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​História oral da Lusa vice-campeã brasileira de 1996

Candinho, Capitão, Rodrigo Fabri e César relembram a campanha do time no Brasileirão de duas décadas atrás, um dos momentos de glória da história do clube, hoje endividado e na Série D.

por Fernando Silva
13 Dezembro 2016, 9:00am

Candinho, Capitão, Rodrigo Fabri e César relembram a extraordinária campanha do time no Brasileirão de uma década atrás, um dos momentos de glória da história da Portuguesa, hoje endividada e na Série D. Ilustração: Issao Nakabachi

Há 20 anos, o status da Portuguesa era bem diferente do atual. Em vez de dívidas trabalhistas de R$ 55 milhões, que levaram a um leilão do Canindé em novembro, e de ver seu estádio interditado pela Federação Paulista de Futebol por falta de condições sanitárias e de higiene, o clube tinha um treinador elogiado por Telê Santana, disputava campeonatos pra vencer e jogava com uma equipe cheia de badalados jovens talentos, como o atacante Alex Alves (1974-2012) e o lateral Zé Roberto. Em 1996, não havia série D no horizonte: a Lusa alcançava as finais do Campeonato Brasileiro da primeira divisão jogando o fino da bola.

Mas nem naquele ano foi assim tão fácil. Pra começar, a campanha irregular na primeira fase – até ali, eram 10 vitórias, 9 derrotas e 3 empates – obrigava o time a virar o Highlander do Brasileirão na última rodada. Teve de bater o então campeão brasileiro Botafogo (4 a 1), torcer pra um tropeço do São Paulo de Müller, enfrentando o eliminado Paraná (1 a 1), e também contra o Internacional de Leandro Machado, que pegava um já rebaixado Bragantino e contava com 35 pontos, dois a mais que os lusitanos (os gaúchos perderam por 1 a 0). Sem contar o Sport do técnico Hélio dos Anjos, também com 35, que precisava perder pro Palmeiras de Djalminha (4 a 1 pro alviverde). Por incrível que pareça, os deuses do futebol conspiraram a favor daquela vaguinha nas quartas de final e a equipe ultrapassou todos com os seus 36 pontos.

"Tudo acontecia com a Portuguesa", faz questão de dizer hoje o ex-zagueiro César.

Pra relembrar aqueles momentos de glória rubro-verdes, fomos bater papo com Candinho, Capitão, Rodrigo Fabri e César. Eles contaram detalhes, causos e curiosidades de como conseguiram desbancar primeiro o líder e campeão da Copa do Brasil Cruzeiro e depois o Atlético Mineiro da torcida apaixonada, do Filho do Vento Euller e do artilheiro Renaldo. Para encarar a primeira final com o Grêmio no Morumbi, aliás, os quatro recordam que foi necessário até driblar uma noite de caos em São Paulo, com muita chuva e 205,7 quilômetros de trânsito pela cidade segundo a CET.

Confira os depoimentos deles sobre aquela campanha da Lusa.

Capítulo um: a heróica classificação pro mata-mata na última rodada

No Couto Pereira, 4 a 1 pra Portuguesa

CANDINHO [ex-técnico]: O último jogo da primeira fase era em Curitiba porque a Portuguesa estava com o estádio interditado [a Lusa foi punida com três perdas de mando de campo devido aos relatos de agressão sofrida pelo juiz Léo Feldman nos vestiários do Canindé, num empate por 2 a 2 com o Vitória]. Naquele momento, a situação era complicada. Precisamos de uma série de combinações, mas todos os resultados caminharam a nosso favor e pegamos a oitava [e última] vaga.

RODRIGO FABRI [ex-meia]: Nossa maior preocupação era com os outros resultados. Nós iríamos jogar contra o Botafogo, que não lutava por mais nada no campeonato, e sabíamos que tínhamos condições de vencer. Ganhamos o jogo. Fiz dois gols [os outros foram de Gallo e Caio]. O mais bonito foi um em que o [atacante] Tico tocou pra mim, no bico da área, e peguei de primeira – a bola foi no ângulo. Cruzado. Um golaço.

CÉSAR [ex-zagueiro]: Fizemos nossa parte e todo mundo ficou ali sentado no gramado esperando as notícias. O [radialista e atual presidente eleito da Lusa] Alexandre Barros, que cobria a Portuguesa por uma rádio [Mundial], é quem nos passou os resultados dos outros jogos. Foi fantástico e a euforia tomou conta. Nos vestiários, ainda ouvimos uma declaração do [hoje senador pelo PTB-MG] Zeze Perrella, que era presidente do Cruzeiro na época, de que eles pegaram "o adversário dos sonhos". Ali se misturou a vontade de ganhar do Cruzeiro com a felicidade de ter se classificado.

