durante o pouso.

O último tipo é a turbulência de cisalhamento, que basicamente descreve a fronteira entre dois bolsões de ar se movendo inversamente. É um negócio assustador porque é difícil prever quão forte o golpe será, como acontece quando os pilotos voam para dentro ou fora de uma corrente de ar.

Uma corrente de vento, como uma estrada no ar, é tipo uma faixa de ar passando através da atmosfera superior. Para minimizar o consumo de combustível, os pilotos entram nesses fluxos para pegar uma rabeira no vento. Você já estava dormindo quando ouve a luz do cinto de segurança acender, te informando que o piloto está prestes a sair ou entrar numa corrente de vento. Geralmente, nesse ponto o piloto já sabe o que esperar, porque outro avião já vai ter registrado a severidade da turbulência na zona transicional.

A turbulência é gravada e compartilhada entre os aviões por um sistema de classificação. Turbulência leve descreve um movimento de 30 a 60 centímetros e balança a bandeja do assento. Turbulência moderada é o ponto no qual os comissários de bordo colocam seus cintos. Turbulência severa vai jogar objetos, ou até pessoas, pelo avião, mas a maioria dos pilotos só encontra isso poucas vezes em toda a carreira. No entanto, turbulência extrema é a soma de todos os medos. Nesse caso, o avião pode despencar ou subir 30 metros em questão de segundos; por isso, passageiros sem cinto já morreram ao serem jogados contra as paredes. Como a Administração de Aviação Federal dos EUA informa: "De 1980 a 2008, veículos aéreos de passageiros dos EUA tiveram 234 acidentes com turbulência, resultando em 298 pessoas seriamente feridas e três mortes".

"2013 foi o ano mais seguro já registrado, e 2014 não ficou tão atrás."

Ron Bartsch é o presidente da AvLaw Consulting e ex-chefe da segurança da Qantas. Ele afirma que turbulência extrema é algo raríssimo, apesar de já ter cruzado com isso. "Lembro-me de estar voando num pequeno avião de dois lugares, voltando para Sydney pelas Montanhas Blue", ele disse. "Havia uma tempestade e alguma turbulência mecânica sobre as montanhas, e eu estava voando bem baixo, a cerca de 3 mil metros." Ele contou que o avião bateu numa parede de ar repentina que o jogou para cima, onde havia muito menos oxigênio. "O avião não era pressurizado, e fiquei com medo de desmaiar. Eu estava com o nariz para baixo o tempo todo, mas pulei uns 700 metros. É em momento assim que você realmente merece seu salário de piloto."

É por isso que pilotos comerciais fazem de tudo para evitar turbulência. Um avião comercial nunca se aproximaria de uma montanha a 3 mil metros e sempre contorna tempestades de raios em vez de atravessá-las. E, outra vez, não porque os aviões não aguentam essas condições, mas porque o passageiro normal não entende o que está acontecendo. Para Keith e Ron, sofrer turbulência é como passar por um buraco. Isso chama atenção indesejada para o motorista, embora não cause problemas.

"Parece que muitos aviões caíram recentemente", destacou Ron Bartsh, abordando meu principal problema com aviões. "Porém isso é mais uma impressão do que realidade: 2013 foi o ano mais seguro já registrado, e 2014 não ficou tão atrás." Ele também apontou que os acidentes aéreos altamente noticiados do ano passado foram sem precedentes e nenhum deles foi resultado de turbulência. Aí ele me falou para conferir os números.

Três bilhões de pessoas voaram em 2014, com 692 mortes em voos comerciais. Com números assim, você tem mais chance de ganhar na loteria do que de morrer num acidente de avião.

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Tradução: Marina Schnoor