A Luta para que os Feiticeiros Tanzanianos Parem de Massacrar Albinos

Curandeiros e feiticeiros sempre consideraram as partes do corpo de pessoas com albinismo como ingredientes essenciais para suas receitas mágicas. Sabe-se também que homens com AIDS raptam jovens meninas albinas, acreditando que estuprá-las pode curar...

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27 Fevereiro 2013, 5:50pm

Gamariel Mboya é o cara de chapéu.

A Tanzânia é conhecida por muitas coisas, especialmente pela comida incrível. Eles têm o kisamvu, uma mistura de vegetais que fica ótima com arroz; o bamia, um prato com carne e cozido de quiabo, e a mchicha, um tipo de curry de amendoim. Mesmo sendo muito gostosos, aos olhos dos feiticeiros e curandeiros tanzanianos, nenhum desses pratos tradicionais chega aos pés de um outro: um prato feito de cabelo, sangue, membros e ossos de pessoas albinas.

Curandeiros e feiticeiros sempre consideraram as partes do corpo de pessoas com albinismo como ingredientes essenciais para suas receitas mágicas. Esses praticantes de muti — ou “assassinato medicinal” — acreditam que essas receitas curam doenças e concedem fortunas de El Dorado para os pobres. Sabe-se que homens com AIDS raptam jovens meninas albinas, acreditando que estuprá-las pode curar sua doença. Pescadores frequentemente pagam caçadores por suas presas humanas, acreditando que um ou dois membros de um albino podem atrair mais peixes para suas redes.

Mais de 71 pessoas com albinismo foram assassinadas nos últimos seis anos. Este mês, um garoto de sete anos foi mutilado por um bando de homens que decidiram que tinham gostado do braço dele, enquanto voltava da escola.

Cansados dessa merda, os bons homens e mulheres da Tanzânia se mobilizaram e responderam, formando grupos ativistas de pessoas com e sem albinismo. Conversei com Gamariel Mboya, um cara muito simpático da Tanzânia que também tem albinismo, para saber um pouco mais.

VICE: Conte um pouco sobre você, Gamariel.
Gamariel Mboya: Meu nome é Gamariel Mboya. Sou uma pessoa com albinismo dos planaltos do sul da Tanzânia, uma região chamada Mbeya. Tenho 29 anos e sou casado. Tenho uma filha e trabalho para a organização Under the Same Sun.

Como foi crescer na Tanzânia?
Não foi fácil. As pessoas com albinismo não recebem apoio o suficiente da sociedade, e como resultado disso aprendi a não confiar em ninguém. Não somos tratados como seres humanos.

Um relatório da Pew Forum revelou que mais de 60% dos tanzanianos dependem e acreditam nos curandeiros tradicionais, que afirmam que as pessoas com albinismo têm poderes sobrenaturais. As pessoas acreditam que nossos ossos, sangue ou cabelos trazem boa sorte e que mulheres com albinismo podem curar a AIDS.

Como as pessoas com albinismo se sentem em relação ao termo “albino”?
A palavra tem sido usada com implicações e inferências negativas de várias maneiras. Quando eu era criança, mesmo quando as pessoas sabiam o meu nome, elas ainda escolhiam se referir a mim como “o albino”. O termo é desumanizador. Mas muitas pessoas com albinismo referem-se a si mesmas como albinos. Hoje tentamos encorajar as pessoas a separar nossa condição genética de quem somos como pessoas.

Como as pessoas costumam atacar os alvos que têm albinismo?
Eles normalmente atraem as crianças com presentes e doces, fingindo que são amigos delas. Eles caçam as crianças das maneiras mais enganosas possíveis. Às vezes eles se escondem nos arbustos, esperando para atacar.

No caso das mulheres, os homens tentam seduzi-las. Eles as chamam para sair e começam relacionamentos para ganhar sua confiança. Já vimos casos onde homens casaram com mulheres com albinismo só para atacá-las. Recentemente, em uma das serras do sul, uma mulher foi atacada por seu marido e um grupo de outros homens. Quando tudo mais falha, os atacantes usam até armas de fogo.

