O Aeroporto de Guarulhos Esconde um Cemitério de Carros-fantasmas

Esqueletos de automóveis abandonados acumulam milhões em dívidas e em diárias de estacionamento no maior terminal do Brasil.

“Tem uns 40 carros abandonados como esse aí”, diz o funcionário de jaqueta verde apontando para o mar de 8 mil vagas que formam o estacionamento do Aeroporto Internacional Governador André Franco Montoro, ou Aeroporto de Guarulhos, ou Aeroporto de Cumbica.

O aeroporto de São Paulo tem três nomes - quatro com este - e talvez por isso tanta gente perca os carros por ali. Ou escolha o lugar para desová-los.

Um Fiat Marea Weekend HLX descansa sobre quatro pneus furados, completamente destruído, com a placa traseira em frangalhos e as janelas imundas. Tufos de mato crescem livremente ao redor. Coloco as duas mãos em forma de concha e colo a cara no vidro. Os objetos deixados lá dentro, sobre os bancos, fazem pensar que o motorista tenha estacionado minutos atrás.

Mas este Marea foi licenciado pela última vez há 10 anos. O carro é procurado pela justiça. O dono deu um calote no HSBC BankBrasil S.A. e suas diárias de estacionamento devem estar batendo em algum lugar perto das nuvens. Se encostou ali no mesmo ano em que licenciou o veículo pela última vez, a conta de estacionamento deve estar girando hoje ao redor de R$ 140 mil, considerando o valor da diária do pátio anunciada no site oficial do aeroporto. Com essa quantia, mais as dívidas de IPVA, DPVAT e parcelas não pagas do financiamento, daria pra comprar quase 15 carros iguais – se alguém no mundo realmente quisesse investir dinheiro num maravilhoso Marea 2001. Com uma fatura dessa monta, obviamente o dono não vai voltar.

Ninguém quer falar sobre os carros-fantasmas de Guarulhos. Os funcionários, por medo de perder o emprego. A empresa concessionária, a Estapar, por razões que não diz. A assessoria de imprensa responsável explicou por telefone que “a Estapar não quer falar porque tem coisa de seguro envolvida. É complicado. E os empregados não têm autorização para dar declarações também”.

A gigante que administra o local cuida de mais de 10 milhões de veículos todo mês, espalhados por 900 estacionamentos em 72 municípios de mais da metade dos estados brasileiros. A Estapar tem ainda 26 mil vagas públicas dos chamados estacionamentos Zona Azul - ganha no privado e ganha no público.

O site informa que “a Estapar tem como sócio controlador o BTG Pactual, por meio da área de Merchant Banking”. Entre os investidores estão dois fundos de investimento gigantes. É gente opaca demais para falar sobre os motoristas dos carros-fantasmas. Por isso, “nada a declarar”.

Além do Marea, pelo menos outros sete veículos em estado semelhante de abandono são facilmente identificáveis na área descoberta do aeroporto de Guarulhos. Nenhum deles aparece como roubado ou furtado no banco de dados do Sinesp (Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública, Prisionais e sobre Drogas), mas vários são procurados pela justiça para ressarcir perdas de financiadoras que tomaram calote.

A história do Fiat Uno Eletronic 1993 é emblemática. Em abril deste ano, a 2ª Vara Cível do Rio de Janeiro determinou a penhora do veículo, em “alienação fiduciária”, mas, em tese, ninguém sabe onde o carro está (agora ele aparece no site da VICE, com foto e texto). O proprietário já vinha sendo procurado pela 2ª Vara Criminal por “fraude no pagamento por meio de cheque”, mas “se encontra em local incerto e não sabido”.

O GM Astra Sedan Elegance 2004, prata, é ainda mais revelador. O proprietário pagou 9 das 24 prestações de R$ 1.082,95, num financiamento contraído no Banco Volkswagen. Em 23 de abril, a 1ª Vara Cível de São Paulo disse o seguinte: “Houve a expedição do mandado de busca e apreensão, porém não foi possível localizar o veículo, nem o financiado”, que “encontra-se em lugar incerto e não sabido”. Agora, o carro aparece na matéria da VICE. Só de IPVA, este Astra deve mais de R$ 16 mil, além de R$ 1.453 em multas e os dias (meses? Anos?) de estacionamento.

