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Previsão do Tempo para o Brasil em 2115: Desertos e Ciclones

Enquanto isso ainda soa como ficção, o aumento da temperatura e a mudança no regime das chuvas devem ser realidade. É o que afirma o doutor José Marengo.

por Felipe Maia
04 Março 2015, 5:00pm

Nem mesmo a Caatinga, bioma encontrado apenas no Brasil, pode sobreviver à elevação das temperaturas. Crédito: Julio Winkler/​Flickr

Até mesmo quem curtiu o Carnaval no conforto da realidade aumentada sabe que o ano só começa nessa primeira semana de março. E o que vem por aí não é fácil. São Paulo, a terra da tempestade, enfrenta mais uma semana com fortíssimas pancadas de chuva. Hora de subir os diques dos condomínios e encher as cisternas.

O nordeste, contudo, segue a enfrentar a seca de anos na região do árido. As temperaturas mínimas para as capitais, de Salvador a Fortaleza, estão entre 30 e 31 graus Celsius. Teresina e região podem ter problemas no abastecimento de itens básicos com o fechamento das suas principais estradas, reflexo da tempestade de areia aguardada em todo o deserto do sertão.

Áreas ciclonais podem vir do Atlântico Sul em direção ao litoral de Santa Catarina. A recomendação do governo do estado é permanecer em casa. Os moradores do centro-sul não precisam se preocupar. A zona de baixa pressão não deve chegar à região. O calor promete nessa primeira semana de março de 2115 em Cuiabá. É com vocês aí no estúdio.


Com a gente aqui, cem anos antes, a situação acima não é tão irreal de se imaginar. As linhas emprestadas da escola ​Terraform podem resumir a conversa que José Marengo teve comigo por telefone. Especialista em projeções climáticas, ele traçou um panorama do Brasil daqui a cem anos graças a modelos climáticos complexos que rodam em computadores superpotentes.

Esses estudos acontecem no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Marengo é coordenador de pesquisas do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN). Uma de suas tarefas é produzir grandes mapas de clima a longo prazo para prever catástrofes de fundo climático, mas influenciadas por diversos fatores.

"Qualquer planejamento futuro não pode depender exclusivamente do clima. Ele tem que levar em consideração outros fatores", me disse ele. E para que desertos, ciclones, estiagens e tempestades como os descritos acima continuem como ficção, o especialista alerta para a realidade. "Não adianta um país dizendo que reduziu o desmatamento a zero e as emissões a 5%. Tem que ser um esforço global."

MOTHERBOARD: Quais são as projeções do clima no Brasil para 2100?

José Marengo: Depende da região. As regiões que mostraram maiores impactos estão no nordeste e na Amazônia, com mudanças da precipitação entre 20 e 30% e aumentos de temperatura. Nordeste pode ter um aumento de quatro graus e a Amazônia pode chegar a ter cinco graus a mais. Pro extremo sul a situação em termos de precipitação seria de mais chuva e temperaturas também na ordem dois ou três graus a mais. Só que esse aumento de chuvas na região sul seria na forma de extremos. As chuvas seriam maiores e mas irregulares. Seriam poucos dias com muitas chuvas, mas haveria períodos mais secos — os chamados veranicos. Na região sudeste há muitas incertezas. A maior parte dos modelos dá uma tendência, outra parte dá outra tendência. O que se observa é um aumento da temperatura que pode chegar a até três graus.

Como esse aumento afetaria o bioma da Amazônia?

Tem que se ver a combinação de temperatura, precipitação e carbono. O fato de ter temperaturas mais altas pode ter como causa a concentração de dióxido de carbono. Um dos possíveis cenários na Amazônia, a salinização, é com certeza um aumento de CO2 e da temperatura junto com a redução da precipitação. Nesse cenário — extremo e radical, chamado por uns de perigoso —, a partir de 2050 a Amazônia não funciona mais como um sumidouro de carbono, como funciona atualmente, mas, sim, como emissor de carbono. Isso traria outro tipo de vegetação. Alguns chamam de cerrado, não como um cerrado brasileiro, mas uma floresta sazonal. Isso vai ter consequências porque a floresta amazônica tem um papel ativo na reciclagem, isto é, no transporte de umidade e no ciclo hidrológico. Mudando a vegetação, vai ter uma mudança nesse ciclo que vai ter impactos na Amazônia e fora dela.

