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Chegou o primeiro brinquedo erótico para homens trans

Buck-OFF espera dar a homens trans uma melhor experiência de masturbação, combatendo a disforia de gênero e agitando as coisas na indústria dos brinquedos eróticos.

por Neil McArthur
05 Outubro 2016, 11:00am

A luva de masturbação Buck-OFF. Foto cortesia de Buck Angel.

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE US.

Na década passada, a indústria de brinquedos eróticos explodiu num mercado de 15 bilhões de dólares, e observadores acreditam que ela vai chegar aos 50 bilhões até 2020. Hoje, brinquedos de todos os tipos estão à venda para atender qualquer fetiche imaginável, e o tabu em torno dos produtos está desaparecendo no nosso clima cultural. Por isso é quase inacreditável quando o carismático ativista trans e empreendedor Buck Angel diz: "Não há um brinquedo sequer na história da indústria de brinquedos eróticos feito especificamente para homens trans".

Mas isso mudou semana passada, com a chegada de um novo produto às sex shops: o Buck-OFF, um dispositivo de masturbação pensado para pessoas que fizeram ou estão fazendo a transição de mulher para homem. O produto, distribuído pela fabricante de brinquedos eróticos masculinos Perfect Fit, é criação do próprio Angel e levou cinco anos para ser desenvolvido. Essa é uma adição radical à indústria de brinquedos eróticos, e pode abrir precedente para que investidores e fabricantes ampliem seus horizontes para além das cintas-caralha e correias.

O Buck-OFF foi desenhado para pessoas que estão tomando, ou tomaram, testosterona como parte da transição, o que frequentemente tem o efeito de aumentar os genitais; o Buck-OFF lembra outras luvas de masturbação no design básico, mas há duas diferenças-chave: ele é mais curto e largo que as outras luvas e pode criar sucção. Isso permite que homens trans se masturbem mais facilmente — e também pode acabar com a disforia de gênero que surge com o uso de outros brinquedos.

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Muitas pessoas que estão fazendo ou já fizeram a transição de mulher para homem "não querem tocar seus genitais", disse Angel à VICE. "Eles estão desassociados de sua vagina porque isso não parece masculino para eles. Quando faz a transição, você quer ter um pênis, você quer se sentir um homem, e por isso você não gosta de tocar sua vagina." O Buck-OFF "permite se masturbar sem tocar a vagina".

Como os homens trans escaparam da indústria dos brinquedos eróticos até agora? Alex Iantaffi, um sexólogo e educador sexual de Minneapolis, nos EUA, que trabalha com a comunidade trans, acha que o problema está na visão que a sociedade tem das pessoas trans. Iantaffi acredita que os corpos trans são vistos "como existindo para o olhar cisgênero e quase apenas como uma forma de excitação", em vez de pessoas com necessidades e direitos sexuais.

Você pode pensar que a possibilidade de explorar um mercado novo seria suficiente para fazer os empreendedores superarem preconceitos pessoais, mas Marina Adshade, professora da Vancouver School of Economics e autora de um livro sobre sexo e economia, apontou pesquisas que mostram que investidores estão longe de serem os pensadores racionais que achamos que eles são, e o estigma pode dirigir suas decisões tanto quando a busca por lucro. "Sabemos que empreendimentos capitalistas podem ser discriminatórios", disse Adshade. "Estudos mostram que mulheres não conseguem financiamento tão facilmente quanto os homens, por exemplo. E brinquedos sexuais são caros para desenvolver. É por isso que produtos assim surgem no Kickstarter. [Investidores] podem ter achado que o mercado era pequeno demais. E os investidores querem um grande mercado para seu dinheiro."

Angel entende a cautela dos investidores. "Sempre se trata de dinheiro. Ninguém quer ser o primeiro", ele disse. Ele também acha que o tamanho desse mercado é subestimado. "É meio como quando apareceram com o primeiro computador. Você tinha que mostrar às pessoas: isso vai funcionar, gente."

Wyatt Riot, que trabalha na She Bop; uma sex shop em Portland, Oregon, especializada em produtos para o público feminino, trans e queer, disse que a loja já está estocando Buck-OFF. "Com certeza há um mercado para produtos assim; clientes já nos pediram algo similar", disse ele à VICE, acrescentando que gosta de ver produtos como o Buck-OFF chegando às prateleiras. "Muitas vezes, os trans precisam alterar brinquedos para que eles funcionem para seu corpo." Ele cita a Bro Sleeve, uma luva de masturbação que alguns homens trans modificaram, apesar de alguns terem relatado problemas ao tentar fazer isso, encontrando disforia de gênero como resultado.

Iantaffi aplaude esse novo reconhecimento das necessidades sexuais das pessoas trans. Ele diz que é essencial que todos tenham acesso a ajuda sexual para atender suas necessidades, e que isso pode ser "valiosíssimo para uma pessoa explorando seu corpo e sua sexualidade". No entanto, ele também se preocupa com como aparelhos como o Buck-OFF serão vendidos. "A venda de brinquedos eróticos para os trans e a publicidade disso também é um jeito de monetizar seus corpos", disse. "Acho que ver aparelhos como esse em sex shops pode reforçar o discurso de que as pessoas trans são diferentes do 'normal', que implicitamente quer dizer pessoas e corpos cis. Eu gostaria de ver publicidade de aparelhos como esse focando em função e propósito, não em gênero. O binarismo trans/cis ainda pode reproduzir o cisgenderismo, mesmo quando trabalha para o reconhecimento das identidades trans."

Angel acredita que esse produto pode ajudar a validar a identidade trans masculina. Ele quer que o aparelho se torne uma ferramenta de ensino para sexólogos e educadores sexuais, para ajudar homens trans a se conectar a seus corpos. E com apenas uma semana no mercado, a recepção inicial para o Buck-OFF entre consumidores e revendedores tem sido entusiasmada. "Estamos estourando no mundo todo", ele disse.

"Tentei de tudo para me sentir bem me masturbando, mas agora finalmente me sinto homem fazendo isso, muito obrigado", diz um dos primeiros comentários sobre o produto no site da Perfect Fit. "Te amo, Buck. Você me dá força todo dia para ser o meu melhor!!!!"

Neil McArthur é o diretor do Centre for Professional and Applied Ethics da Universidade de Manitoba, e seu trabalho tem como foco a ética sexual e filosofia da sexualidade.

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Tradução: Marina Schnoor

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