Capítulo dois: O clima de revanche contra o presidente do Cruzeiro nas quartas

No Morumbi, 3 a 0 pra Portuguesa

CANDINHO: Éramos francos atiradores. Nós tínhamos muita molecada – César, Emerson, Zé Roberto, Rodrigo Fabri – e alguns mais experimentados, como Clemer, Capitão, Gallo, Caio. Os mais velhos deram sustentação em campo para os mais jovens, e eu dei ao time a liberdade de jogar tranquilo. Se perdêssemos, já tínhamos conseguido o grande feito de ficar entre os oito primeiros. Então, o time jogou com a cabeça fresca, soltinho, sem medo. Esse foi o segredo.

CAPITÃO [ex-volante]: Às vezes, eu fazia piadinhas dentro de campo. Pra descontrair. Nesse jogo, por exemplo, teve um lance com o [volante do Cruzeiro] Fabinho. A bola subiu, ele cabeceou e o juiz [Dacildo Mourão] deu a falta. O Fabinho disse: "Não tá vendo que tô subindo muito, professor? Não foi falta". Aí falei "Tá bom, Boeing. Vai pro aeroporto de Guarulhos, já que você tá subindo muito". Todo mundo riu – até o árbitro.

RODRIGO FABRI: O Cruzeiro tinha um time magnífico e estava muito bem no Campeonato Brasileiro. Era um time de muita marcação e de qualidade, com o [meia] Palhinha comendo a bola, o [centroavante] Paulinho McLaren fazendo gol de tudo quanto é jeito. Nosso intuito era jogar no contra-ataque, porque sabíamos que o Cruzeiro ia vir pra cima da Portuguesa, mesmo no Morumbi. Conseguimos fazer um gol no primeiro tempo – foi até eu que fiz, no finalzinho [aos 48 minutos]. Depois, no segundo tempo, o Cruzeiro veio pra cima e cometeu seu maior erro, porque, pra eles, 1 a 0 era até um resultado interessante, já que podiam reverter no Mineirão. Aí vieram pra empatar e, no contra-ataque, nós fizemos mais dois [ambos de Alex Alves].

CÉSAR: Depois da partida, todo mundo estava eufórico e queria dar uma resposta pro presidente do Cruzeiro [Zeze Perrella]. Mas não podíamos porque teria mais um jogo.

No Mineirão, 1 a 0 pro Cruzeiro

CANDINHO: Tava na cara que eles iam entrar a 200 quilômetros por hora, mas nós tivemos calma. A Portuguesa jogou com o regulamento.

CÉSAR: O segundo jogo foi mais tranquilo, né? Eles chegaram assustados pelo que viram e passaram no Morumbi. E o Candinho soube explorar isso, mantendo a molecada tranquila, posicionada, sem querer inventar e fazendo o simples. Acho que o ápice da carreira dele foi naquele ano. Tudo o que dizia e planejava dava certo.

A imagem que emociona todo torcedor da Lusa. Foto: Associação Portuguesa de Desportos

Capítulo três: As secas batalhas contra o Atlético Mineiro nas semifinais

No Morumbi, 1 a 0 pra Portuguesa

RODRIGO FABRI: A partida mais difícil de todas. O time do Atlético marcava muito e não encontrávamos espaço pra jogar. Nossa chance de fazer o gol foi num lance individual. Eu consegui me desvencilhar da marcação – até tomei um tapa na cara e não caí – e fiz o cruzamento pro Alex [Alves] completar pro gol.

CÉSAR: O Alex [Alves] fazia diferença. Pra imprensa, ele era quieto porque não queria aparecer nem ser fotografado. E não gostava de dar entrevista. Mas pra nós, era extrovertido e uma das bases do time. Pela habilidade, pela velocidade e por já ter passado com o Vitória [finalista do Brasileiro em 1993] a mesma situação que nós, jovens, estávamos encarando. Tínhamos o Alex como espelho. Então, foi fundamental.

No Mineirão, empate por 2 a 2

CAPITÃO: Tinha umas 120 mil pessoas no Mineirão. Esse número aí [oficial, de 81.533] era de pagantes (risos). Lembro que cheguei no vestiário, coloquei chinelo, calção, colete de aquecimento e deitei na maca. Estava meditando e comecei a escutar "Galo, Galo". Quando olhei pra uma daquelas lâmpadas fluorescentes grandonas [no teto], ela estava balançando! Chamei os caras: "Vem cá, vem cá! Dá uma olhada na lâmpada. Tá tremendo! Tá balançando o estádio!". Aí fui ao campo pra ver. Se você jogasse uma moeda, ela não caía no piso da arquibancada. Não tinha mais espaço.

