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Conheça o Projeto Dúdús, plataforma digital criada para divulgar trabalhos de jovens negros

O criador do projeto Gabriel Hilair conta que pretende criar novas narrativas pretas na arte.

por Marie Declercq
16 Novembro 2016, 9:00am

Foi observando a falta de oportunidade e espaço que amigos e outros artistas negros têm ao executar um projeto ou criar algo novo que Gabriel Hilair decidiu criar o Projeto Dúdús para impulsionar a presença de afrodescendentes nos diálogos da arte. Com meses de vida, a plataforma digital idealizada pelo produtor e arte-educador já conta com mais de 17 trabalhos divididos entre cerca de 25 jovens artistas.


Gabriel Hilair. Foto: Pétala Lopes/Coletivo Amapoa/VICE

Hilair acabou de completar 18 anos e está há quatro meses morando em São Paulo. Nasceu no sul de Minas Gerais, numa cidade de pouco menos de 100 mil habitantes chamada Itajubá. Apesar da maioridade recém completada, Hilair já viajou pelo país para dar palestras, participar de debates e presidir oficinas de arte-educação. "Com 16 anos escrevi um texto no meu Facebook chamado ' Carta Aberta para os Brancos Pró-Movimento Negro' e ele teve mais de 10 mil compartilhamentos em uma semana. Na época estudava como bolsista integral do Objetivo lá da minha cidade e estava revoltado com as coisas que aconteciam nesse lugar", lembra.

Com o texto, Hilair acabou se tornando um dos nomes fortes para discutir a identidade racial e o racismo no Brasil. Começou a ser ouvido, lido e levado a sério em espaços onde jamais imaginaria. "Ninguém me ouvia nas aulas. A professora sequer achava que eu existia. Depois de tudo, ela começou a ler meus textos em aula." O produtor também organizou duas edições de um evento sobre a negritude na sua cidade natal. O evento despertou admiração e também ódio de racistas. Tanto é que Hilair foi agredido por um grupo de neonazistas na segunda edição do evento, tendo duas vértebras fraturadas. Hilair, mesmo assim, voltou de cadeira de rodas para o segundo dia do evento.

A militância política exige muita sanidade mental e paradoxalmente é o que mais faz mal pra nossa cabeça. - Gabriel Hilair

"A militância política exige muita sanidade mental e paradoxalmente é o que mais faz mal pra nossa cabeça", conta Gabriel. Foi em um evento na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) com cinco mil presentes que ele viu que precisava levar a sério o que tinha em mãos. Especialmente porque, segundo ele, pretos não ocupam espaços como o que ele conquistou. "Nós somos silenciados há muito tempo. Nós não temos sequer material acadêmico escrito por negros para trabalhar", afirma. "Vi uma palestra uma vez sobre a Virgínia Leone Bicudo, psicanalista do JK e foi a primeira pessoa preta a publicar uma tese acadêmica. Ela escreveu em 1954 sobre as relações interpessoais após a abolição da escravidão, texto que foi publicado só em 2010 pela Unicamp".

Mesmo assim, Hilair diz ainda ser muito difícil para as pessoas aceitarem sua identidade. "Eu sou uma bicha preta afeminada. Ou seja, em rolês negros sofri discriminação por ser gay. Em rolês LGBT sofri racismo e em rolês de bichas pretas e afeminadas me senti deslocado porque chegou no rolê toda patrícia e o pessoal acha que tenho que seguir a estética do tombamento. É complicado."


Nessa jornada para conquistar espaços e quebrar paradigmas, Hilair rapidamente viu que outros pretos que queriam seguir o caminho da arte tinham o triplo de dificuldade que os demais. "Quando fiz produção cultural, tive que pensar em muitos artistas negros para exposições, mas vi que era muito precário trazer essa galera. Vi que eles também não tinham grana para produzir, criar. Eu via isso e ficava incomodado. Comecei a ajudar com o dinheiro de algum evento que fazia e mandava pra amigos produzirem. Só que eu precisava de algo concreto."

De acordo com o produtor, mesmo com a suposta inclusão tecnológica, os negros ainda estão nas margens desse acesso por ainda não poder usufruir da tecnologia. A impressão de que a rede mundial de computadores teria resolvido o problema de invisibilidade negra é uma ilusão.

Inserção do negro na tecnologia, de Vitória Cribb. Imagem reprodução do Facebook

E assim nasceu o Projeto Dúdús (que significa escuros, negros, pretos" em iorubá). Primeiro em um grupo fechado do Facebook no qual artistas postavam suas ideias e seus projetos buscando opiniões e uma forma de executá-los. Os projetos, assim, começaram a sair do papel seja via financiamento coletivo ou até por ajuda mútua entre os artistas. "Eu tenho a vantagem de ter contatos, então usei isso para concretizar os projetos deles", conta Gabriel.

Assim que as obras começaram a ser divulgadas no Instagram e no Facebook (as duas páginas principais do projeto), Hilair viu que conquistou um destaque com esse trabalho e conseguiu encontrar seu nicho de atuação na criatividade. "É um lugar que sou acolhido e onde conquistei mais coisas do que na militância política."

Trabalhando com a imagem, estética, criatividade e todas as possibilidades da arte, Gabriel sentiu que poderia difundir suas mensagens para muito mais longe. "O processo criativo é se libertar e eu acho que muito mais efetivo essa libertação vir da arte", diz, orgulhoso.

O Dúdús está aberto para receber trabalhos de qualquer pessoa negra e já descolou uma parceria com o site gringo Afropunk para divulgar os trabalhos dos artistas. No catálogo, opções não faltam: fotografia, moda, curta-metragens, videoclipes, performances e experimentos sonoros.

Assim como o estilista Apolinário, Hilair e sua curadoria de artistas promovem uma ocupação total de espaços elitizados da arte e da moda. "Eu costumo dizer que as portas não se abrem pra gente. Ou a gente pula a janela ou arrombamos a porta. A gente tem que estar presente literalmente, é uma ocupação física. Ocupar rolê de branco, ocupar tudo."

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