Por que os brasileiros não conseguem desgrudar de seus carros?

Nos últimos 15 anos, a indústria automobilística brasileira triplicou sua produção e o carro se tornou símbolo de status e poder.

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23 janeiro 2017, 2:38pm

Ilustração: Issao Nakabachi

'Esta matéria faz parte do projeto Ciclos, uma série sobre mobilidade urbana feita pela VICE em parceria com o Itaú.'

Em 2013, o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) registrou uma marca histórica em relação à indústria automobilística do Brasil. Pela primeira vez, mais da metade dos domicílios brasileiros possuíam um carro ou motocicleta — 54% deles, para ser mais preciso. Cinco anos antes, em 2008, o índice era de 45%. Num país onde se estima que os automóveis tenham os maiores preços do mundo, o número é prova da paixão desmedida do povo pelos veículos individuais. Nos bastidores dessa relação, o governo fez as vezes de cupido com políticas fiscais favoráveis e financiamentos facilitados para o setor.

"Nos últimos 15 anos, nossa indústria automobilística triplicou sua capacidade produtiva", diz Carlos Henrique Carvalho, pesquisador do Ipea. "Aliado ao aumento de renda entre as classes mais baixas no período e uma demanda reprimida que existia por bens duráveis, esse cenário gerou um aumento muito grande na aquisição de carros e motos", explica ele. Para dar uma ideia de como se tornou mais fácil a compra de automóveis, Carvalho lembra que até o final dos anos 90 uma das únicas maneiras de fazer isso com perspectiva de pagar a longo prazo era por meio de consórcios. Bem diferente do passado recente, no qual não raro existiam linhas de financiamento divididas em até 100 parcelas.

Também é preciso considerar o impacto econômico na desaceleração da indústria automobilística brasileira. Hoje, o setor corresponde a 30% do PIB industrial do país. Se essa indústria cresce, diversos segmentos expandem na esteira. Se ela diminui, estes segmentos caem juntos. Trata-se de uma área estratégica para o Brasil, que já tem enfrentado dificuldades nos últimos dois anos devido a crise financeira.

Ainda que uma diminuição do uso do carro acentue ainda mais a crise na indústria automobilística, este é um cenário inevitável na busca por uma melhor mobilidade urbana. Frente a isso, há dois cenários possíveis: ignorar isto e permitir que essa transformação ocorra de maneira desordenada ou planejar e incentivar por meio de políticas públicas o desenvolvimento de outras áreas, como a alta tecnologia.

BEM DURÁVEL

Considerar o carro como um bem durável, no entanto, é apenas uma das variantes capazes de explicar a adoração do automóvel no Brasil. Como aquela cena típica do pai de família que tira o sabadão para lavar o possante na porta de casa retrata bem (que hoje é mais simbólica que real nos grandes centros urbanos), a relação com os carros é pessoal, vai além do utilitarismo e entra no âmbito da definição da própria identidade.

"Há um caráter emocional na relação com o carro, um vínculo afetivo do dono com o automóvel", afirma Fábio de Cristo, professor de psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e administrador do Portal de Psicologia no Trânsito. Para ele, essa questão fica explícita na cultura do tunning, por exemplo. Apesar da especificidade do caso citado, essa característica se estende facilmente para todos os motoristas, explica Fábio.

Além do caráter emocional, o fator social também influi nessa equação. A partir de uma análise sociológica barata, isso fica claro nas menções recorrentes a camaros amarelos, naves e por aí vai em estilos musicais mais populares. De concreto: carro é status. "No Brasil, tende-se a valorizar os veículos como um símbolo social, de poder. Dessa maneira, o carro fica revestido de um valor simbólico para além do material", afirma o pesquisador.

Aos aspectos industriais, emocionais e sociais que sustentam a intimidade brasileira com os carros, soma-se à infraestrutura deficitária no que tange à mobilidade urbana. Na falta de transporte público de qualidade na maior parte das cidades brasileiras — e enquanto meios alternativos, como a bicicleta, ainda tem um presença incipiente —, ter um veículo próprio se traduz em maior controle sobre a própria vida. Em casos extremos, inclusive, é a fronteira entre poder ou não ir até determinado lugar.

"Quando você analisa esse panorama como um todo, o que fica claro é que a relação com os carros por aqui não tem nada a ver com um perfil cultural, mas é o resultado de uma série de políticas públicas", diz Fábio. Na Holanda, o carro também era o principal meio de transporte até os anos 60. Hoje, o país é famoso pela prevalência das bicicletas. "Mas essa mudanças não acontece do dia para noite, é preciso uma estratégia a longo prazo por parte do governo", explica ele, que ressalta a necessidade das convencer as pessoas a embarcarem nesse projeto. Hoje, por exemplo, quando uma iniciativa da prefeitura de São Paulo busca melhorar a fiscalização do trânsito na cidade, isso é distorcido como "indústria da multa".

"Acho que a saída é sairmos do modelo norte-americano, em que a maioria das famílias têm carros e os usa no dia a dia, para o [modelo] europeu, em que as pessoas têm carros, mas priorizam transporte público ou alternativas para o cotidiano", conta Carlos Henrique, do IPEA. "Assim poderíamos mitigar as externalidades provocadas pelos carros, como o número altíssimo de pessoas mortas todo ano no trânsito, sem afetar tanto a economia."

Acesse o site www.projetociclos.com.br e assista ao documentário sobre mobilidade urbana que fizemos em parceira com o Itaú.

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