O que eles fazem com as partes dos corpos?
As partes dos corpos frequentemente são encontradas na casa de feiticeiros. Às vezes elas são enterradas como parte do ritual de sacrifício, mas na maioria das vezes são usadas em amuletos — os ossos são triturados e colocados dentro dos amuletos.

Por que a polícia e o governo não fazem nada para impedir isso?
Em primeiro lugar, a natureza do sistema legal do país impede que a justiça seja alcançada rapidamente. De mais de cem ataques e assassinatos informados, só cinco dos acusados foram condenados — dois dos casos resultaram em absolvições. Em segundo lugar, não há uma verdadeira vontade política de acabar com essas atrocidades, e apoiar pessoas com deficiência não está no topo da agenda do governo.

Mas em alguns casos a polícia tenta ajudar. Eles podem ser muito eficientes, investigando os ataques e prendendo os suspeitos. No entanto, os relatórios também mostram que alguns policiais defendem os criminosos e destroem evidências.

Muitos acreditam que atacar pessoas com albinismo — que supostamente têm poderes sobrenaturais — é uma maneira fácil de ficar rico e acumular poder político. Então muitos dos tanzanianos envolvidos nesses assassinatos de muti são políticos e pessoas muito ricas.

Vemos muitos casos de ataques e sequestros nas notícias. Há algum caso especialmente horrível que se destacou para você?
São muitos para falar, mas a história de Adam Robert é uma de que sempre me lembro. Ele teve seus dedos cortados e sofreu ferimentos terríveis no braço quando foi atacado na porta de casa, enquanto seu pai e sua madrasta estavam lá dentro.

Adam era um dos dois filhos com albinismo na família. Seu pai decidiu se divorciar da mãe dele porque a culpava pelo albinismo. A mãe de Adam teve que deixar a família e seu pai ganhou a custódia das crianças. Depois o pai decidiu tirar as crianças da escola, afirmando que estava preocupado com as distâncias que eles tinham que percorrer e com a segurança deles. Ele colocou as crianças para trabalhar em casa, cuidando das pastagens da família.

Um dia, Adam estava trabalhando quando descobriu um homem estranho andando pela propriedade. O homem parecia instável e fez perguntas estranhas. O Adam contou ao pai sobre esse homem que estava sempre bisbilhotando, mas o pai não prestou muita atenção. Um dia, o homem atacou o menino. O pai de Adam foi preso por negligência, mas já foi solto. Agora o Adam está ainda mais preocupado com sua segurança.

Você já passou por um ataque similar ou por discriminação?
Sempre sou discriminado. Tive que lidar com muitas ofensas e bullying na escola. Minha vida toda fui excluído da sociedade por causa de quem sou. Muitas pessoas com albinismo não conseguem arrumar emprego, eles são sempre rejeitados por causa de sua condição.

Como você lida com isso?
O silêncio é uma das minhas grandes armas, mas também tento ser esperto e me aproximar de pessoas que me discriminam para educá-las sobre essa condição genética. Também recebo muito apoio da minha família, especialmente da minha esposa. Organizações como a “Under the Same Sun” também são ótimas.

A discriminação contra pessoas com albinismo acontece muito mais na Tanzânia do que em outros países?
Pessoas com albinismo encaram grandes desafios por toda a África. Talvez você não ouça falar sobre o que está acontecendo em outros países porque a imprensa nacional deles não tem tanta liberdade quanto a nossa.

Como a comunidade albina responde?
Temos alguns centros onde crianças com albinismo são mantidas de tempos em tempos, mas no momento não temos apoio suficiente disponível. No geral não existem planos ou estratégias para proteger as pessoas com albinismo.

O que você acha que pode ser feito para melhorar as condições de vida das pessoas com albinismo?
As pessoas têm que reconhecer os problemas que temos, criar programas e liberar fundos voltados para os desafios que encaramos. Também temos que encorajar as pessoas a pensar positivamente no albinismo, deixando de lado todos os mitos e mentiras que causam tantos problemas. Se fizermos isso, finalmente poderemos ter uma mudança.

Boa sorte, Gamariel.

Saiba mais sobre o Gamariel no site underthesamesun.com

Siga o Leke no Twitter: @QuadriSanusi

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