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Maré Vermelha

A História da Ocupação Militar no Complexo da Maré está Gravada

Os vídeos de celular feitos pelos agentes do conflito no Complexo da Maré se tornaram uma das principais armas na luta contra a repressão e um registro histórico do período da ocupação militar.

por Felipe Larozza
01 Junho 2015, 3:25pm

"Eles deram tiro!", diz o morador para o câmera em meio a uma discussão com soldados do Exército. Foto: Reprodução Youtube. Clique para ver o vídeo.

Viver numa região ocupada por 2.500 homens do Exército, controlada por três facções criminosas diferentes e na iminência da instalação de UPPs não é nada simples. Todos que estão dentro dessa realidade são calados de alguma forma. O tráfico, mesmo nesse cenário, tem um esquema nada agradável para disciplinar os moradores a não falarem o que ele não quer que seja dito, autorizando quem pode falar; além de tudo, os traficantes manjam muito de redes sociais. Os periquitos e a PM não podem falar - a voz deles está nas mãos do comando de suas corporações. A luta pelo controle das informações que saem da favela é quase tão intensa quanto a luta pelo controle de territórios.

"O senhor vai colocar minha vida em risco", argumenta o morador abordado para revista dentro de um beco; enquanto isso, ouvem-se ao fundo gritos dos traficantes: "Vai morrer, filho da puta!". Foto: Reprodução Facebook. Clique para ver o vídeo.

Os moradores já sabiam como era viver sob a lei do silêncio imposta pelo tráfico, mas foram tomados de surpresa pela intimidação que traz um tanque de guerra andando pelas ruas ou a abordagem por homens fardados e preparados pra guerra. Em pouco tempo, assim como em outros locais do mundo que estão em situações de conflito, começaram a aparecer na internet vídeos de celular com diversas denúncias de abusos.As imagens se tornaram uma forma de se proteger e de ter coragem para enfrentar os blindados.

"Aê, Assis! Do teu lado, aí em cima, viado!", avisa o soldado em uma intensa troca de tiros de dentro de uma lojinha. Foto: Reprodução Youtube. Clique para ver o vídeo.

Os moradores também estão apertando o REC para coisas do cotidiano, como, por exemplo, um soldado atirando de dentro de uma lojinha, ou quando alguém está no hospital e aparece um tanque de guerra na porta descarregando um sargento baleado na cabeça. Quando essas imagens são centralizadas, se cria uma visão ampla de dentro para fora das histórias que acontecem no complexo cuja imprensa tradicional, em seu modelo atual, não consegue documentar. A evolução tecnológica e a facilidade de operar as câmeras portáteis e de celular trouxe a possibilidade de se produzir esses registros. Os canais de divulgação são os mais simples - e talvez problemáticos - para o objetivo dos moradores: YouTube, Facebook e WhatsApp.

Militar baleado sendo socorrido em uma das Unidades de Pronto Atendimento do complexo. Foto: Reprodução Facebook. Clique para ver o vídeo.

Depois que vi essas imagens, me veio a frase: "Como é que eu não vi isso antes?". E, para entender melhor, apresentei os vídeos para o pesquisador em semiótica da PUC de São Paulo Paolo Demuru. Ele explicou: "Os vídeos têm uma narrativa muito forte, mas não é suficiente só jogar na internet, é necessária uma construção narrativa mais articulada: o que faremos com essas imagens? O YouTube é um grande caldeirão, você não filtra bem o que quer ver". Paolo também coloca nessa questão as mídias tradicionais: "As velhas mídias tradicionais não assumem esse tipo de narração. A coisa fica escondida, e essas imagens não alcançam toda sua força. Isso demonstra que temos um instrumento, mas precisamos de uma comunicação mais articulada. Os processos são complexos: é preciso uma comunicação comunitária para que essas imagens não percam o contexto narrativo original".

"É, sargento, o pessoal queria ação, tá aí a ação, ó." Soldados da Força de Pacificação em uma intensa troca de tiros que ocorreu no começo do ano. Foto: Reprodução Facebook. Clique para ver o vídeo.

Além dos moradores, os militares da Forças de Pacificação também querem ser entendidos e mostrar o seu lado da história. Vários deles têm câmeras acopladas em seus capacetes com justificativas estritamente militares. "As imagens são feitas para compor relatórios e aperfeiçoar técnicas", informou ao RJTV o comando militar após o vazamento de um vídeo de janeiro deste ano mostrando um intenso confronto entre o Exército e o tráfico durante uma tentativa de invasão de membros dos Amigos dos Amigos na Vila dos Pinheiros, que é controlada pelo Terceiro Comando.

"Olha como é que ficou! Fudido! É o Astronauta, faz o três." Membros do Terceiro Comando comemorando a morte do Sargento Mikami em novembro de 2014. Foto: Reprodução Youtube. Clique para ver o vídeo.

O dia a dia dos soldados não é fácil. São diversos confrontos em um local enorme, complexo e cheio de crias da favela andando armadas com fuzis para proteger os pontos de interesse do tráfico. Os moradores também não estão nem um pouco satisfeitos com a ocupação militar. O número de confrontos aumentou muito e tem deixado muitas vitimas pelo caminho.

Em um beco da Maré, a instrução: "Todo mundo carregou? Toma cuidado! Carrega essa porra e trava! Presta atenção no pé, tira o dedo do gatilho". Um comandante dá as orientações ao som de armas sendo engatilhadas e tiros vindos de longe. Foto: Reprodução Youtube. Clique para ver o vídeo.

A comunicação na Maré já está sendo articulada em páginas como a Maré Vive, que, além de divulgar notícias relevantes para os moradores, tem centralizado boa parte desses vídeos. Até curtas-metragens estão sendo produzidos na Maré. Em outros locais do Rio de Janeiro, já existem jornais comunitários impressos, como o Voz da Comunidade, do Complexo do Alemão. A esperança é que, mesmo com a saída do Exército e o início do funcionamento das UPPs, as vozes da Maré possam ser ouvidas de forma mais digna