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Consumir loucamente é a melhor maneira de acabar com o capitalismo?

Conversamos com o filósofo Steven Shaviro sobre o "aceleracionismo", termo que representa a crença de que o melhor jeito de derrubar o capitalismo é levá-lo ao limite.

por Charlie Ambler
20 Março 2015, 9:30pm

Foto de uma humana consumidora via Pixabay.

Passe tempo suficiente no Tumblr ou num dormitório universitário, e a conversa vai acabar caindo no fim do capitalismo. Essas discussões são teóricas, claro – muita gente pensou em como mudar nossa economia ocidental baseada no mercado para algo mais igualitário e iluminista, mas nada pegou, e alguns dos esforços em maior escala foram grandes desastres. Mas os anticapitalistas não param de aparecer com teorias sobre como o sistema finalmente pode cair. Uma dessas teorias é chamada de aceleracionismo: a ideia de que a hiperestimulação do mercado em massa vai terminar no colapso do capitalismo. Consuma loucamente, só beba em copo descartável e jogue um monte de pilhas gastas no mar, e o apocalipse iminente pode apressar as coisas e acabar logo com isso.

A ideia está enraizada na convicção de Marx de que o capitalismo não pode se sustentar para sempre e vai perder o gás em algum momento. Como chegar nessa finalidade ainda não está claro: há muita discussão sobre isso, e é daí que vêm as ideias do aceleracionismo. Essa teoria é, basicamente, a crença de que a melhor maneira de encurtar a vida do capitalismo é levá-lo ao extremo. Se o capitalismo normal é o Mick Jagger, o aceleracionismo é o Jim Morrison..

Um tempo atrás, Steven Shaviro, que dá aulas na Wayne State, em Detroit, e estuda o impacto do capitalismo tecnológico na cultura e no cotidiano, escreveu um ensaio sobre o aceleracionismo, explicando isso numa linguagem simples, sem todos aqueles jargões acadêmicos. Essa teoria econômica tem sido explorada por filósofos como Nick Land e Reza Negarestani, mas Shaviro ficou conhecido como uma autoridade no assunto – provavelmente por conseguir articular essas ideias filosóficas complexas de um jeito que a plebe (ou seja, nós) pode entender. Ele acabou de terminar um livro sobre o aceleracionismo chamado No Speed Limit; então, liguei para ele a fim de saber mais sobre a teoria e descobrir se meu vício em Amazon Prime está realmente ajudando a sociedade.

Selfie, cortesia do Dr. Shaviro.

VICE: O aceleracionismo me confunde, mas o que consigo entender é muito interessante. Você pode falar um pouco sobre isso?
Steven Shaviro: Definindo amplamente, "aceleracionismo" é a ideia de que o único jeito de sair disso é através disso. Se queremos ir além da ordem social e econômica atual, e alcançar um futuro pós-capitalismo, precisamos passar por todas as complicações do capitalismo em vez de reverter para algo supostamente mais antigo e puro.

O aceleracionismo rejeita certas ideias atualmente populares para a esquerda, como "o pequeno é belo", e a inimizade ludita com as novas tecnologias. Em vez disso, isso nos exorta a abraçar e redirecionar todas as mais avançadas tecnologias.

Se tecnologias computacionais estão eliminando milhões de empregos, então a melhor resposta não é exigir seu trabalho de volta, mas compartilhar a riqueza – devolver o que o 1% roubou de todo mundo – para que as pessoas possam levar vidas confortáveis sem sempre terem de se preocupar com o custo de vida ou a conta do cartão de crédito.

Fascinante. Sempre pensei que o aceleracionismo dizia basicamente que o anticapitalista de maior impacto era o capitão da indústria. Sabe, fazer o sistema ir cada vez mais rápido e aumentar a desigualdade ainda mais é o que vai destruir isso. Mas, então, esse não é o caso? Como redistribuir a riqueza pode ser considerado um movimento aceleracionista?
Há variedades diferentes de aceleracionismo. Em um extremo, o aceleracionismo pode abraçar a ideia de que,quão pior as coisas estiverem, melhores são as perspectivas de revolução para derrubar tudo. Isso parece obviamente bobo para mim, e não acho que isso seja realmente defendido por muitos aceleracionistas.

De maneira muito mais sutil, Marx disse que as contradições que afligem o capitalismo acabariam levando a uma luta entre trabalhadores e capitalistas. Ele esperava que essa luta terminasse no estabelecimento do comunismo, mas ele também alertou que isso poderia resultar na "destruição mútua das partes em conflito".

Você está dizendo que o fim está próximo?
Marx estava dizendo isso: devido às suas tensões inerentes, o capitalismo vai levar à catástrofe se não for, de alguma forma, superado. Essa é uma visão aceleracionista na extensão em que isso vê possibilidades de se superar o capitalismo surgindo de cada desenvolvimento do capitalismo como sistema mundial. Mas isso não acontece de maneira mecanicista ou pré-determinada.

Sobre como redistribuição de riqueza pode estar relacionada ao aceleracionismo... quando alguém como Thomas Piketty defende impostos globais para forçar a redistribuição de renda, ele está tentando salvar o sistema capitalista de seus próprios excessos autodestrutivos. Mas, como Slavoj Zizek observou, os ricos nunca vão pagar tais impostos voluntariamente; então, apenas aprovar esses impostos envolveria outras mudanças, com certeza radicais, que mudariam o capitalismo substancialmente.

Isso é fascinante para alguém que recebeu um marxismo muito mastigado na faculdade. Que outras leituras você recomenda sobre o assunto?
Leia #Accelerate – The Accelerationist Reader, editado por Robin Mackay e Armen Avenassian, que conta com ensaios importantes sobre aceleracionismo, e Malign Velocities, de Benjamin Noys, para uma crítica do aceleracionismo. Meu pequeno livro sobre o assunto, No Speed Limit: Three Essays on Accelerationism, acabou de ser publicado pela University of Minnesota Press.

Legal. Você pode explicar sobre o que é seu outro livro, The Universe of Things?
O livro é sobre realismo especulativo: um movimento filosófico recente que tenta pensar o que seria realmente considerar o universo em si e por si mesmo, à parte de nós. Psicólogos já mostraram que nossa percepção do mundo nunca é objetiva: ela é moldada por nossas próprias necessidades e interesses, tanto em nível individual como em termos evolucionários no geral. Notamos o que importa para nós imediatamente e, geralmente, não percebemos o que não importa.

O realismo especulativo pergunta como seria possível abordar as coisas no mundo fora dos sentidos e das classificações que impusemos a elas. Se fôssemos realmente capazes de fazer isso, o que encontraríamos?

Parece um bom exercício de humildade em termos de humanidade. Como você chegou a isso?
"Realismo especulativo" só se tornou um termo em 2007, quando uma conferência de psicologia foi realizada com esse título. Os pensadores agrupados sob esse título são muito diferentes uns dos outros e, frequentemente, têm desavenças entre si. Mas todos questionam a noção de que "o homem é a medida de todas as coisas".

Eles nos convidam a prestarmos mais atenção em entidades não humanas, até não viventes, e para considerarmos todas essas entidades não apenas como ferramentas que usamos, ou impedimentos para nossas ações, mas como "atuantes" – como o sociólogo francês Bruno Latour as chama – em seu próprio direito. Elas têm suas próprias tendências, desejos e necessidades.

Isso é especialmente importante neste ponto da história.

Exatamente! Num tempo de catástrofe ecológica iminente, é importante reconhecer a presença das entidades que compartilham o mundo conosco.

Tradução: Marina Schnoor

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