"O que se observa é um aumento da temperatura que pode chegar a até três graus"

O regime de cheias do Pantanal também mudaria?

O regime de cheias do Pantanal nem sempre depende de uma ação imediata das chuvas. Você pode ter um ano com El Niño e La Niña e o Pantanal pode subir o nível da água. O Pantanal tem um clima e hidrologia tão estranhos que são pouco estudados. Alguns modelos mostram que a tendência é ficar mais quente e que partes do Pantanal terão redução de precipitação particularmente no inverno e na primavera.

Como ficará o regime de chuvas no semi-árido?

Essa combinação de aumento de temperatura e redução de chuva deixa ver que no futuro essa área pode aumentar em extensão, mas, além disso, podem surgir áreas áridas dentro do semi-árido. O semi-árido chove metade do ano e metade do ano não chove. Tem algumas áreas em que se projeta um clima árido mesmo, em que não chove todo o ano. Essa combinação de clima mais árido e desmatamento e dregradação da terra pode dar início a um processo de desertificação. Essa é uma das preocupações. Se falamos de salinização na Amazônia, o maior medo na Caatinga é da desertificação.

É possível que haja um deserto naquela região em 2100?

São projeções. Essa é uma possibilidade. Pode ser que não aconteça, mas é o pior cenário

Que risco o cerrado corre?

O cerrado tem sido relegado por muitos especialistas. Essa área tem sido muito usada para agropecuária. Esse sistema tem de ser recuperado. Se o cerrado some, o clima com certeza vai mudar. Se você coloca uma cidade gigantesca, maior que Brasília no cerrado, o clima é alterado.

Pro litoral a previsão é de aumento do nível mar?

Isso está sendo estudado agora no Brasil. No litoral de São Paulo, em Recife e na baixada fluminense, quando chove, muitas vezes a água fica armazenada porque não consegue voltar para o mar já que ela está no mesmo nível. Coisas de filme, com ondas gigantes, é fantasia, mas a elevação de poucos centímetros é bastante. Se o mar sobe, a água salgada do mar pode alcançar os aquíferos. E se ela alcança o lençol freático, a água não pode mais ser usada.

Qual o futuro de São Paulo, especialmente falando de água?

Esse futuro depende de muitas coisas. Sempre existe a possibilidade de que a chuva diminua, em todo o mundo. Ou que ela fique irregular. O problema é a variabilidade. Existem tendências que mostram que o volume de chuvas vai aumentar em todo o estado. Tem áreas em que pode diminuir, como na área da Cantareira tem diminuído, mas na área metropolitana a chuva tem aumentado em consequência da Ilha de Calor e do aumento da população. Qualquer planejamento futuro não pode depender exclusivamente do clima. Ele tem que levar em consideração outros fatores. Áreas de risco, por exemplo, são suscetíveis a deslizamento, mas se deve considerar toda uma política de gerenciamento. Não podemos deixar o clima de lado e algumas políticas nunca consideram o clima como importante. Só agora começaram a considerar fenômenos como esse. Segundo o IPCC, secas como essa em São Paulo são improváveis, mas possíveis.

"Coisas de filme, com ondas gigantes, é fantasia, mas a elevação de poucos centímetros é bastante"

Dá pra dizer que, no geral, haverá um aumento de temperatura em todo o Brasil.

Sim. O aumento da temperatura é consistente em todos os modelos. Em áreas continentais como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais, o aquecimento seria relativamente maior em comparação a áreas litorâneas, mas todas enfrenterão o aquecimento.

Poderemos enfrentar fenômenos climáticos a que não estamos habituados, tais como ciclones?

Esse é um dos mistérios. Houve estudos de furacões nos Estados Unidos e alguns grupos de estudos mostram que no futuro pode se ter mais furacões, mas fracos, e outros grupos dizem que teremos menos furacões, mas mais intensos. Áreas que não estão habituadas a isso podem enfrentar esses eventos. Sempre existe essa possibilidade que fenômenos extremos fiquem mais frequentes. Não temos histórico disso, embora tenha o caso de Santa Catarina, mas podem usar esse primeiro como indicativo. Assim como alguns falam que as tempestades com raios estão aumentando, mas ainda não se tem um histórico de cinquenta anos para dizer que temos mais ou menos raios que na década de 50 ou 60, mas, como consequência do aumento de temperatura, também se estima um aumento de tempestades com raios e seus impactos com enchentes, deslizamentos e enxurradas.