CANDINHO: O Mineirão balançava com os gritos de "Galo, Galo". Então, quando estávamos pra entrar em campo, ali no túnel, falei "olha, a torcida está com o [volante] Gallo. Estão gritando seu nome, Gallo!". Todo mundo morreu de rir. Brinquei que [a torcida] era pro nosso jogador e foi ótimo. O Zé Roberto e todos os outros falaram "isso mesmo, chefe, o pessoal tá chamando o Gallo" (risos).

RODRIGO FABRI: Logo no primeiro tempo, tomamos um gol [de pênalti, de Renaldo] e foi uma ducha de água fria. Eles tinham a vantagem do resultado igual [1 a 0]. Mas também tínhamos condições e nosso time era guerreiro, de qualidade. Demonstramos isso com a virada no segundo tempo, com os gols do Caio e do Alex [Alves]. Foi meio utópico, sabe? Nós esperávamos fazer um bom Campeonato Brasileiro, com uma equipe formada naquele ano e muitos jogadores [vindos] da base, sem muita experiência. Então, até se classificar entre os oito, o papel estava cumprido. O que viesse dali pra frente era puro lucro. Fomos ganhando confiança, jogando por prazer, e na hora em que terminou o jogo com o Atlético, a ficha caiu. Estávamos numa final de Brasileiro e isso é pra poucos. Aí você se emociona e fala "conseguimos o objetivo".

CÉSAR: Nesse jogo, acabei sendo expulso [aos 32 minutos do segundo tempo]. [Mas] Na hora em que eu estava saindo, o Gallo e os outros falaram "pode ficar tranquilo que nós vamos passar [de fase] por você". E graças a Deus, aconteceu.

Capítulo quatro: a epopéia contra o Grêmio nas finais

No Morumbi, 2 a 0 para a Portuguesa

CÉSAR: Aconteceu de tudo até o apito inicial do árbitro.

CAPITÃO: [Naquele dia, 11 de dezembro]Choveu muito e alagou tudo em São Paulo. Nosso ônibus saiu do hotel [Lord Palace, na Rua das Palmeiras, no centro], andou uns 500 metros e parou. Não ia mais. Aí falei pra colocar o ônibus na contramão porque nós tínhamos batedores [da polícia] na frente e atrás. E os policiais falaram "vamos meter o ônibus na contramão" e mandaram o motorista dar ré. O [José Roberto] Portella, nosso preparador físico, tinha um BMW novinho, esporte, mas não estava com ele no dia, e sim com um Escort. Estavam no carro ele, o auxiliar e a assessora de imprensa da Portuguesa. Quando nosso motorista deu a ré, o Portella vinha atrás. O ônibus veio e pá no Escort! Aquilo era só fumaça e água voando – arrebentou o radiador do carro. Um saiu correndo pra um lado, outro saiu correndo pro outro. E eu gritando "para, para" pro motorista. Aí viram que tinham batido no Escort. Depois de tudo isso, com o ônibus na contramão, conseguimos seguir. Os batedores davam cavalinhos de pau, era um negócio tremendo (risos). Nós chegamos ao Morumbi em cima da hora [às 20h33, sendo que o jogo começaria às 21h40], com aquela muvuca. Já entramos sem dar entrevista, porque não dava tempo, e trocamos de roupa. Ganhamos de 2 a 0 e [aquilo] não afetou em nada. O time jogou bem. Mas ninguém esperava uma chuva daquela magnitude (risos).

Capitão, o capitão do lendário elenco, na sua casa em 2016. Foto: Fernando Silva

CANDINHO: Sempre procurávamos fazer jogadas rápidas com Alex Alves, com Rodrigo Fabri. Hoje vejo o pessoal falar "não tem de ter centroavante fixo, tem de ter o cara que roda", mas eu já não tinha naquela época. O Rodrigo Fabri não era centroavante. Ele rodava com o Alex, com o Caio: vinha aqui atrás [buscar a bola], os dois zagueiros não tinham quem marcar e batiam cabeça. Hoje parece que isso é novidade. O pessoal fala que time da Europa não tem centroavante fixo. Os caras estão atrasados, hein?

RODRIGO FABRI: Eu era o segundo atacante. Nós começamos jogando o Brasileiro com o Nelson Bertolazzi de centroavante. No decorrer do campeonato, como a Portuguesa jogava no contra-ataque e o Bertolazzi era mais pesado, o Candinho optou por mim e o Alex na frente. Deu resultado porque todo mundo vinha jogar pra cima da Portuguesa e nosso time era muito rápido. Nesse dia, meu gol [o segundo da Portuguesa, que abriu o placar com Gallo] foi de centroavante. Numa jogada do Caio, pela direita, em que ele cruzou, eu entrei de carrinho. Ganhei do zagueiro e consegui fazer o gol.

