Foto: Gabriel Uchida

As Oferendas de Cuba

Gabriel Uchida

I don't practice santeria...

Foto: Gabriel Uchida

Segunda-feira de manhã em Havana e sou acordado por um barulho diferente. Galinhas esperneando, percussões e gente cantando. Levanto da cama e como todas as casas do centro da cidade são coladas, dou uma espiada no quintal do vizinho. O mal estar da ressaca é multiplicado por cem ao ver animais mortos e despedaçados, penas e sangue no chão. Um ritual de santeria não é uma cena fácil para alguém ateu e vegetariano.

Ainda que Cuba seja um país sem religião oficial desde a revolução, a santeria é a mais popular na ilha. Impressionado com a história dos animais mortos e ao saber que os rituais tem disposição para o mal e para o bem, falei para meu assistente local que iríamos procurar as oferendas mais sinistras. Ele inventou desculpas, enrolou, eu insisti e ele disse que não faria este trabalho. Procurei outro assistente que também fugiu do assunto. Aparentemente ninguém queria se meter nisso comigo, então fui atrás do antropólogo e especialista no tema Juan Mesa para explicar os trabalhos que encontrei pela capital:

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A ave foi cravada em uma paineira e diz a lenda que é nesta árvore onde vivem os orixás, por isso é considerada sagrada. Pela cor branca, deve ser uma oferenda a Obatalá, que criou a Terra e também já salvou os humanos da destruição.

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A cabeça da galinha foi deixada no chão para provar que a oferenda ao orixá foi feita. Quando é um sacrifício de nascimento, o animal é comido depois do ritual. Quando é para salvar a vida de uma pessoa, não é comido porque é uma troca - a vida do bicho pela vida da pessoa.

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O sapo foi pregado em uma paineira com o nome de uma pessoa escrito em um papel que está na boca do animal. Esta não é uma oferenda a um orixá específico, tem apenas a função de evitar ou fazer o mal a alguém.

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Este boneco foi encontrado na esquina de uma delegacia e foi feito para livrar alguém, salvar a pessoa da polícia. Para que represente o indivíduo tem que ser confeccionado com um pedaço de tecido da roupa da pessoa ou com um pano que tenha sido usado para limpar o suor do mesmo.

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A tartaruga é um sacrifício para Xangô. O sangue vai para o orixá e o corpo para a natureza. O animal foi oferecido para salvar alguém, então a morte fica com o bicho ao invés da pessoa.

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As folhas são de língua de vaca e dentro delas estão nomes de pessoas que estão prejudicando alguém. O formato de bumerangue é para que todo o mal volte para quem o enviou. O ovo significa a limpeza da pessoa que quer se proteger.

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O cactos é uma planta forte porque tem muitos espinhos. Dentre dele está o nome ou algo do inimigo - um algodão com suor, por exemplo. O objetivo deste trabalho é buscar a proteção de alguém que lhe faz mal. O tecido vermelho em cima é porque foi um pedido para Xangô.

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A galinha sem cabeça é um presente deixado aos orixás na paineira. Neste caso, a pessoa se limpou com a oferenda. O sacrifício deveria ser enterrado porque na profundidade da terra tem mais ligação com a natureza, porém, como é mais prático, o animal foi apenas deixado no pé da árvore.

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Esta é uma homenagem aos mortos, não aos orixás. Foi feita para reverenciar um antepassado ou lhe pedir algo, por isso os presentes: copo de rum, charuto, pão, etc. No começo de todas as cerimônias de santeria são realizados tributos aos mortos para que o ritual saia bem.

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