Qual é a responsabilidade do homem nessas mudanças?

Depende. A mudança de clima é uma combinação de fatores naturais, como a emissão de carbono pela respiração e pelos vulcões, e pelas atividades humanas, como a queima de combustíveis fósseis pela frota veicular. É uma combinação disso tudo. Não dá pra dizer qual é a mais importante na conta. Se alguém pergunta se a seca de São Paulo é mudança climática a resposta seria: ainda não se sabe. Esse é um fenômeno meteorológico natural, mas se ele se tornar mais frequente, aí teríamos uma indicador. Talvez o impacto da ação humana torne-se mais indicador nas consequências. Chove muito em São Paulo. Tem enxurradas, enchentes, deslizamentos de terra.

Na verdade, esses desastres naturais seriam deflagrados pelo clima, mas tem outros fatores que não tem nada a ver com clima que agravam a situação. São pessoas morando em áreas expostas, áreas de riscos, casas em beira de rios. Em termos meteorológicos, podemos dizer que existe uma atividade pouco clara nas grandes cidade. Em outras áreas, por exemplo, na Amazônia e no Acre, se alguém pergunta se é culpa humana… Talvez tenha algo humano, mas a maior parte é de causa natural. Aquela chuva que vem do norte vai pra lá. É uma combinação dos dois. Não existe uma metodologia para dizer que tanto por cento é causa humana e tanto por cento é causa natural.

O que fazer para evitar esse futuro?

É por isso que o protocolo de Kyoto foi criado. O aumento da temperatura muda tudo. Ele muda os extremos, muda tudo. A temperatura é o ponto principal e o aumento dela, considerando as causas humanas, vem pela liberação de CO2. Com o protocolo de Kyoto pensou-se em reduzir as emissões para que os impactos fossem menores. Há essa negociação internacional, mas ela deve ser feita em todos os países. Não adianta um país dizendo que reduziu o desmatamento a zero e as emissões a 5%. O vento vai trazer as emissões da China para um país que não emite dióxido de carbono. Tem que ser um esforço global.

Isso mexe com fatores como funcionamento indústria, por exemplo, que nem todo mundo quer mudar.

Nossa matriz energética é de combustíveis fósseis. Imagine que há uma empresa montadora de veículos que vá reduzir suas emissões: ela vai ter de fazer demissões em massa. E aí vem problemas sociais. Tem um problemão que muitas vezes deixa a agenda ambiental para um segundo plano.

E o que fazer para se salvar disso?

A história está cheia de civilizações que tiveram um grande domínio e subitamente acabaram por conta de um momento de seca. É o caso das civilizações pré-colombianas. Naquela época não existia a tecnologia que existe agora. O que o IPCC e os grupos climáticos falam é adaptação. Sabemos que o risco está presente, então como fazer, por exemplo, com a água? No nordeste as pessoas usam sisternas. São medidas que, a longo prazo, permite que a população continue vivendo com pouca água. Se usa tecnologias de abastecimento que foram inventadas em Israel, por exemplo. Petrolina está no semi-árido, mas produz frutas todo o ano com ou sem seca. O governo precisa vir com políticas de adaptação. Transposições de rio são formas de adaptação. Trens, transportes massivos que substituam o carro, ciclovias, mas de modo que ninguém morra atropelado por um ônibus. Coisas como essa para que o ser humano se adapte. Alguns se adaptam, outros não. Se chegamos a um aumento de quatro, cinco ou seis graus, será difícil. Aí é o pior dos cenários. É a extinção, assim como aconteceu com os dinossauros. O homem tem essa tendência de sobreviver, acho que essa adaptação é possível. Se o mar subir no Rio de Janeiro, vai ser difícil construir um dique, mas não é impossível.

O círculo é vicioso: o clima altera o ambiente, o ambiente altera o clima…

E se você coloca o ser humano, você tem uma receita para destruição.