A calma vibrante de Kenzo Takada

Estilista japonês visita os “novos Basquiats” do Centro Cultural Ouvidor 63

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17 Outubro 2016, 12:40pm

São Paulo, quarta-feira, céu nublado, um prédio se destaca perto do Largo São Francisco. Paredes coloridas, grafites, janelas quebradas e terraços que formam uma escadinha. Kenzo Takada olha com curiosidade. No Brasil para o lançamento do perfume AVON LIFE, o estilista japonês visita o Centro Cultural Ouvidor 63, ocupação do prédio de 13 andares no centro paulistano.

"Nossa, tem Basquiats por aqui", diz Kenzo, impressionado. Era 14 de setembro, e acontecia a 1ª Bienal do Ouvidor 63. "A identificação de nossa história com a história do Kenzo resultou num belo trabalho para todos os envolvidos", contam a artista visual e comunicóloga Moara Brasil e o músico Luis Só, que estão entre os quase 100 artistas que ocupam e organizam o centro cultural.

Os mais desconfiados talvez pensem que a ocupação, com paredes pintadas, sofás achados na rua e gente andando para lá e para cá não seja o lugar mais confortável para um estilista de 77 anos de renome internacional. Mas o Ouvidor 63, essa massa de concreto que se coloriu para cumprir seu potencial, é um símbolo do que Kenzo quer passar: a positividade pode tornar a nossa realidade mais bela.

Nascido no Japão no começo da Segunda Guerra Mundial, Kenzo Takada se interessava por moda desde criança, quando lia as revistas de sua irmã, mas acabou fazendo faculdade de Letras, atendendo à vontade dos pais. Insatisfeito com o curso, ele desiste e vai para prestigiada Bunka Fashion College, em Tóquio, sendo um dos primeiros alunos homens a ser aceito na universidade. Ser um outsider em meio a uma sociedade japonesa conservadora não o impede de buscar seus sonhos. Ele vai para Paris logo depois de se formar, em 1964, e tenta a vida na cidade referência da moda europeia.

Em sua primeira marca, Jungle Jap, criada em 1970, ele introduz cores e flores de inspiração japonesa em sua coleção, encantando os franceses, que não haviam visto nada parecido na época. "Procurei criar uma nova amplitude, me baseando na técnica do kimono", explicaria ele para Ginette Sainderichin, autora do livro "Kenzo".

Em 1980, a Jungle Jap ganha o nome do estilista, e a marca agora batizada de Kenzo começa a ganhar fama com seus perfumes. Em sua fragrância mais famosa, ele se inspira na papoula, flor que nasce no meio do cimento ou num mato descuidado. É um perfume imaginado para uma flor que na verdade não tem cheiro.

Kenzo Takada se aposentou da marca em 1999 para se dedicar à arte, mas não conseguiu ficar parado: em 2005 lançou a marca de artigos de decoração Gokan Kobo; de tempos em tempos, se dedica a projetos especiais como a parceria com a Avon. E a marca Kenzo não perdeu sua força, muito pelo contrário. Quem não se lembra dos moletons com estampa de tigre que vestiam todas as fashionistas alguns anos atrás?

Tímido e elegante, o estilista não demonstra cansaço mesmo após andar para lá e para cá em sua visita ao Ouvidor 63. Certas vezes, ele parece entrar em estado meditativo. E num momento, quando ninguém parecia ver, ele acompanha a tradutora na tradicional dança do arroz. Quando ele sobe ao terraço para jogar flores lá do alto, um grupo de pessoas se junta na rua para pegar as pétalas que caem do céu, num momento mágico. Naquela hora, a natureza vibrante do Ouvidor 63 e a personalidade calma de Kenzo Takada entram em perfeita harmonia.

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