Uma fonte da polícia me contou sobre golpes manjados nos quais seguradoras e financiadoras preferem que os carros nunca sejam encontrados. Quando um financiamento não é quitado até o fim pelo cliente, é mais lucrativo para o banco receber o ressarcimento em dinheiro do que reaver um bem já usado, depreciado, ainda mais com uma longa lista de dívidas de IPVA, DPVAT, multas e diárias de estacionamento, especula a fonte. Nesses casos, seria conveniente ter um pátio de desova, onde os carros não constassem no sistema.

O Banco Volkswagen, por exemplo, “ingressou com ação de busca e apreensão para restituir o veículo, ou então conseguir a devolução do dinheiro. Ocorre que o carro jamais foi encontrado. Assim, o juiz condenou o sujeito a pagar o valor equivalente em dinheiro. Só que vocês (VICE) encontraram o carro. E possivelmente o Banco Volkswagen também sabe onde ele está. Ou seja, o banco prefere receber em dinheiro, já que a liquidez de um carro usado é bem menor. Sacou?”, diz a fonte.

Saquei fortemente essa hipótese e, por isso, crivei o Banco Volkswagen de perguntas, por escrito, no dia 14 de agosto. Assim como a Estapar, a instituição financeira também não quis se pronunciar.  “O Banco Volkswagen não se pronuncia sobre casos em andamento, sub judici ou sem avaliação interna das áreas responsáveis”, disse em mensagem enviada por sua assessoria.

Deixei a financiadora e voltei ao pátio. O caixa onde os usuários pagam o estacionamento em Guarulhos permite puxar a fatura pelo número de placa do veículo. Tentei, com auxílio de funcionárias, saber de quanto era a dívida em diárias de alguns desses carros. Tentei duas placas. Menti: disse que eram carros de um tio que tinha viajado e perdido o canhoto de estacionamento. A atendente procurou por vários minutos e concluiu que nenhum dos dois automóveis consultados aparecem na lista da Estapar. É como se eles não estivessem ali. Se a concessionária sabe a razão, não quis dizer. “Nada a declarar” foi a resposta ao longo de toda a semana.

Essa história não é exclusividade brasileira. Dubai, nos Emirados Árabes, ficou famosa pelos carros de luxo abandonados - 3 mil deles só no aeroporto. Com a crise de 2009, milhares de estrangeiros que viviam no país simplesmente deram no pé, deixando as contas pra trás. É que lá os devedores vão pra cadeia. Por isso, preferem perder a caranga à liberdade.

Além de inadimplentes e aventureiros desapegados, ladrões também curtem o pico de desova de Guarulhos há muito tempo.

O jornalista Breno Altman, por exemplo, reencontrou por lá seu carro roubado. “Fui vítima de um sequestro-relâmpago em 1996. Os ladrões me pegaram em Perdizes e me deixaram no Viaduto Antártica (Zona Oeste de São Paulo). Eu expliquei que minha mulher estava internada no hospital e eu não podia ficar a pé. Então, me entregaram R$ 50 da minha própria carteira e me disseram que não desse queixa porque o carro estaria intacto no dia seguinte no estacionamento do aeroporto de Guarulhos. Assim foi.”

Pode ser que os carros-fantasmas do aeroporto de Guarulhos não passem de uma simpática lenda urbana de São Paulo. Mas, se for só isso, porque a administradora do estacionamento e os bancos envolvidos nos processos judiciais se negam a falar? Por que tantos carros procurados em tantos processos da justiça terminam todos empilhados no mesmo lugar ao longo de tantos anos? Os carros-fantasmas precisam não apenas de uma investigação séria, mas também de uma boa sessão de exorcismo para dizerem a verdade.

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