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Coluna do Greg Palast

China e Estados Unidos em Guerra Nuclear no Afeganistão

A China adquiriu, lentamente, mais de 90% da capacidade de produção da Terra em minerais raros, o que faz o Pentágono se borrar nas calças, pois o exército norte-americano sabe que a China não vai emprestar nem uma xícara de neodímio para que os aviões...

por Greg Palast
30 Julho 2013, 1:45pm

Greg Palast é um autor de best-sellers lançados pelo New York Times e um destemido repórter investigativo que trabalha para a BBC Television, a Newsnight e o The Guardian. Palast mastiga e cospe os ricos. Veja suas matérias e filmes em www.GregPalast.com, para onde você também pode mandar aqueles seus documentos carimbados como “confidenciais”.

Lei Número Um do Investigador: os fatos mais importantes são aqueles que desaparecem.

No dia 13 de junho de 2010, o New York Times deu um grande “furo” na primeira página: o Exército dos Estados Unidos descobriu que o Afeganistão tinha uma carga de minerais inexplorados no valor de trilhões de dólares. Mesmo a imprensa dos Estados Unidos, normalmente sonolenta, vomitou essa “revelação”. O Daily Beast/Newsweek escreveu: “O New York Times tem pedra na cabeça?”

Os jornalistas riram do óbvio. O Times estava sendo usado pelos militares norte-americanos para divulgar um repentino tesouro no Afeganistão, que transformaria num poço de dinheiro a guerra que só deu prejuízo ao país.

No entanto, a história de que o Afeganistão tem um monte de pedras excepcionalmente valiosas (lítio, carvão, ouro e “minerais raros”) já era pra lá de manjada. Grande “furo”, caras. O Times tinha revelado estrategicamente o segredo não tão secreto de que Afeganistão era a “Arábia Saudita do lítio” para ajudar a convencer a América a investir mais sangue e dinheiro no Grande Jogo.

E, mesmo assim, fiquei sentindo que havia algo ainda não revelado. Havia algo perdido no meio dessa história. Algo importante. Algo sujo.

Então, comecei minha pesquisa num lugar óbvio: os arquivos da CIA. Os estudos da CIA referidos nos relatórios geológicos – os estudos que não existiam.

Felizmente, o Instituto de Tecnologia do Ilinóis (ITI) mantém um arquivo dos relatórios de segurança nacional “inexistentes”. Funciona assim: o ITI escaneia os documentos de papel do governo e, em seguida, eles permanecem nas prateleiras do instituto mesmo depois de o governo ter, sorrateiramente, apagado as versões eletrônicas.

Bingo! Lá, preservado em sua cripta eletrônica, estava o “Manual de Estudos de País/Área” do exército norte-americano sobre o Afeganistão, criado e atualizado entre os anos de 1986 e 1998.

A nota de introdução é meio bizarra:

“A intenção original do patrocinador da série [o exército norte-americano] era de focar primariamente em áreas ou regiões pouco conhecidas do mundo, nas quais as forças norte-americanas poderiam ser implantadas.”

Por que o exército deveria ser implantado no Afeganistão? Afinal, esse relatório foi escrito uma década antes do 11 de Setembro. Claro, não havia nada no relatório antigo sobre a al-Qaeda, o Talibã ou terroristas. No entanto, continha a mesma lista de minerais que o Times divulgou como novinha em folha muitos anos depois.

Todos, com uma exceção notável, um mineral da lista velha ficou faltando no furo do Times: o urânio.

O Times tinha publicado obedientemente o relatório secreto da pesquisa geológica dos Estados Unidos. Essa informação é pública agora. Digitei “urânio”, só que: “A busca por ‘urânio’ não encontrou nenhum documento”.

Estranho. O relatório recém-lançado listava até a minúscula reserva de caulim, um material usado para fazer porcelana “chinesa”. Mas nada de urânio.

Será que era porque a presença de urânio não podia ser comprovada? Será que os veios eram muito pequenos para serem minerados?

Nyet! Uma escavação mais a fundo revelou que o governo alemão já tinha mapeado secretamente uma radiação natural substancial no Afeganistão — inteligência roubada por espiões soviéticos na época. Logo em seguida, os soviéticos invadiram o Afeganistão e começaram a tirar os minérios em segredo, usando somente mineiros russos. Os geologistas afegãos logo sacaram o jogo soviético e venderam a informação para os militares norte-americanos.

Sangue por Petróleo é tão 2003. O Negócio Agora é Sangue por Urânio.

Semana passada, falei que Barack Obama tinha colocado uma nova base de drones no Níger, a maior fonte de urânio da corporação de suprimentos nucleares Areva. A Areva e seus parceiros norte-americanos vão fornecer urânio combustível para todas as novas usinas nucleares aprovadas pelo Obama recentemente. Assim, uma base de drones no Níger significa: proteger as minas de urânio da Areva que já foram atacadas pelo menos duas vezes pelos operadores da al-Qaeda no Sahel. Sem os drones, Obama podia dar tchau para seus planos de novos reatores.

Mas o Níger não é o suficiente. Abastecer o grupo atual de antigas usinas nucleares dos Estados Unidos vai exigir mais do que o minério que os franceses conseguirão tirar da África.