A preparação pra finalíssima

CANDINHO: Minha maior preocupação era com os caras que soltam fogos na porta de hotel, fazem barulho. Até hoje há essa ignorância. Então, o que eu fiz? Fui [pra Porto Alegre] no dia do jogo. Aí não teve problema: todo mundo dormiu bem em São Paulo.

CAPITÃO: Até então, vínhamos dando entrevista normal e a imprensa tinha montado um link no saguão do hotel. Quando estava na hora de tomar café e subir pra pegar as coisas, chegou a notícia de que era pra sair pelos fundos. Já não gostei. Aí ficaram sabendo que os caras [da imprensa] montaram um link lá no aeroporto e veio o papo de que era pra entrarmos com o ônibus direto na pista [pra embarcar no avião]. Começou um negócio de vaidade. Não dos jogadores. Faltou humildade para [a diretoria] nos deixar dar entrevista. De não mudar nada do que vinha sendo feito.

No Olímpico, 2 a 0 para o Grêmio

CANDINHO: Faltando dez minutos [pro fim], dei a ordem pra começar a marcar do meio de campo pra trás. Falei "vamos ver se fechamos os lados e não deixamos nem o Arce receber do lado direito, nem o Roger, do esquerdo". Tava tudo tranquilo até que o [meia] Carlos Miguel, que era um jogador de qualidade, foi buscar a bola na intermediária do Grêmio e deu um chutão. Aí o César cabeceou, a bola caiu na entrada da área e pegou o Aílton sozinho. Ele foi meu jogador no Flamengo e nunca deu um chute de esquerda, mas ali pegou rasteiro [de canhota] no canto. Foi azar, fazer o quê? [Mas] Eu não tenho decepção. Lógico que na hora fala "puta merda, podíamos ter sido campeões". Fiquei chateado porque acho que merecíamos uma chance de ter o terceiro jogo. Ganhei de 2 a 0 deles também. Pra mim, ficou no empate.

CAPITÃO: [O jogo] Já estava dominado. Sei que saiu uma jogada na lateral do campo e todo mundo foi pra área. O que eu fiz? O sanduíche, com o César atrás e eu na frente. Porque se a bola vem e cai no peito dele, eu tiro. Eu e o [goleiro] Clemer sempre falávamos na hora de uma situação de risco de gol. Devia ter falado [pro César] "tira a cabeça" ou "deixa ir pra fora". Não falei nada. Aí ele subiu mais alto do que o [centroavante] Zé Afonso e cabeceou pro chão. Quando ele [Cesar] bateu na bola, o Aílton deu um pique e veio pra grande área ficar de frente [pro gol]. Rapaz, o Aílton pegou uma bomba de pé esquerdo – ele é destro – que foi uma pancada. O Clemer ainda tocou com a mão na bola, mas não pegou em cheio. Tomamos o gol [aos 39 minutos do segundo tempo]. Lembro que olhava pros jogadores do Grêmio, antes do gol, e eles estavam desanimados. Você podia ler [na cara deles] "perdemos". É difícil de explicar. [Mas] Deus quis abençoar o Grêmio. Já fui a programas de TV, de rádio, e sempre cito [a Bíblia, no livro de] João, capítulo 13, versículo 7, numa passagem de Jesus: "o que faço agora você não compreende. Mais tarde, entenderá". Naquela hora, não dava pra entender. Quando saiu o gol, caí no chão e [pensei] "onde eu errei? O que nós erramos?". Depois, entendi. Deus me exaltou e a todo nosso time – pode ver que hoje se fala mais da Portuguesa do que do próprio Grêmio. E exaltou o Aílton, que estava sendo humilhado [era xingado pela torcida gremista nos jogos]. Eu não queria estar na pele do Aílton. "Ah, foi campeão." Tudo bem, mas passar o que ele passou?

CÉSAR: Foi competência dele [de Zé Afonso], que foi no meu corpo e eu cabeceei desequilibrado. Aí a bola foi pra frente. Em outra situação, depois de algum tempo, você também vai no corpo do adversário e a bola passa. Infelizmente, esse lance jogou a favor do Grêmio e o título ficou pra eles. Mas só de ter chegado à final, acho que todos saíram com a missão cumprida. Quando chegamos [a São Paulo], ainda fomos pegos de surpresa [com uma festa no Canindé]. Tínhamos o Brasil, menos os gremistas, ao nosso lado. Jamais esqueceremos. E a compreensão da torcida de que nos dedicamos ao máximo à Portuguesa foi comprovada naquela recepção.

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