​Como o Palmeiras saiu da lama para voltar a ser uma potência esportiva e financeira
Foto: Felipe Larozza/ VICE
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​Como o Palmeiras saiu da lama para voltar a ser uma potência esportiva e financeira

Quatro anos atrás, quem dissesse que o clube seria campeão nacional e teria superávit de R$ 80 milhões seria chamado de lunático. Mas aí veio o 'Milagre Verde'.
27 Novembro 2016, 12:00pm

A foto viralizou na internet. Um piloto de agasalho verde e branco observa com os braços cruzados o próprio carro capotado. O modelo Mini leva na lataria o distintivo do Palmeiras e o número 14. Trata-se de uma referência ao ano de fundação do clube paulista, batizado Palestra Itália em agosto de 1914. O co-piloto, blusa amarrada na cintura, aponta os polegares para baixo, enquanto dois mecânicos avaliam o estrago.

O acidente foi registrado em março de 2012, durante a etapa do México do Mundial de Rali, disputada em León. O piloto resignado é Paulo de Almeida Nobre, advogado, "trader" do mercado financeiro e presidente do Palmeiras desde janeiro de 2013. O veículo tombado no buraco, com a base de uma montanha ao fundo, representa em certa medida o cenário que ele encontrou ao se eleger para o primeiro de seus dois mandatos no Verdão.

Assista ao vídeo: Por dentro da torcida do Palmeiras em 360

O Palmeiras era uma máquina desgovernada. Um bólido com as rodas para o alto. Meses antes da eleição de Nobre, sofrera o segundo rebaixamento em dez anos ao terminar o Campeonato Brasileiro na antepenúltima colocação. Os salários do elenco, tecnicamente pobre, estavam atrasados. O balanço anual de 2012 contabilizara prejuízo de R$ 22 milhões.

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Era só a parte visível da cratera. As receitas para 2013 e 2014 já estavam comprometidas, por causa de adiantamentos tomados por gestões anteriores. O antecessor de Nobre na presidência, Arnaldo Luiz de Albuquerque Tirone, já utilizara 75% do valor pago pela TV Globo pelos direitos de transmissão dos jogos do time.

À época, seria chamado de lunático quem dissesse que, em menos de quatro anos, o Alviverde voltaria a ser uma potência esportiva e financeira. Mas foi o que aconteceu. Campeão brasileiro pela primeira vez desde 1994, o clube vai encerrar 2016 com faturamento superior a R$ 420 milhões e superávit estimado em R$ 80 milhões.

O carro capotado não só retornou à trilha como também assumiu a liderança da corrida.

Manobra arriscada

Uma confluência de fatores explica o "Milagre Verde", a começar pelo aporte de um presidente endinheirado. Durante os últimos três anos e dez meses, Paulo Nobre emprestou ao Palmeiras cerca de R$ 200 milhões. No início, os recursos oriundos do mandatário eram usados para custear contas vencidas ou prestes a vencer. Havia risco de corte no fornecimento de água e luz na Academia de Futebol, o centro de treinamento do Verdão. Bancos resistiam a oferecer crédito para um clube com fama de mau pagador.

As dívidas sufocavam a diretoria recém-empossada. No quinto dia de trabalho, o presidente foi informado sobre a necessidade de pagar uma prestação de R$ 7 milhões à LDU, do Equador, pela compra do atacante Hernán Barcos, efetuada uma temporada antes. A solução de emergência foi vender o argentino ao primeiro clube que se dispusesse a assumir a pendência com os equatorianos. Barcos aportou em Porto Alegre para defender o Grêmio.

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"Havia um caos administrativo-financeiro, não havia dinheiro suficiente para tocar o dia a dia, a equipe estava totalmente desacreditada... Para piorar, a queda para a Segunda Divisão deixou a autoestima da torcida na lama", diz Nobre à VICE Sports. "Eu via que a saúde do clube dependia de um remédio amargo. Não havia outra saída."

Para estancar a sangria, era preciso alongar as dívidas de curto prazo, o que se tornou possível graças aos empréstimos a juros baixos feitos pelo presidente. Em vez de dever para um banco, o clube passou a ser "cliente" de Nobre, com a diferença de que a "instituição financeira", neste caso, não almeja lucro. O ex-piloto de rali só começou a receber o dinheiro de volta há poucos meses. O pagamento pode ser realizado em até 12 anos.

"O Paulo é doente pelo Palmeiras, vive o Palmeiras dia e noite. Fez todo o possível para ajudar o clube a sair daquele momento terrível", afirma Reginaldo Tripoli, o Xexéu, ex-diretor administrativo do clube. "Não gosto nem de imaginar o que teria acontecido ao Palmeiras se ele recusasse o desafio de comandá-lo."

Tamanha generosidade foi insuficiente, porém, para produzir bons resultados esportivos ao longo do primeiro mandato do dirigente. Depois de retornar à Primeira Divisão sem atropelos, o Verdão esteve à beira de um novo rebaixamento no ano de seu centenário. Escapou do vexame graças ao Santos, que derrotou na última rodada o Vitória, provocando a queda do time baiano. O déficit acumulado em 2014 foi de R$ 28 milhões.

Alta velocidade

A inauguração do Allianz Parque, em novembro de 2014, serviu como combustível para o Palmeiras reagir em ritmo acelerado. A arena multiuso, erguida no mesmo lugar onde antes se localizava o velho Palestra Itália, turbinou as receitas alviverdes. No ano passado, elas somaram R$ 351 milhões, R$ 107 milhões a mais do que nos 12 meses anteriores.