Podemos pedir urânio aos russos, mas ia ser meio constrangedor. Os russos ainda se sentem humilhados por venderem suas ogivas da guerra fria para serem reprocessadas pela Areva nas usinas norte-americanas.

Sobra o Afeganistão — cuja carga principal havia “desaparecido” oficialmente.

A Verdade Radioativa sobre Obama

Uma vez, um apresentador de rádio me perguntou por que o Obama insistia tanto na ofensiva militar no Afeganistão. Eu disse: “Quem sabe, né?”

Isso foi antes de eu ver o “Estudo de País” sumido do exército sobre a bonança mineral no Afeganistão. É simples, é cruel e é assim que o mundo funciona. Como eu disse, se você gostava do sangue por petróleo, você vai amar o sangue por urânio. E se o Obama aproveitou pouco a guerra no Iraque por causa do petróleo, a guerra pelo urânio é uma questão totalmente diferente.

Bush e Cheney vieram pelo caminho do petróleo. Para as companhias petroleiras, o Iraque tinha valor “estratégico”. Obama veio pelo caminho da energia nuclear, a cidade de Chicago, lar da maior operadora de usinas nucleares da América e um dos maiores apoiadores de Obama, a Exelon Corporation.

A Exelon foi criada pelo banqueiro Rahm Emanuel — em um acordo que formou a fortuna pessoal de Rahm — antes dele se tornar o Chefe de Pessoal da Casa Branca de Obama. (Emanuel agora é o prefeito de Chicago.) O CEO da Exelon foi um dos primeiros e maiores captadores de recursos da campanha de Obama.

E David Axelrod, o homem cuja mensagem de Esperança e Mudança fez de Obama o líder do mundo livre, tornou-se líder do mundo das Relações Públicas, segundo a Bloomberg Business Week, “operando das sombras” para criar os grupos de “consumidores” para a Exelon.

Mas será que o presidente Obama mandaria norte-americanos para morrer só por um punhado de urânio?

Claro que não! O Drone Ranger sabe que o Afeganistão também contém a única grande fonte de samário que não é controlada pela China. (O samário, um daqueles “minerais raros” usado nos ímãs permanentes das bombas inteligentes.) Idem para o neodímio, importante para as miras a laser dos jatos F-22 Raptor.

A China adquiriu, lentamente, mais de 90% da capacidade de produção da Terra em minerais raros, o que faz o Pentágono se borrar nas calças, pois mesmo os mais otimistas do exército norte-americano sabem que a China não vai emprestar nem uma xícara de neodímio para que os aviões norte-americanos possam mirar na força aérea deles.

É importante notar que, logo depois de invadir o Afeganistão em 2001, o exército americano conduziu um mapeamento de, virtualmente, cada metro quadrado da nação. O exército não estava caçando redutos terroristas, mas construindo um perfil sísmico detalhado de cada depósito mineral.


(Foto: Marinha dos Estados Unidos / Suboficial de Primeira Classe David M. Votroubek) via

Agora, é possível atar outro fio que deixei solto no artigo para a VICE sobre meu encontro com Yahya Maroofi, o negociador da paz do presidente afegão Hamid Karzai. Maroofi mencionou que os americanos estavam furiosos com Karzai por conceder os primeiros contratos de mineração para — advinha! – companhias estatais chinesas — apesar dos grandes pagamentos feitos por corporações americanas às famílias de Karzai e seus aliados políticos (na verdade, Karzai assinou parcialmente com os chineses por causa dos subornos norte-americanos, que o deixaram furioso).

Karzai está preparado para dar a concessão do urânio aos chineses.

Está claro que os Estados Unidos estão perdendo sua guerra nuclear contra a China.

Sim, é injusto. Norte-americanos morreram por esse urânio, e mataram também.

Mesmo assim, Obama vai, certamente, ordenar que seus robôs voadores protejam as minas de urânio da China. Afinal de contas, aluguel ou venda de armamento e os filmes da Dreamworks continuam sendo os únicos setores de exportação seguros dos Estados Unidos.

Além disso, os amigos do Obama da Exelon podem precisar de uma xícara de urânio emprestada da China para manter aqueles velhos reatores bombeando seu suco para Chicago — e para sua máquina política.

Sei que muitos colegas ambientalistas estão rotulando a energia nuclear como “verde” e limpa agora. Pode até haver alguma verdade aí, é só ignorar a grande pegada de carbono das botas das invasões americanas e o sangue nos drones.

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Pergunta Frequente

- O que está incluído nos Estudos de Países disponíveis on-line?

Esse site contém a versão on-line dos livros lançados anteriormente em versão impressa (com exceção do estudo originalmente digital de Macau e um projeto de estudo parcial inédito sobre o Afeganistão) da Divisão de Pesquisa Federal da Biblioteca do Congresso Americano. Isso é parte da Série de Manuais De Estudos de Países/Áreas patrocinada pelo Departamento do Exército entre 1986 e 1998. Até o momento, 101 países e regiões foram cobertos. Cada estudo oferece uma descrição e análise compreensivas da configuração histórica, geográfica, social, econômica e política da região.

[Nota: Minha secretária, Badpenny, encontrou isso no antigo relatório do Exército, mas não no ITI — cuja cópia agora, curiosamente, também desapareceu. O urânio está no final da lista — pois está em ordem alfabética.]

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