​Talco de Vidro: a Infelicidade da Classe Média na Nova Graphic Novel de Marcello Quintanilha

Choro, vômito, angústia e descambadas emocionais. As horríveis consequências da inveja entre duas mulheres selam o enredo da nova HQ da editora Veneta.

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30 março 2015, 12:30pm

Rosângela sofre da síndrome da vida perfeita. Ela é dentista, manda bem na profissão, tem o próprio consultório. O marido é um ginecologista bonachão, apaixonadíssimo. Seus filhos pré-adolescentes são joia. Seu carro é novo. Sua conta no banco vai bem, obrigada. O único problema é a prima, que, mesmo sendo pobre, fodida e separada, mantém um sorriso lindo, um espírito de superação, uma tranquilidade acachapante, um cabelo loiro, os quais, aos olhos da dentista, mais parecem reluzir a luz do inferno.

Talco de Vidro, a nova graphic novel de Marcello Quintanilha lançada pela editora Veneta tem como protagonista uma mulher comum que, com o passar do tempo, arca com o sôfrego preço da mais pura e indomável inveja. E é nessa pegada que uma história aparentemente simples ganha nuances de terror psicológico em preto e branco. "Rosângela veio da minha intenção de trabalhar uma mentalidade, muito mais do que um personagem", diz o autor. A protagonista parece intencionalmente sem graça, mas sua fascinação pela prima é instigante – principalmente seu jeito de encarar a coexistência das duas como uma empáfia por parte da pobre-diaba menos abastada.

No projeto anterior, o elogiado Tungstênio (2014), Quintanilha retratou personagens do cotidiano nacional popular: policial e traficante. As ilustrações tinham mais peso e densidade. Desta vez, temos as existenciais agruras da classe média em traços leves e minimalistas em 160 páginas, no formato 26 x 17 cm, com capa dura.

Nascido em Niterói, Rio de Janeiro, e radicado em Barcelona, na Espanha, o autor mostra em seu texto um Brasil palpável: os diálogos de Talco de Vidro são extremamente coloquiais e parecem ter saído de conversas na fila do supermercado ou no ponto de ônibus. Quintanilha explica que isso "é resultado de um aprendizado permanente". Como referência, cita o falecido jornalista Mário Filho, famoso por seus textos sobre futebol inspirados na linguagem dos próprios torcedores.

Para seu criador, Rosângela é "dotada da mais capilarizada rede de sentimentos". Seus pensamentos agoniam o leitor. Em dado momento, a dentista – até então feliz e realizada no casamento – percebe que o cheiro do marido lhe causa uma enorme e horrível injúria. E nada mais resta ou importa quando o que vem na sequência é uma desenfreada chuva de vômito. Depois do gorfo, enquanto abraça o marido, ela fita a amiga e, com os olhos, pergunta sobre o cheiro: "Tá sentindo também?". Que agonia.

O autor relata não existir maior ou menor facilidade entre roteirizar o texto e executar as ilustrações, pois "ambos são indissociáveis". Exatamente por isso ele prefere fazer as duas coisas simultaneamente, sem uma hierarquia específica. "O desenho do quadrinho, ao contrário do que se possa pensar, não tem um caráter ilustrativo, mas, sim, um caráter narrativo", explica.

A inveja, mero couvert cujo o prato principal é a infelicidade, faz Rosângela alçar voos horríveis e extremos. Nesse momento, Talco de Vidro vira um thriller. Ponto para o autor, que entrecorta o enredo nebuloso com páginas dedicadas a um reflexivo vai e vem do mar. Pura agonia. De novo.

Um cara foda dos quadrinhos hoje no Brasil? " André Toral." No mundo? "Suehiro Maruo." Planos para o futuro, Quintanilha? "Não faço nenhum tipo de plano... para absolutamente nada."

Então, tá.

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