A curiosidade despertada pelo estádio remodelado, associada a uma política agressiva de contratações (foram 25 em 2015), fez decolar o faturamento com planos para sócios-torcedores. Em 2012, os oito mil adeptos do Avanti geraram lucro de R$ 300 mil; em 2015, os mais de 120 mil integrantes do programa garantiram R$ 31 milhões.

O "boom", aliado à melhora na qualidade do time, resultou em um aumento de 276% na arrecadação com bilheteria: a receita bruta saltou de R$ 23 milhões em 2014, quando a equipe mandou a maioria de suas partidas no Pacaembu, para R$ 87 milhões na temporada seguinte. O contrato firmado com a WTorre, construtora responsável pelas obras da arena, assegura ao Verdão 100% do valor arrecadado com a comercialização de ingressos.

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A média de público nos jogos do Palmeiras quase triplicou em relação a 2010, ano em que se iniciou a reforma do Palestra Itália. Pulou de 11 mil torcedores por duelo para os 28 mil atuais. A taxa de ocupação do estádio, acima de 70%, é a maior entre os clubes da Primeira Divisão, a despeito de o preço do ticket médio no Allianz (R$ 60) ser o mais caro do Brasil.

"A abertura da arena foi a grande responsável pela melhora financeira do Palmeiras. Fez toda diferença neste processo de recuperação", afirma Amir Somoggi, consultor em gestão esportiva e planejamento estratégico para clubes de futebol.

Como o Paulo Nobre vai se comportar fora da presidência? Continuará colocando dinheiro no clube? Penso que o Palmeiras tinha capacidade para se reestruturar sem recorrer a um salvador

Administrador de empresas e pós-graduado em marketing pela Universidade de Barcelona, na Espanha, Somoggi é crítico do modelo palmeirense de administração. Reconhece haver equilíbrio entre gastos e despesas, mas questiona a suposta submissão do clube em relação ao presidente milionário, que se despedirá do cargo em janeiro.

"Não estou negando os méritos do Paulo Nobre. A gestão dele foi melhor do que a de seus antecessores. Coisas boas foram feitas, como o investimento nas categorias de base. O Gabriel Jesus surgiu na base do Palmeiras", diz o consultor, referindo-se ao atacante negociado com o Manchester City, da Inglaterra, por R$ 121 milhões. "O problema, a meu ver, está no mecenato, na dependência que ele provoca. Como o Paulo Nobre vai se comportar fora da presidência? Continuará colocando dinheiro no clube? Penso que o Palmeiras tinha capacidade para se reestruturar sem recorrer a um salvador", opina Somoggi.

Fora da curva

Salvador é um termo que também pode ser aplicado a José Roberto Lamacchia. O dono da Faculdade das Américas e da Crefisa, empresa de crédito pessoal presente no mercado desde 1964, firmou com o Alviverde o maior acordo de patrocínio do futebol brasileiro. Torcedor fanático do Palmeiras, o empresário já investiu no clube cerca de R$ 140 milhões. Parte desse dinheiro foi direcionado à construção de um hotel no CT palmeirense e ao pagamento do salário do centroavante Lucas Barrios, o jogador mais caro do elenco.

Os valores surpreendem pelo momento vivido pelo Verdão à época da assinatura do contrato. O clube não tinha um patrocinador máster havia um ano e nove meses, desde o fim do vínculo com a montadora Kia. Em 2014, a receita com publicidade no uniforme foi de R$ 17 milhões; nesta temporada, alcançará R$ 78 milhões. Para efeito de comparação, a Caixa Econômica Federal pagou R$ 48 milhões a menos do que a Crefisa para estampar sua marca na camisa do Corinthians campeão brasileiro em 2015.

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De acordo com estudo publicado em julho pelo Banco Itaú BBA, braço de investimento do Grupo Itaú, as contas do Palmeiras estão equilibradas e o cenário é positivo. A ressalva diz respeito justamente ao patrocinador. "O crescimento das receitas publicitárias está concentrado num único 'sponsor'. Isto coloca em risco as receitas caso haja ruptura. No momento não parece uma realidade, mas ela sempre pode chegar. E nesse caso o risco é maior, porque o valor pago está bastante acima da média de mercado", adverte o relatório.

O relacionamento entre Crefisa e Verdão tende, porém, a se estreitar em 2017. Eleito para suceder Nobre, o atual vice-presidente Maurício Galiotte cumpriu o papel de elo entre parceira e clube nos últimos dois anos, sempre apaziguando os conflitos surgidos durante esse percurso. O contrato de patrocínio deve ser renovado por mais de R$ 80 milhões anuais.

Direção segura

O cofre abastecido permitiu que a direção cozinhasse em banho-maria a negociação pelos direitos de transmissão das partidas da equipe na TV fechada. A situação é inversa à do São Paulo, cujas dificuldades econômicas forçaram o clube a fechar, ainda em fevereiro, um novo acordo com o Sportv, pelo qual recebeu luvas de R$ 60 milhões.

O Palmeiras prepara para breve o anúncio do acerto com o Esporte Interativo, emissora do grupo Turner. Segundo aliados de Nobre, a premiação pela assinatura será de quase R$ 90 milhões. Se o valor for acrescentado ao balanço financeiro de 2016, com divulgação prevista para abril, a receita anual do clube terá sido superior a R$ 500 milhões.

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"As perspectivas para o futuro, a meu ver, são muito, muito positivas. Teremos um presidente comprometido, que participou dessa reconstrução ao meu lado durante quatro anos. Tem totais condições de seguir, ao seu estilo, o trabalho que vem sendo realizado", diz Nobre.

O desafio para o futuro é manter a máquina no rumo e evitar as derrapagens do passado.